06/10/2022
 
 
Al Qaeda – A eliminação de um líder não significa o fim da ideologia

Al Qaeda – A eliminação de um líder não significa o fim da ideologia

João Henriques 09/08/2022 15:47

RESUMO

Com a morte de Osama bin Laden, a 2 de Maio de 2011, não tardou que as atenções se voltassem para um dos seus filhos – Hamza bin Laden – no que à sua sucessão dizia respeito. Essa missão, no entanto, estaria guardada para Ayman al-Zawahiri, médico e lugar-tenente do fundador e líder da Al Qaeda. Hamza bin Laden acabaria por ser morto numa operação militar norte-americana, ocorrida junto à fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, de acordo com uma declaração do então Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, datada de 14 de Setembro de 2019.

A 31 de Julho, último, e numa nova operação levada a cabo pelos  Estados Unidos, um ataque com drone eliminaria o até então líder da organização, Ayman al-Zawahiri, quando este se encontrava numa casa em Cabul, presença que a liderança afegã alega agora  desconhecer.

Desde a morte do líder carismático da Al Qaeda, Osama bin Laden, este acontecimento é considerado pela Casa Branca como o golpe mais profundo na liderança da organização terrorista.

Numa primeira reacção, uma parte do mundo civilizado – o lado mais optimista, diga-se - vê na eliminação de Ayman al-Zawahiri o colapso da organização terrorista. O certo é que com a morte de Osama bin Laden, num cenário idêntico, em Maio de 2011, tal não se verificaria. Por parte dos analistas não há unanimidade quanto ao futuro da organização terrorista. É caso para perguntar: e agora?

 

ANÁLISE

A 1 de Agosto, último, o Presidente Biden anunciava ao mundo a eliminação do líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, ocorrida no dia anterior, num ataque com drone (armado com dois mísseis da família Hellfire), meticulosamente planeado, levado a cabo pela CIA, numa operação antiterrorista na capital afegã, Cabul, onde al-Zawahiri vivia há meses numa casa supostamente propriedade de Sirajuddin Haqqani, o actual e poderoso Ministro do Interior afegão, naquele que seria o primeiro ataque dos Estados Unidos no Afeganistão com este tipo de arma, desde a sua retirada, em Agosto de 2021. De referir que o até então líder da Al Qaeda, integrava a lista do FBI como número um dos mais procurados pela agência federal.

Com o regresso ao poder dos Talibãs, no Afeganistão, a 15 de Agosto do ano passado, a Al Qaeda passou a conhecer uma nova fase de afirmação devida, em grande parte, ao patrocínio dispensado pela nova liderança afegã. Um recente relatório das Nações Unidas refere, de resto, que a organização passou a beneficiar de uma “maior liberdade em território afegão”, confirmando, assim, informações que circulavam sobre uma aliança entre os Talibãs e a Al Qaeda, a despeito do compromisso de não permitirem a instalação de grupos ou organizações terroristas no seu território[i].

Com a morte de Osama bin Laden, em 2011, Al-Zawahiri passaria a assumir a liderança da Al-Qaeda. Tratava-se de um líder sem o carisma do seu antecessor, mas revelando grande competência, mantendo firmes os propósitos da organização, mesmo em períodos de maior turbulência interna. Já em 2009, o Departamento de Estado norte-americano acreditava que Al-Zawahiri se tornara, de facto, o estratega da organização. Sob a sua liderança, a organização viria a tornar-se mais descentralizada, promovendo fusões com inúmeros grupos islamistas, tanto no continente africano, em particular na Somália (grupo Al-Shabaab), e na região ocidental do Sahel (coligação terrorista Jama'at Nasr al-Islam wal Muslimin), como no subcontinente asiático (AQIS). Objectivamente, sob o seu comando, al-Zawahiri promoveu uma nova e mais forte dinâmica da Al Qaeda na frente sul da Europa, tornando a organização terrorista uma séria ameaça para o Ocidente.

A morte de Ayman al-Zawahiri de imediato abriu o debate sobre a sua sucessão, tendo sido vários os nomes apontados. Apesar de não haver consenso sobre a figura do novo líder, o nome que surge com maior insistência é o de Saif al-Adel, um antigo tenente-coronel das forças especiais egípcias, considerado como um dos indefectíveis da organização terrorista, e que terá como principal rival, Abu Abd al-Karim al-Masri, líder sénior do Hurras al-Din (HaD), um grupo afiliado da Al Qaeda, na Síria. Al-Adel, que se terá refugiado no Irão, na sequência da invasão norte-americana do Afeganistão, em 2001, tem a seu favor um largo registo enquanto operacional, e uma vastíssima experiência nos domínios do planeamento militar. Todavia, a confirmar-se a sua presença no Irão, será inevitável que todas as suas movimentações sejam alvo de monitorização por parte dos serviços de inteligência iranianos, o que será um obstáculo à sua liderança. Certo é que a sua eventual ascensão à liderança da Al Qaeda irá seguramente conferir à organização uma dinâmica bem mais operacional do que a adoptada por al-Zawahiri. Por outro lado, independentemente da figura escolhida, a Al Qaeda, com a morte de Osama bin Laden, viria a transformar-se numa organização descentralizada, numa clara adaptação à guerra que lhe foi movida pelos Estados Unidos; assim devendo continuar.

Com este novo desaire, surgem, inevitavelmente, interrogações acerca do futuro da Al Qaeda e do jihadismo salafista global. Para parte da Comunidade de Inteligência norte-americana, subsiste a preocupação de que a actividade terrorista latente no Afeganistão se espalhe para fora das fronteiras do país e represente a médio prazo uma ameaça para os Estados Unidos, uma vez mais protagonizada pela Al Qaeda. Para as autoridades norte-americanas, a organização estará a avaliar a sua capacidade operativa, enquanto mantém um porto seguro antes de planear operações externas[ii]. O próprio Director do FBI, Christopher Wray, afirmou recentemente que mantém preocupações relacionadas com o potencial para um ataque em grande escala planeado ou inspirado pela Al Qaeda. Wray revelou, ainda, a actual dificuldade na recolha de informações, resultante da retirada dos Estados Unidos do território afegão, o que está a implicar “lacunas importantes em matéria de inteligência[iii]. Continuaremos, todavia, sem saber se a eliminação de Ayman al-Zawahiri, no passado dia 31 de Julho, não terá sido resultado de uma traição de elementos talibãs em busca de uma recompensa.  

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Presumivelmente, a eliminação de Ayman al-Zawahiri assinalará o arranque de uma nova fase na vida da organização. Definitivamente, com a sua morte, a ameaça do jihadismo salafista global representado pela Al Qaeda e pelos suas franquias está longe da extinção. A sua capacidade de mobilização está em crescendo, seja no Médio Oriente, em África ou no continente asiático, onde algumas das suas franquias têm vindo a consolidar-se tanto política como financeiramente. A Al Qaeda estará, igualmente, atenta à polarização política interna dos Estados Unidos, de modo a explorar divisões e a provocar fracturas no seu tecido social.

A confirmar-se Saif al-Adl como a principal figura da organização, a sua liderança trará consigo os atributos de um operacional terrorista ainda jovem e claramente mais orientado para acções violentas, cuja experiência nos domínios da inteligência e da segurança farão dele uma ameaça a ter em consideração.

Sem ser excessivo numa análise pessimista do comportamento das organizações jihadistas salafistas, parece imprudente classificar algumas conquistas do Ocidente como definitivas, porque nestes grupos ou organizações, a morte de um líder não significa necessariamente o fim da ideologia. 

 

Lisboa, 8 de Agosto de 2022

João Henriques
Investigador Associado do Observatório de Relações Exteriores (OBSERVARE)/Universidade Autónoma de Lisboa
Vice-Presidente do Observatório do Mundo Islâmico
Auditor de Defesa Nacional pelo Institut des Hautes Études de Défense Nationale (IHEDN), de Paris

 

[i] AL JAZEERA, 4 de Agosto de 2022

[ii] CNN POLITICS, 5 de Agosto de 2022

[iii] VOICE OF AMERICA, 4 de Agosto de 2022

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