30/11/2022
 
 
Ucrânia parte para o contra-ataque e tenta cortar os abastecimentos de Kherson

Ucrânia parte para o contra-ataque e tenta cortar os abastecimentos de Kherson

AFP João Campos Rodrigues 28/07/2022 09:01

Aproveitando o facto de os invasores se focarem no Donbass, os ucranianos tentam cercar as forças russas em Kherson, atingindo uma das poucas pontes que vai dar à Crimeia. E já há guerrilheiros ativos na cidade.

Kherson, a primeira grande cidade ucraniana tomada pelas forças do Kremlin, está na mira do Governo de Kiev, que tem sucessivamente atingido a ponte de Antonivskiy, uma das poucas vias para atravessar o rio Dnipro e chegar à península da Crimeia, o principal ponto de abastecimento das forças russas nesta região.

A contraofensiva dos ucranianos em Kherson, aproveitando a concentração do regime de Vladimir Putin no Donbass, no leste, ameaça deixar os ocupantes desta cidade isolados. Talvez pela primeira vez desde o início do conflito, são os invasores em risco de ficar cercados, não os defensores.

A detonação de pelo menos 18 mísseis na ponte de Antonivskiy, esta quarta-feira, batendo as defesas aéreas russas, demonstra que as forças ucranianas estão mais próximas do que o Kremlin gostaria, tendo o Governo de Kiev conseguido retomar uma série de vilas e aldeias na região É assumido que o ataque recorreu às baterias de mísseis americanas M142 HIMARS, que têm um enorme alcance de até 80 km, cuja chegada foi apresentada com uma viragem decisiva no conflito.

No entanto, isto também pode ser sinal que a Rússia sofre de alguma escassez de munições na região. Os invasores utilizaram bombardeamentos maciços de artilharia para conquistar o que sobrava de Lugansk e desgastar as posições ucranianas em Donetsk, enquanto em Kherson chegaram ao ponto de recorrer aos seus mísseis S-300 para atingir alvos terrestres, registou o Institute for the Study of War, ao longo das últimas semanas. Estes mísseis, muito precisos, mas com uma carga explosiva relativamente baixa, são ideais para atingir aeronaves ou servir como defesas aéreas, não para bombardeamentos.

A expectativa é de que esta seja uma batalha de grande escala, com as forças russas na defensiva. “Há um receio real entre os russos de que possam acabar por sofrer algumas derrotas estratégicas no sul”, apontou William Alberque, investigador do International Institute for Strategic Studies, citado pelo Moscow Times. “É uma questão de quantas forças a Ucrânia consegue atirar para a frente”.

Já o Governo de Kiev desdobra-se em promessas. “Podemos dizer que aconteceu um momento de viragem”, garantiu Sergiy Khlan, conselheiro da administração ucraniana de Kherson, citado pelo Kyiv Post, este domingo. Assegurando que a sua região “definitivamente será libertada até setembro”. 

Contra-ataque Kherson, flanqueada pelo Dnipro no leste e por um afluente deste, o rio Inhulets, a norte, não é fácil de tomar, mas também não é nada fácil de abastecer. Os ucranianos estão entrincheirados em Mykolaiv, um ponto estratégico onde a ofensiva russa foi travada no início da invasão, barrando o caminho até ao porto de Odessa. E as linhas de comunicação russas para a Crimeia dependem de três pontes.

Todas elas foram atingidas pelas forças ucranianas ao longo das últimas semanas, tendo inclusivamente o tráfego através de Antonivskiy sido interrompido na quarta-feira, admitiu a administração instalada pelos russos. Já a ponte ficou crivada de crateras, que os invasores prometem reparar o mais depressa possível.

Uma das mais arriscadas manobras militares Forças russas têm tentado reagir estabelecendo testas-de-ponte através do Inhulets, de maneira a conseguir voltar a transportar equipamento pesado, lê-se no mais recente relatório do Institute for the Study of War. Mas os precedentes não são favoráveis aos russos.

Recorde-se que mesmo no Donbass, onde a concentração de invasores era maior, uma das mais duras derrotas sofridas pelo Kremlin foi tentando cruzar o Donets – a travessia de rios é vista como uma das mais arriscadas manobras militares – e perdendo no processo mais de 80 veículos, mostram imagens de satélite vistas pelo Wall Street Journal.

Pelo meio, as forças ucranianas têm utilizado M142 HIMARS para atingir depósitos de munições inimigos nos arredores de Kherson. “Provavelmente dificultando a logística russa na região”, aponta o Institute for the Study of War.

“Qualquer ponte é um ponto fraco para a logística”, salientou Serhiy Khlan, antigo conselheiro do governador de Kherson, afastado pelos russos, numa publicação no Facebook. “Esta ainda não é a libertação de Kherson, mas um sério passo preparatório nesse sentido”.

Aliás, foi a inesperada sobrevivência da ponte de Antonivskiy, logo no início da invasão, que permitiu que Kherson fosse tomada tão facilmente. Antes da guerra, autoridades ucranianas asseguraram ter plantado explosivos na ponte, mantendo guardas prontos a rebentá-la no caso de uma ofensiva russa vinda da Crimeia.

No entanto, isso nunca aconteceu – pensa-se que devido à infiltração russa nos serviços secretos ucranianos, daí que Volodymyr Zelensky esteja tão decidido a purgá-los, tendo dezenas de agentes sido despedidos, investigados ou detidos por traição – e dezenas de milhares de invasores conseguiram atravessar, mais centenas de tanques. 

Atacar para que russos “nunca se sintam seguros” Já no que toca à contraofensiva, agora são as forças ucranianas que esperam contar com colaboração interna. Kherson tornou-se um dos grandes centros de um movimento de guerrilheiros ucranianos locais, com apoio das secretas, que se têm dedicado a atos de sabotagem e assassínios. 

“A ideia é que os ocupantes sintam sempre a presença dos partisans”, considerou Serhii Kuzan, investigador do Centro Ucraniano para a Segurança e Cooperação, usando o termo equivalente a “guerrilheiro” na Europa de Leste, memória dos tempos da resistência aos nazis. Os seus constantes ataques pretendem que os russos “nunca se sintam seguros”, explicou o Kuzan, o mês passado, ao Guardian.

Levando a administração nomeada pelo Kremlin, recorrendo a dirigentes locais pró-russos ou vindo da própria Rússia, a recusarem-se a trabalhar até que segurança fosse providenciada pelo Serviço Federal de Segurança (FSB, em russo), as secretas do Kremlin, avançou a Ukrinform.

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