13/08/2022
 
 

Um Almirante que pode trazer tempestade

A eleição do Almirante seria um terramoto político que mexeria profundamente nos alicerces do regime e do sistema, ao contrário do que é costume nas presidenciais.

1. As sondagens são unânimes e não mentem, porque, como sempre, só refletem o estado de alma dos eleitores num dado momento e nunca o do dia do sufrágio. Estudos recentes indicam que Gouveia e Melo é o preferido para substituir Marcelo, embora a cinco anos de distância. A popularidade do Almirante é enorme e percebe-se, embora esteja assente numa coisa impensável num país evoluído: ter cumprido a missão de que estava incumbido. Soube organizar, o que em Portugal é suficiente para ser referência quando se trata de matérias estatais. Na verdade, há muita gente a trabalhar bem, mas, em regra, é fora da órbita pública. A campanha de vacinação covid tornou Gouveia e Melo depositário de um capital de esperança que os portugueses historicamente têm num homem providencial. O comportamento recente do Almirante mostra ser provável que aceite a incumbência lá mais para a frente. As oportunidades de glória nacional são raras para quem não é um político genuíno. Quem tenha uma ideia mesmo mínima da vida na Marinha de Guerra sabe que uma das missões mais stressantes é integrar e dirigir uma tripulação de submarino. Os submarinistas têm especificidades complexas, dado o tipo de vida a bordo e a descompressão nervosa no regresso à base. Aquilo não é para todos e o exercício de comando é notoriamente difícil. É sem surpresa, portanto, que as circunstâncias meritórias acumuladas, o sebastianismo nacional e a óbvia vontade de Gouveia e Melo se perfilar, tornam, hoje, o Almirante a figura desejada. Simultaneamente, verifica-se a quase inexistência no ativo de políticos convencionais confiáveis e carismáticos. A interrogação a respeito de Gouveia e Melo não é se ele pode ou não ganhar a corrida a Belém, porque já se viu que sim. Interessa é saber o que ele faria com esse poder e como atuaria para transformar a sociedade portuguesa cheia de insuficiências. Na tradição nacional (tirando Eanes, que mesmo assim precisou dos partidos), todos os ocupantes de Belém eram militantes partidários e nunca objetivamente repudiaram essa natureza. Nos dias de hoje, um presidente militar, solitário e apresentado como um salvador da pátria tenderia a criar uma dinâmica política a partir de Belém e não para lá chegar. Ninguém imagina uma figura assim limitar-se a um papel decorativo ou ao de um crítico permanente através de discursos inúteis de verbo de encher. Para reformar, teria de ter apoios concretos no terreno e, portanto, na vida política quotidiana. Por isso, uma candidatura vitoriosa de Gouveia e Melo a Belém traria necessariamente a reboque um movimento político para jogar no tabuleiro partidário. Seria uma espécie de PRD como o que Eanes inspirou e foi um flop e um saco de gatos cheio de ingénuos e de oportunistas. Uma eventual eleição de Gouveia e Melo seria um terramoto que mexeria muito mais profundamente nos alicerces do nosso regime e do sistema do que é costume numa eleição presidencial. Abriria uma era imprevisível para o bem ou para o mal. Curiosamente, há largos anos em Belém, um outro Almirante de seu nome Américo de Deus Rodrigues Thomaz, o de Má Memória, teve de ser removido através de um golpe de Estado militar que virou revolução. O que vale é que a história nunca se repete ou será que…?

2. A Festa do Avante! é uma manifestação política. Foi por isso que excecionalmente se realizou durante a pandemia quando o país inteiro estava confinado. O PCP é um partido notoriamente favorável à Rússia e à invasão da Ucrânia, embora se esconda atrás de pífias declarações a favor da paz e contra a guerra, omitindo a natureza imperialista do conflito originado pelos saudosistas do czarismo ou da URSS. Logo nas primeiras semanas da invasão sanguinária aqui se escreveu que a Festa do Avante! permitiria distinguir entre quem objetivamente apoia Putin e quem condena a invasão, em nome de valores democráticos ocidentais. Falta pouco para a festa e o tema está agora na ordem do dia. Quem comprar bilhete vai inegavelmente colocar-se ao lado dos invasores e torcionários. Os artistas que lá atuarem estão no seu direito de escolher, quer compareçam por convicção política ou por dinheiro. Os do dinheiro ficarão equiparados a mercenários como os que os russos acham não poderem ser perdoadas quando defendem a Ucrânia. Há uma diferença profunda entre a festa deste ano e todas as anteriores. Esta não é contra o imperialismo americano e mais umas tretas quanto a supostos regimes de extrema-direita nazis, que não existem há 80 anos. Já não é desse folclore que se trata. Quem for à Atalaia não é democrata, mesmo que tenha lutado contra o Estado Novo e o colonialismo. Lamentavelmente, defende uma ditadura colonial ainda mais cruel, vinda de uma Rússia transformada num Estado terrorista. Já não se trata só de manifestações de carinho com regimes repugnantes como os da Coreia do Norte, China, Nicarágua, Venezuela e Cuba, onde há dias um jornalista enfermo foi condenado a 15 anos de cadeia por delitos de propaganda inimiga de caráter continuado. Agora o que está em causa é apoiar um Estado que põe o mundo à beira de uma guerra mundial. Um democrata nem de borla e com Tudo Incluído porá os pés na Festa do Avante!. É tão simples quanto isso. 

3. Um exemplo de coerência, coragem e generosidade é nos dado permanentemente por Ricardo Baptista Leite, um médico e político diferente do padrão normal. Na pandemia, foi memorável o seu apelo de 2019 quando se levantou no Parlamento a pedir que fosse decretado o estado de emergência, contribuindo para salvar milhares de vidas quando não havia vacinas. Hoje, Baptista Leite está a servir uma temporada como médico voluntário na Ucrânia. É um exemplo que honra o parlamento, as instituições portuguesas, o seu partido e aqueles que o admiram. Há figuras que ultrapassam claramente o seu espaço político. É o caso! 

4. Vai para duas semanas realizou-se, em Aveiro, um congresso do CDS. A magna reunião teve uma grande importância política pela substancial circunstância de praticamente ninguém ter dado por ela. É o chamado efeito perverso. Tal como está, já nem o PSD pode salvar o CDS, como aconteceu tantas vezes. Rodrigues dos Santos era um líder errático. Nuno Melo é, para já, uma inexistência. E assim desaparece progressivamente um partido que o próprio MFA fez questão que existisse na fundação da democracia.

5. Há dias foi publicada uma informação segundo a qual os portugueses são o povo da União Europeia com menor literacia financeira. Uma sorte para a banca que os engana de todas as maneiras e feitios, sem que a regulação atue ou haja campanhas de informação adequadas. Por exemplo, agora as taxas de juro de empréstimos estão a subir depois de terem baixado para mínimos históricos e irrepetíveis. Teria sido adequado os clientes fecharem taxas fixas. Foi isso que aconteceu em vários países. Cá, não. Isto porque a nossa banca vive de comissões e armadilhas. Nos outros países tem de se esforçar e saber investir.

6. Os lisboetas vão se habituando às (des)organizações Carlos Moedas. Nada corre como previsto, nem no tempo anunciado. Finalmente, chegaram os transportes grátis para os lisboetas maiores de 65 anos e até aos 24, em determinadas condições. As estruturas emissoras dos passes mantiveram-se sensivelmente iguais e a confusão tem sido total face à afluência. Juntou-se a inoperância camarária à incompetência da gestão da Carris. Uma soma letal para os cidadãos. Talvez não seja caso para chamar um Almirante. Se calhar chegava um comandante da Marinha Mercante.

Escreve à quarta-feira

Os comentários estão desactivados.


×

Pesquise no i

×
 


Ver capa em alta resolução

iOnline