05/10/2022
 
 
Como se constrói ou destrói uma biblioteca?

Como se constrói ou destrói uma biblioteca?

Diogo Vaz Pinto 09/08/2022 18:46

Depois de ser submetida a obras de restauro, e de ser eleita pela revista Time como a quarta mais bela do mundo, a majestosa biblioteca Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, com a sua arquitetura inspirada no Mosteiro dos Jerónimos, ganhou uma enorme popularidade nas redes sociais tornando-se um local de romaria para as hordas que buscam cenários sumptuosos para as suas fotografias e selfies. Quem se lixou foi o público tradicional daquela que era até então uma das joias culturais mais desconhecidas da cidade, e um refúgio de estudiosos que ali encontram a maior coleção de livros de autores lusos fora de Portugal.

 

Emerson escreveu certa vez que uma biblioteca é uma espécie de caverna mágica, cheia de defuntos. Esses defuntos podem renascer, ser devolvidos à vida quando abrimos as páginas dos livros que ali se acham. Por sua vez, Irene Vallejo, prestando um tributo aos bibliotecários, essas centenas de milhares de pessoas em todo o mundo, a maioria delas figuras discretas, vagando entre os séculos como sombras delicadas, merecem a sua atenção numa página preciosa do livro O Infinito num Junco, em que a autora espanhola elogia a sua confiança «no futuro dos livros ou, melhor dito, na sua capacidade de abolirem o tempo». Vallejo enaltece esse esforço tão empenhado e anónimo daqueles que aconselham, incentivam, planeiam atividades e criam pretextos para que o olhar de um leitor acorde as palavras adormecidas, às vezes durante décadas, de um exemplar empilhado numa estante. «Sabem que esse acto tão quotidiano é, no fundo - levanta-te, Lázaro -, a ressurreição de um mundo».

O certo é que estas presenças tão discretas pertencem a uma longa genealogia que remonta ao Crescente Fértil da Mesopotâmia e os seus longínquos antepassados, apesar de terem dedicado as suas vidas à preservação da memória, apagaram-se no encanto pelos textos que tinham ao seu cuidado. Só alguns que também nos falaram com a sua própria voz escaparam ao esquecimento entre o paciente trabalho de catalogação. O primeiro deles será Calímaco, nascendo com ele uma ramificação naquela linhagem: a dos escritores que, nalguma época da sua vida, foram bibliotecários. Goethe, Casanova, Hölderlin, os irmãos Grimm, Lewis Carroll, Musil, Onetti, Perec, Stephen King são alguns exemplos, mas o primeiro que nos vem logo à cabeça é Borges, «o bibliotecário cego que se converteu quase num género literário» (Vallejo).

Sabemos hoje como a própria organização de uma biblioteca, o modo como os livros são catalogados e arrumados de forma a conduzir-nos num percurso em que o centro se desloca e nos arrasta para essa forma de se perder que é o desejo que temos de nos encontrarmos, essa ideia de labirinto ramificado, essa combinação que não cessa de produzir novas aberturas, tudo isso acabou por ter um grande impacto em muitos dos avanços na lógica moderna ou na investigação operativa e na ciência computacional. Como escreveu Borges num dos seus poemas, ordenar bibliotecas é exercer, de um modo silencioso e modesto, a arte da crítica. Assim, muitas das nossas melhores ideias ficaram a dever-se a estas deambulações por um espaço que nos ensina a aprofundar as relações e proporções que nos servem para atravessar um lugar que contém o infinito. Por outro lado, há também essa visão da biblioteca como refúgio onde os sonhos podem compensar-nos da miséria que nos cerca.

Na indeclinável veneração pela vertigem labiríntica das bibliotecas e pelos textos literários, Borges desenvolveu uma forma particular de culto através do qual é possível extrair de entre as variações que se dão na vida dos homens uma espécie de código de símbolos que nos permite estabelecer uma relação com o universo e as suas infinitas variáveis. «Eu espero chegar a uma idade sem aniversários, sem colecções, sem museus», disse Borges. «Tenho um conto intitulado ‘Utopia de um homem que está cansado’ no qual se supõe que cada homem se dedica à música, que cada homem é o seu próprio Brahms; que cada homem se dedica à literatura, que cada homem é o seu próprio Shakespeare, e que, quando morre, se destrói toda a sua obra, porque cada homem é capaz de produzi-la. E não há clássicos, e não há memória, e, desde logo, não há bibliotecas. Porque qualquer homem pode produzir uma biblioteca, ou pode produzir uma galeria, ou pode elevar uma estátua ou construir uma casa. Nessa espécie de sonho a arte é uma preocupação comum, é uma ocupação de cada indivíduo. E, assim sendo, já não haverá necessidade dessas formas burocráticas tão aborrecidas: as histórias da literatura, as bibliotecas, os museus, as colecções…».

Nesta utopia humana em que a medida de uma vida chega para alcançar a vastidão desses homens-oceanos, dos grandes génios, poderíamos abdicar das categorias de que nos servimos para nos orientarmos na infinitude da experiência ou da sensibilidade que produziram algum registo, deixando um rastro fundo e passível de ser seguido, senão como criadores, então colhendo esses frutos radiantes. O certo é que, mais do que um país, com as suas fronteiras provisoriamente demarcadas nalgum mapa, e até mesmo do que uma língua, para alguns os limites do mundo que mais importam estão nesse espaço sempre sujeito a convulsões e a movimentos de terra, o de uma biblioteca que, em muitos aspetos, se parece com um organismo vivo e em constante evolução. Este espaço que cada leitor constrói e a partir do qual alarga o seu imaginário e estende as relações da sua memória, corresponde de alguma forma a um mundo anónimo como aquele desejado por Borges. Mas se as bibliotecas pessoais são territórios autónomos, zonas soberanas em que as fronteiras se transladam, desaparecem e de improviso voltam a aparecer segundo as explorações e o ânimo daquele que as forma e nelas faz as suas incursões, não menos importantes são as bibliotecas públicas com as suas coleções imensas e que se organizam como cidades e que têm dentro de si todas as fronteiras, sendo constituídas por elas, por uma trama densa que faz delas um teatro do mundo e da infinidade das especulações humanas.

E o que nos traz aqui é uma das joias culturais do nosso colonialismo, uma das mais belas bibliotecas públicas em todo o mundo, o Real Gabinete Português de Leitura, fundada há 185 anos no Rio de Janeiro, quando a independência do Brasil contava só 15 anos. Entretanto, esta ganhou uma nova vida depois de ter sido encerrada para obras de restauro, exibindo o esplendor da sua arquitetura neo-manuelina e os interiores de madeira profusamente talhada. Tendo nascido como biblioteca privada, erguida por cerca de 40 imigrantes portugueses como uma imponente cidade íntima, o edifício ficou concluído em 1887, tendo sido inspirado no Mosteiro dos Jerónimos. O fastuoso Salão de Leitura recebe a luz natural através de uma enorme claraboia trabalhada em ferro e vidro pintado. Na reportagem que o El País lhe dedicou esta semana, o presidente da instituição, Francisco Gomes da Costa, explicou que os imigrantes a criaram em 1837 para melhorar a cultura da comunidade portuguesa porque a maioria dos que vinham não tinha educação. «Eles chegavam sozinhos e depois mandavam vir as esposas e filhos. Aquele grupo criou também liceus literários para o ensino da leitura e da escrita, e casas de socorro para lhes dar assistência social». Mas esta imponente e obsessiva pátria secreta tem vindo a receber novos visitantes devido à sua popularidade no Instagram e TikTok, sendo que este público tem criado alguma tensão na convivência com a fauna que tradicionalmente busca estes lugares tantas vezes para escapar do frenesi de um mundo desinteressado do que só acontece quando se acorda as palavras adormecidas nos quase 400 mil livros antigos que ali estão recolhidos. Entre tantas outras edições admiráveis, ali se encontra uma primeira edição de Os Lusíadas, de 1572, comprada à ordem dos jesuítas; as Ordenações de Dom Manuel, de 1521, ou o manuscrito de Amor de Perdição, escrito por Camilo Castelo Branco em 1861.

Este grande santuário da cultura portuguesa no Brasil contém a maior coleção de autores portugueses fora do nosso país, e é um lugar que acolhe muitos investigadores e académicos há décadas, mas, face à sua promoção nas redes sociais, tem vindo a tornar-se cada vez mais um cenário para essa redundante e maçadora mole de seres que procuram expandir o seu álbum de fotografias e selfies nesse regime caracterizado pela destituição dos espaços da sua função, fazendo deles meros simulacros. Nessa inversão em que os conteúdos visuais e auditivos fazem parte da tessitura de uma experiência sem substância, uma nova forma de superego começa a organizar-se a nível institucional e a partir desses registos que circulam para se obter validação e que, sendo embora conteúdos variados, apresentam uma monótona mesmidade de padrões, o que corresponde a um fenómeno de «homogeneização industrial da consciência e dos seus fluxos» (Jonathan Crary), que é precisamente aquilo contra o qual os melhores livros sempre lutaram, essa perda e dissolução permanentemente gerada e que nos deixa cada vez mais dependentes dos bens eletrónicos e serviços mediáticos devido ao processo de atrofiamento da memória e dos poderes da nossa imaginação. É esta multidão que tem vindo a destituir aquela biblioteca da sua própria riqueza ao reduzi-la à sua aparência de forma foi apropriada pelas hordas que pululam na sua sala principal.

Na reportagem do El País foi ouvido o testemunho do coordenador da instituição, Orlando Inácio, que descreveu a forma como estes novos visitantes assaltam o espaço e se fazem fotografar para prosseguirem essa ficção anódina que lhes permitirá ganharem alguns pontos no perpétuo concurso de popularidade que tomou conta da vida online. «Mesmo na ausência de qualquer compulsão directa, escolhemos fazer o que nos dizem para fazer; permitimos que a gestão do nosso corpo, das nossas ideias, do nosso entretenimento e de todas as nossas necessidades imaginárias nos seja imposta externamente», escreve Jonathan Crary em 24/7. E, assim, «os enquadramentos pelos quais se pode entender o mundo continuam a ser depauperados de complexidade, esvaziados de tudo o que não seja planeado ou previsto» e «a gama do que constitui resposta torna-se simultaneamente formulaica e, na maioria dos casos, reduz-se a um pequeno inventário de gestos ou escolhas possíveis».

Esta nova relação com este que tinha sido até há poucos anos um refúgio para especialistas em história, literatura ou cultura portuguesa, depois de, no período entre os Jogos Olímpicos e o Mundial, quando a revista Time entronizou o Gabinete como a quarta biblioteca mais bela do mundo, esta vaga de novos visitantes veio atazanar o regime quotidiano do punhado de investigadores entrincheirados em pequenas mesas e que têm agora de contender com o constante banzé dos turistas e dos cariocas que esperam sacar uma fotografia que lhes renda bem na avaliação de desempenho na fábrica virtual onde os indivíduos hoje trabalham para se sentirem membros valorizados dessa sociedade viral e bastante inócua. Entrevistada pelo diário espanhol, a bibliotecária Sylvia Franca, de 41 anos, notou que, embora seja possível requisitar livros, e ainda que o número de visitantes tenha aumentado de forma exponencial, poucos são os leitores que o fazem.

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