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México. "El Zafarrancho!" Como combinar um jogo de morte e fuga

México. "El Zafarrancho!" Como combinar um jogo de morte e fuga

Afonso de Melo 19/07/2022 22:28

Foi em 2020, chamaram-lhe “amistoso”: uma partida de futebol entre prisioneiros dos dois maiores cartéis de droga do país, o Golfo e os Zetas.

Não sei de quem foi o diacho da ideia mas, francamente, não foi boa. Na véspera de Ano Novo 2020, com um espírito de abertura bastante impróprio para um lugar cujo nome também não faz justiça ao ambiente de extrema violência que o envolve, o Centro Regional de Reinserción Social (Cerereso) Varonil de Cieneguillas, no Estado de Zacatecas, no México, pôs-se em prática um jogo de futebol entre prisioneiros ligados aos dois maiores cartéis de droga do país, o Cartel do Golfo e o Cartel dos Zetas.

Nestas coisas de cartéis, não há que deixar de fora a possibilidade de tudo ter sido combinado entre as chefias de ambos, muros da penitenciária para dentro, e colocado à frente dos directores do centro como caso que nem merecia discussão.

Se os responsáveis estavam dispostos a correr a vida por causa de um mero jogo de futebol, seria lá com eles. Mas não restam hoje, depois de mais de dois anos passados sobre o evento, a certeza de que a morte era para ser levada para dentro das quatro linhas, custasse o que custasse. E que, pelo meio de mortos e feridos, alguém havia de escapar, como nas legendas dos velhos livros de cowboys, isso também deveria ser certo. Escapar de escapar mesmo. Não apenas com vida. Escapar de ficar livre, do lado de cá dos muros.

A imprensa mexicana deu-lhe um nome curioso: “El Zafarrancho!” Em português, talvez a tradução mais correcta fosse – limpeza total.

Só pelas 17h00 do dia 1 de Janeiro é que começaram a saber-se notícias oficiais de Cieneguillas. Os jornais referiam que uma tranquibérnia entre reclusos tinha levado ao uso de armas de fogo e de navalhas e que havia no mínimo 16 cadáveres contabilizados além de um número ainda indefinido de feridos com certa gravidade.

Só dois dias depois é que tornou público que o futebol tinha sido motivo da confusão. Ou pelo menos, culparam o futebol, o futebol é sempre fácil de culpar pela violência e pela animalidade dos homens que o praticam. A verdade é que, ao que parece, nem sequer chegou a haver jogo. Nem vencedores nem vencidos: perderam todos!

O amistoso! O jogo, mais tarde referenciado pelos relatórios oficiais como “amistoso”, serviria para estabelecer uma espécie de tréguas entre os elementos dos dois cartéis que passavam os dias em rififis, quase não havendo um em que dois ou três homens não tivessem de baixar à enfermaria.

Presumiram as autoridades, depois do inquérito, que o “amistoso” fora combinado com toda a intenção de não ser amistoso coisa nenhuma, entrando os jogadores de ambas as equipas em campo com armas escondidas no equipamento e destinado a criar um tal ambiente de descontrolo que permitisse pôr em prática alguns planos de fuga antecipadamente desenhados.

Marcado para as 14h30, o pontapé de saída seria uma facada de saída, com um dos jogadores a deixar de imediato o adversário por terra com um golpe profundo nos intestinos. A partir daí... El Zafarrancho! Os guardas, que estavam preparados para (quase) tudo, conseguiram efectuar de imediato os movimentos estratégicos que impedissem qualquer fuga. Mas foram surpreendidos pela forma violenta com que os jogadores de ambas as equipas se atiraram uns contra os outros e pelo número de armas de fogo que tinham em sua posse.

A Secretaria de Seguridad Publica emitiu um comunicado o mais minimalista possível: “La tarde de este martes se registró una riña al interior del Centro Regional de Reinserción Social (Cerereso) Varonil, que dejó como saldo el fallecimiento de 16 personas privadas de su libertad, así como cinco más lesionadas”. 

As revistas aos prisioneiros postas em prática nas horas que se seguiram permitiram que fossem descobertas muitas outras armas brancas e mais uma arma de fogo. Não ficaram a restar grandes dúvidas que ambos os cartéis tinham enganado a direcção prisional com a intenção de um jogo falso. De péssimos resultados.

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