12/08/2022
 
 

In claris fit interpretatio

A sanha regulatória é inimiga do vinho: um degrau abaixo do proibicionismo fica a regulamentação, determinando com que cores pode Miguel Ângelo pintar o tecto da capela Sistina.

Napoleão, à semelhança de Astérix, nunca visitou a Lusitânia. Não obstante deixou-nos uma herança pesada: o Código Civil e a administração de modelo francês, capaz de regular até ao absurdo não só a curvatura das bananas a disponibilizar ao consumidor interessado mas também os métodos, tempos e locais de produção do vinho. O Alentejo forneceu um exemplo de escola na diabólica regulação. A casta syrah não estava autorizada na região pelo que quando em 1991 Hans Jorgensen a plantou na Vidigueira não a pôde anunciar na primeira colheita, comercializada em 1998. O contra-rótulo citava um verso de Bob Dylan (“To live outside the law you must be honest”) e, pedagogicamente, por via do negrito nas maiúsculas, informava do conteúdo: Select fruit from Young wines, well Ripened And hand Harvested.

Fazendo jus à bastardia, o vinho respondia pelo nome de Incógnito, tornou-se um sucesso de vendas, então com o preço mais elevado alguma vez atingido por um vinho alentejano. Momentaneamente vencida, a burocracia foi lestamente incluir o syrah nas castas autorizadas no Alentejo. A cepa proibida passou rapidamente a casta obrigatória e durante uns bons anos assistimos a um dilúvio de syrah, infelizmente com vinhos bem menos interessantes do que o Incógnito.

Como os contrários se atraem, a férrea vontade regulatória francesa encontrou na simplicidade da alma americana um terreno fértil. A partir dos anos 70 do século passado as garrafas de vinho passam a identificar as castas empregues e predominam as produções monovarietais (essencialmente no Novo Mundo, Bordéus permanece uma terra de blends, pelo menos nos tintos). Com a clara identificação da casta o consumidor, em qualquer parte do mundo, sabe ao que vai: encontrará as mesmas características de um Cabernet Sauvignon ou de um Merlot qualquer que seja a geografia. A industrialização da produção de leveduras e a proliferação de consultores garantem a homogeneidade da produção e assim a globalização vínica.

Ao dia de hoje combatem-se estes excessos, procura-se a autenticidade, as leveduras locais, os vinhos de garagem, feitos “por quem sabe” e em pequenas produções. Mas o Verão é uma época difícil para quem gosta de vinho. O serviço na restauração é pior do que durante o resto do ano, predominando a abordagem baseada no “estupidamente gelado” (uma tautologia: face à pouca tolerância térmica das nossas papilas gustativas água gelada produz o mesmo efeito e sai mais barata).

No louvável regresso ao passado assinalem-se as tentativas de recuperação dos claretes (que foram quase sempre feitos com misturas de uvas brancas e tintas) e dos palhetes (a regulamentação limita o contributo das uvas brancas a 15%). São boas alternativas aos rosés (em que prevalecem as prensagens suaves de uvas tintas, nos rosés de perfil mais moderno ou, à antiga, a sangria de mosto destinado à produção de tintos) e aos brancos de uvas tintas. Claretes e palhetes, que estão em franca recuperação por Espanha, permitem contornar a ditadura das “castas” sobretudo se forem provenientes de vinhas velhas (e dentro destas as que tenham sobrevivido a sucessivas vagas de arranque de vinhas tradicionais, promovidas e financiadas quer pelo Estado Novo quer pela burocracia da PAC). Nas vinhas velhas estão frequentemente presentes dezenas de castas, com uma componente de castas brancas, a bem do equilíbrio fito-sanitário da vinha e da qualidade do vinho.

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

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