02/10/2022
 
 
Eugénio de Andrade. Um salutar nojo pela poesia

Eugénio de Andrade. Um salutar nojo pela poesia

João Oliveira Duarte 07/08/2022 12:17

No volume que reúne, agora com a chancela da Assírio & Alvim, a prosa de Eugénio encontramos um grande crítico e um leitor atento da tradição e dos seus contemporâneos.

 

Eugénio de Andrade é hoje, tal como foi ainda em vida, um poeta consagrado - que é uma outra forma de dizer que, provavelmente, é pouco lido, servindo para dar nome a ruas e para cerimónias oficiais tão ao gosto deste país de que disse tão mal e do qual manteve uma certa distância higiénica, mesmo que tenha aceite inúmeros prémios e distinções. Mas, para quem não se submeta a um pequeno moralismo muito português, a contradição torna-se um direito ou mesmo um dever.

A sua poesia, ao contrário do que acontece com os grandes nomes com que conviveu, tem uma característica bastante peculiar que acaba por a singularizar: está de tal forma imbuída de kitsch, de tal forma impregnada de corpos esbeltos, de “matéria solar” - título de um dos seus livros -, de pele, de corpos que brilham, que refulgem, de todo esse aparato de um desejo que é hoje, para nós, de um mau-gosto bastante terrível e interessante, que é impossível não gostar dela. Numa frase: tudo é tão kitsch, tão bonito, tão mau, que acaba por se tornar interessante e com uma qualidade incrível.

É preciso igualmente acrescentar que a sua poesia foi abertamente política, mesmo não sendo politizada. Política, não num sentido meio quixotesco, hoje muito em voga, fazendo recair sobre a palavra poética e sobre a sua prática um ónus de ação que nunca poderá ser o dela, mas num sentido bastante concreto: Eugénio de Andrade escreveu poemas explicitamente homoeróticos numa época em que escrever desta forma poderia ter consequências bastante mais graves.

Nesta nova edição da Prosa encontramos muitas vezes a continuação daquilo que já estava presente na sua poesia. O gosto declarado pelas outras formas artísticas (a pintura, a escultura, o desenho e, particularmente, a música, à qual dedica diversas páginas), as alusões ao desejo homossexual, nunca afirmado e nunca negado - deixemos os burocratas do espírito verificarem se os papéis se encontram em ordem -, o “rapazito da Galiza, com quem aprendi essas coisas que se devem saber quando se chega à puberdade”, esses corpos masculinos, cheios de luz, desejo e silêncio, as amizades que cultivou, o conhecimento da poesia, o longo namoro com Espanha. São, certamente, textos desiguais, onde certas obras de outras artes dão lugar a longos devaneios de índole poética (e Eugénio sempre foi muito austero, com um vocabulário muito reduzido ao qual pretendia dar o máximo de energia possível), onde encontramos memórias de infância bastante estilizadas e uma espécie de mitologia pessoal que englobava a mãe e o local de nascimento. Depois, há as entrevistas. É certo que as páginas sobre Pessanha, sobre Pascoaes, nos permitem ver que Eugénio era igualmente um grande crítico, um leitor atento da sua tradição e dos seus contemporâneos, mas as diversas entrevistas coligidas neste volume são talvez um momento maior de toda a obra de Eugénio - pelo desassombro, pela coragem, pelo juízo intempestivo que faz do seu tempo e dos seus contemporâneos. Sobre a classe política, com a qual manteve relações ambíguas (tem páginas de elogio a Mário Soares, mas Soares não era um político comum), afirmava que “levam a gravata às ideias, e parecem sempre acabados de sair do costureiro, nunca de um gabinete de trabalho. Fazem nojo, com tanta cagança”.

“Tenho uma relação difícil com o país, é certo. Alguém há dias me chamou a atenção para o facto de a palavra Portugal não ter aparecido nunca num texto meu. Deve ser verdade. O meu desprezo pela mentalidade daqueles «que nunca levaram porrada», e o regime de Salazar, inviabilizaram o uso da palavra. Como os cantores da rádio tornaram ridícula a palavra amor, e os vates da televisão odiosa a palavra poeta. Há vocábulos que, só de ouvi-los em certas bocas, dão vontade de vomitar”.

Uma outra característica que encontramos em diversos momentos é a austeridade e a parcimónia com que Eugénio encarava a sua própria obra, ao ponto de afirmar, a dada altura, que “trezentas páginas de poesia, quando não se é um Baudelaire ou um Whitman, é duma pretensão insuportável”. Esta singela frase, que devia encimar a produção poética nossa contemporânea, tem um certo travo anacrónico, se observarmos os casos daqueles, infelizmente bastante comuns, que a meio da vida já levam o dobro ou o triplo dessas trezentas que, segundo Eugénio, deviam ser privilégio apenas de Baudelaire ou de Whitman. 

Esta parcimónia, que se nota inclusive a nível vocabular (poucas palavras e uma atenção desmedida à prosódia), dá bem conta de um labor oficinal por parte de Eugénio que, muitas vezes, era levado ao ponto de exaustão - o poema estava pronto depois de ter sido trabalho até à náusea, “no sentido de tudo parecer feito sem esforço, com total desprezo pelo luxo, a ornamentação, o exibicionismo, o espírito de feira”.

“Trabalho durante a noite, ou ao fim da tarde. Reescrevo os textos obsessivamente. Em mim, o ataque do poema é de ordem musical. Uma palavra é como uma nota que procura outra para um acorde perfeito. No dia seguinte releio o que escrevi. O que me parece conseguido surge-me agora débil. Aproveito uma linha, duas, recomeço. Às vezes o poema é feito em minutos; outras, demora dias e dias. Não sei se alguma vez me aconteceu contentar-me com um poema escrito sem emendas. Creio que não. Creio que emendei sempre, e continuo a emendar, a rasgar, a deitar fora, numa gaguez que é uma vergonha.”

Trabalho infinito de reescrita - há poemas de Eugénio que têm um número bastante grande de versões diferentes -, acrescido de uma intensa atenção à musicalidade do poema. O que afirma sobre a sua poesia, e que poderia ser dito, igualmente, da poesia de Carlos de Oliveira, talvez se encontre hoje em claro retrocesso: a produção excessiva, com poetas a publicarem um livro por ano, é indício suficiente de que o trabalho oficinal, o peso e o sopesamento da palavra poética, o rigor arquitectónico que Eugénio colocava nos seus livros, é trocado por uma tagarelice que tomou o lugar da obra - ou mesmo da Obra, em maiúscula, se se quiser ouvir uma certa dose de fatalidade escolhida na escrita.

Depois, claro, há um ódio salutar à poesia, que encontramos por diversas vezes afirmado ao longo dos textos coligidos: “Ler, ouvir música, viajar, amar um corpo jovem é bem melhor que escrever poesia.” ou então: “estive meses e até anos sem escrever uma só linha, com nojo da poesia, como se fora excreção imunda.”. É certo que pode haver aqui uma retórica subjacente muito próxima da inspiração - se tudo aquilo é melhor que escrever poesia (e quem o pode negar?), a necessidade desta, quando surge, tem de ser imperiosa, inescapável, mais forte que tudo isso que é melhor que ela; é também certo que há ou parece haver (mas como decidir?) muita pose em muitas das afirmações que faz - mas a Eugénio desculpa-se, porque o que diz é suficientemente interessante; em todo o caso, esse nojo da poesia, cuja palavra nunca crescerá à altura desses corpos que plantam nela a sua memória, é uma poderosa ferramenta da oficina poética, contrariamente ao pequeno prazer de ser poeta e de escrever poesia que se encontra com frequência aqui e ali.

Mas tudo isto que lemos nas entrevistas e noutros textos, a parcimónia, a atenção à musicalidade, o trabalho oficinal de reescrita cujo resultado final é o despojamento que lemos na poesia, a mitologia pessoal que foi erigindo através da poesia, tem um antecedente que Eugénio de Andrade está constantemente a colocar em destaque: a relação à tradição, a atenção que lhe devota ao ponto de saber de onde vem, com que poetas enceta um diálogo que, no caso de Pessanha, Cesário e Pessoa, vai durar toda uma vida, e para onde vai.

“Ultimamente, dou comigo a pensar que sou dos raros poetas portugueses actuais que escreve com a consciência de que outros escreveram antes dele, e o fizeram com ritmos, sons, estruturas de uma língua comum. Como qualquer outro escritor, tenho uma família, de quem herdei alguns bens, com baixa cotação no mercado, é certo, mas de que sou cioso, e de que nunca me desfiz. São coisas que gostaria de passar a outras mãos, não direi mais limpas, mas talvez mais ousadas.”

Esta relação à tradição, este diálogo intenso que faz com que escreva páginas bastante interessantes sobre Pessanha, por exemplo, ou mesmo Camões, apesar de não ser especialista em nenhum deles e de o seu olhar não se encontrar cheio de notas de rodapé (nada contra as referidas notas, no entanto), é bastante interessante não apenas porque é, ao mesmo tempo, uma das qualidades e um dos limites desta poesia (ela está presa dentro de uma tradição bastante determinada da lírica), mas também porque sinaliza esse desaparecimento progressivo da tradição, ao ponto de hoje a relação poética não se estabelecer em relação ao passado, mas ao presente.

Um exemplo de entre muitos que se poderiam citar dessa progressiva perda da tradição (que não é, obviamente, geral), e que pode ter como consequência paradoxal uma poesia “feita de ecos doutros ecos, pedante, enfática, livresca” (a tradição também se perde no meio de tanto eco, de tanto piscar de olho à tradição), é um pequeno programa de entrevistas a poetas orientado por Teresa Coutinho e organizado pela Casa Fernando Pessoa em conjunto com o teatro Nacional D. Maria II - um pouco injusto se tivermos em conta que surge como negativo do ponto de vista de alguém como Eugénio de Andrade, mas o objectivo aqui é outro que não uma comparação. Nada contra este género de actividade, apesar de padecer do problema de toda a divulgação de poesia que, no limite, acaba por desposar uma lógica de supermercado onde todos os produtos se equivalem, resvalando para uma lógica onde a partir da possibilidade se chega à igualdade - mas Daniel Jonas, Carlos Poças Falcão, ou Margarida Vale do Gato não são a mesma coisa que Francisca Camelo ou Beatriz Hierro Lopes, por mais que a colocação do produto na prateleira “poesia contemporânea” pretenda sugerir o contrário. Mas quem se dê ao trabalho de ouvir todos os programas nota duas coisas: em primeiro lugar, a quase inexistência de referências a outros poetas que não sejam contemporâneos (ou então um elencar de poetas de tal forma díspares que só podemos ficar de sobreaviso) e, em segundo lugar, a absoluta banalidade do que é dito, ao ponto de um exercício interessante consistir em obrigar todo o exército de poetas a escrever um pequeno ensaio - não mais do que cinco páginas - sobre um outro poeta anterior à década de 80 do século passado (sem ser Herberto Helder, claro).

Talvez uma forma interessante de tentar compreender essa relação à tradição que, segundo Eugénio de Andrade, se tem vindo a deteriorar, seja apelar a uma lógica antológica, ou melhor, a uma lógica do “single” - como em música. Submetendo a tradição a um modelo de supermercado, vai-se escolhendo poema a poema, ali uma imagem bem conseguida, aqui uma palavra de que se gosta, organizando a tradição numa antologia interminável onde tudo surge submetido a um estetismo do gosto/não gosto - e daí, deste estetismo, não se consegue sair para nada além de uma reactividade binária que torna impossível qualquer palavra. É o “single”, esquecendo, no entanto, que o “single” não é um álbum e que um álbum não é uma carreira. 

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