07/10/2022
 
 

A praga dos negacionistas

Há um tipo de pessoas vocacionadas para o negacionismo crónico, o que corresponde a uma espécie de exibicionismo.

Nota prévia: É preciso ter consciência de que a pandemia de covid não está erradicada. O Estado tem de ter um plano bem definido para o caso de as infeções voltarem a subir em flecha, o que é provável apesar da gravidade ser menor. Há que executar todo o esquema vacinal de reforço e estar muito atento aos mais frágeis, às crianças e adolescentes no regresso às aulas, elaborando um plano de contingência, coisa que está em falta. Um elemento de análise a ter em conta é a Madeira. Foi a região que mais rapidamente suspendeu medidas profiláticas. Apresenta agora números tendencialmente preocupantes. Em julho, registou 4940 novos casos e 35 mortes. É um indicador que não parece muito confortável. Mais vale prevenir…

 

1. Há dias, um tribunal americano condenou em 44 milhões de dólares de indemnizações um crápula que mantinha uma campanha em que negava a existência de um atentado que matou 25 crianças. É raro saber-se de uma condenação tão extrema e tão merecida como essa. Na Europa nunca tal sucede. O exemplo deveria, porém, atravessar o Atlântico. Os negacionistas funcionam como uma bactéria assassina dentro de corpos saudáveis. Minam as sociedades. Durante anos, muitos negaram os malefícios do uso sistemático do tabaco e do abuso da “fast food” quando já estava mais do que provado o contrário, o que - sublinhe-se - nada tem a ver com a liberdade de se ser fumador ou devorador de hambúrgueres. Nesse campo a opção de cada um não deve ser questionada. Os negacionistas existem em todo o lado e a respeito de muitos temas, sejam situações do quotidiano ou inegáveis factos históricos como o holocausto ou os de extermínios praticados nos regimes comunistas e de extrema-direita. Há, na verdade, um tipo de pessoas com tendência para o negacionismo crónico, o que, vendo bem, corresponde a uma espécie de exibicionismo, mais do que a um pensamento genuíno. Não faltaram casos exemplares. Um deles foi a Sida, que alguns achavam ser um exclusivo da homossexualidade masculina, tese agora levemente ensaiada por certos cidadãos a propósito da varíola dos macacos. Com a covid e as vacinas a alucinação era ainda maior. Tinha a ver com toda uma série de maleitas que os inventores do tratamento supostamente queriam fazer à humanidade. Essa corrente - note-se - mantém-se ainda extremamente ativa, invocando uns estudos e uns grandes professores que ninguém conhece. No campo político-ideológico, temos, desde há uns meses, o negacionismo geoestratégico que explica que os ocidentais não americanos são um bando de imbecis manipulados por Washington, que quer acabar com a Rússia, sendo os ucranianos um povo submetido ao nazismo. Há uma variante que defende que na Ásia a razão está toda do lado da China e não de Taiwan. Noutro campo ainda temos um vasto grupo que considera uma completa falsidade as alterações climáticas. O pensamento é livre em democracia, sendo um princípio fundador e essencial do sistema. É isso que torna esse modelo simultaneamente superior e frágil perante os seus detratores que os negacionistas sistemáticos ajudam de propósito ou por ignorância. Por isso mesmo, a democracia faz bem em defender-se quando impõe, através da aplicação da justiça, penas severas a quem propaga repetidamente mentiras para a minar. Nesse sentido a condenação havida nos Estados Unidos é exemplar e deveria acontecer mais frequentemente noutras latitudes, entre as quais Portugal. 

 

2. Como aqui se escreveu há umas semanas, a resistência de alguns membros do clero católico em esclarecer o que sabem sobre casos de abusos sexuais na Igreja ou as dificuldades que vão sendo colocadas à abertura de certos arquivos prejudicam a imagem da Igreja portuguesa. Podem afetar mesmo a realização das Jornadas da Juventude, a realizar entre nós daqui a um ano. Jogar-se com a ideia de que o tempo tudo apaga é um erro, como também é errado pensar-se que há certos comportamentos que eram aceitáveis há 20 ou 30 anos, quando na realidade nunca o foram para pessoas de bem de finais do século XX, designadamente altos responsáveis da Igreja. Não há atenuantes morais, por muito que os crimes estejam prescritos. Apesar disso, os factos passados não podem servir de arma de arremesso contra uma instituição como a Igreja, que tem a maior obra social de apoio aos desfavorecidos, substituindo-se muitas vezes ao Estado. A circunstância de haver especificidades legais quanto à Igreja não a isenta de denunciar casos graves de qualquer natureza que aconteçam no seu interior. Como em quase tudo, a tempestade que começou longe com o simples bater de asa de uma borboleta chegou cá muito mais tarde e está a atingir a Igreja portuguesa num momento essencial da sua vida. A Igreja tem de esclarecer tudo o que for possível e assumir erros passados, mesmo sabendo que isso irá servir para algumas forças manipularem o assunto em favor de causas hostis ao catolicismo. Em poucos dias muitas coisas aconteceram. O Patriarca de Lisboa foi a Roma, onde o Papa Francisco o recebeu. Ali, D. Manuel Clemente colocou o seu cargo nas mãos do Papa. Foi uma decisão sensata, porquanto uma renúncia direta significaria um reconhecimento imediato de responsabilidade no encobrimento de pelo menos um caso. Veremos o que vai suceder daqui em diante. O Presidente Marcelo já se pronunciou duas vezes sobre a matéria de forma atabalhoada. Inicialmente, pôs quase as mãos no lume pelo atual patriarca e pelo seu antecessor ao afirmar que o conhecimento que tinha deles não permitia imaginá-los a encobrir comportamentos abusivos. Mais tarde, recebeu a comissão que está a averiguar denúncias e foi mais comedido. Insistiu na necessidade de tudo se apurar. Precisamente por ser um católico devoto, o Presidente deveria ter ponderado melhor as suas intervenções. O que tem a fazer agora é esperar calado o desenrolar dos acontecimentos. O silêncio é de ouro, mais a mais num Estado laico.

 

3. Há umas semanas o país político entrou em grande agitação ao saber-se que, em Setúbal, a câmara municipal liderada por comunistas tinha delegado em cidadãos russos pró-Putin o acolhimento burocrático a ucranianos. Mais grave ainda, os tais russos iam pedindo informações aos refugiados que poderiam ser úteis aos invasores. O escândalo foi grande e imediato. Abriu-se logo um inquérito. O problema é que, até hoje, não houve quaisquer diligências, nem apuramento de responsabilidades. Na altura, escreveu-se em muitos lados que haveria outros casos semelhantes no país. Deles também nada se soube. Portugal é assim. Vive num sistema de três tempos: incha, desincha e passa. O caso dos russos de Setúbal já era. O PCP é um exímio praticante da arte de varrer tudo para debaixo do tapete. António Costa também.

 

4. Deve ser dramático ser eleitor no Brasil, um país bipolarizado politicamente. Escolher entre Bolsonaro e Lula é castigo que ninguém merece e muito menos o maior povo lusófono. Também é verdade que cada um faz a cama em que se deita. Se os brasileiros no seu conjunto tivessem tido mais bom senso não estariam reduzidos a uma escolha entre dois facínoras políticos, carregados de casos deploráveis que vão de crimes políticos a comportamentos venais. À distância, impressiona como pode ser tão baixa a qualidade dos protagonistas quando há no Brasil tanto potencial positivo para tudo, menos para criar um futuro coletivo mais próspero, mais pacífico e menos corrupto. É uma atração pelo abismo que nem mesmo a costela portuguesa pode explicar.

 

Escreve à quarta-feira

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