12/08/2022
 
 
Giovana Madalosso. Até o inferno pode ser roubado

Giovana Madalosso. Até o inferno pode ser roubado

Rita Homem de Mello 18/07/2022 14:39

Giovana Madalosso (Curitiba, 1975), a autora de A Teta Racional e Suite Tóquio leva-nos de volta ao seu Brasil de sempre. Mergulhado de corpo inteiro na “incapacidade contemporânea de contemplação.”

Tudo Pode Ser Roubado publicado recentemente pela Tinta da China é a história de uma garçonete de um badalado restaurante de São Paulo que aproveita a mínima ocasião para roubar quem mais se puser a jeito. Como habitual é a mulher a ocupar o centro desta narrativa e o vale-tudo, o motor de arranque de um país engrenado na apatia, num desânimo convulso.

Vai ser pelo olho vivo e revirado desta garçonete que vamos peregrinar em pecado sem remorso nem hora marcada pela cidade Paulista "cinza e vertical, aqui e ali pontuada por uma pichação ou por uma janela mais intrigante, com pequeninos traços de horizonte escapando como esmolas entre as construções." Vamos deambulando com ela pelas avenidas de elite Óscar Freire ou Faria de Lima ou na rua do Glicério "na sua mais completa exuberância, cheia de lixo e viciados em crack revirando sacos, pitando cachimbos ou andando para lá e para cá na sua conhecida paranoia." Em festas de judeus milionários e influentes, na universidade FAAP, em concertos de música clássica ou em churrascos polvilhados de cocaína, farsas e estranhas relações poliamorosas. Em delegacias de polícia deprimentes, entre os néons de hotéis de beira de estrada. Pelo meio de gente esfarrapada ou entre a “boiada de sangue azul”. Entre caixas de papelão, fogareiros ou tropeçando em bolsas Chloé, Bottega Veneta, sapatilhas Chanel, blazers Laurence Kazar, óculos Tom Ford, peles de raposa ou botões de punho Pierre Cardin.

Jovem, solitária, sem escrúpulos e extremamente sedutora, esta personagem cujo nome desconhecemos é oriunda de uma cidadezinha do interior. Sabemos que só há meia dúzia de anos é que começou a roubar e rouba porque quer dar a entrada para a compra de um apartamento. Depois de assistirmos à sua exímia prática de furtos e de sabermos o quão competente ela é surge Biel, um homem que irá fazê-la pensar duas vezes. Biel vai-lhe propor um acordo indeclinável a mando de um intrigante colecionador de livros raros: roubar a troco de uma bolada de dinheiro o primeiro exemplar da primeira edição de O Guarani de José de Alencar. Acontece que esse livro está nas mãos de Cícero, um solitário e desolado professor universitário que investiu todas as suas poupanças na aquisição dessa relíquia. Essa proposta irá mudar radicalmente o trilho da vida da garçonete. Um trilho que a partir daí será ainda mais solitário, periclitante, sujo, vazio, assustador e avesso à normalidade.

A estreia da autora deu-se com o livro de contos A Teta Racional. Nessa coletânea houve precisamente um que ficou de fora, descartado, um conto sobre uma garçonete cleptomaníaca. Ficou descartado talvez por ser o único a não abordar a temática da maternidade e da amamentação como os restantes. Esse conto que era para ser um texto breve, começou a tornar-se mais consistente até ganhar a forma de romance. De um romance magnético, desconcertante, compulsivo, sem floreados, tal como o Brasil que nos apresenta. Sim, porque este Brasil que Madalosso nos dá para pôr no colo vira-nos do avesso e não há canção de ninar que embale este país soluçante e desassossegado. 

Há obras que elegem um país ou uma cidade com um determinado foco para objecto de reflexão. Nos livros de Madalosso parece passar-se o inverso. É o país, neste livro em especial, a tão atiçada e surpreendente São Paulo que parece eleger a sua obra como ninho no veio de um ramo. Não é a obra que gravita em torno desta São Paulo. É São Paulo que brota da sua obra. Como semente, um hematoma, um pelo encravado ou um fungo. Madalosso trata a cidade por tu, abocanha-a pelo cachaço. «Ah, São Paulo, como te amo, cidade onde o esforço sempre compensa, perspetiva de pró-labore e bônus até para os batedores de carteira.» Sabe de cor o seu cardápio, o dízimo que ela cobra para se deixar habitar. Sabe ler de olhos fechados as linhas desvirtuadas das suas artérias, da sua brutalidade, dos seus sebos, da sua líbido. «Essa era a São Paulo de que eu gostava, a São Paulo depois do expediente, quando as pessoas afrouxavam a gravata e deixavam entrever, como flores sinistras rebentando pelo corpo, as marcas de viver numa cidade tão obcecada com a produtividade. Porque, no final, a verdade sobre uma cidade é esta: o que sobra de cada um depois que as luzes dos escritórios se apagam. E aqui, como todo mundo sabe, o que sobra é pouco, um emocional talhado pelos excessos, um terreno propício para as patologias se instalarem. Mas eu ainda preferia ver as pessoas assim, na sua face mais combalida, do que projectando virtudes de curriculum vitaes à luz do dia.» Sem dúvida que a escritora prefere ver a realidade e mostrar-nos a realidade como ela é. Arrasada, combalida, petulante, furiosa. Sem nenhum brilhozinho nos olhos. Sem filtro. Ao largo de uma lente cor-de-rosa. Submersa na incerteza, no império lendário do desencanto.

A Tinta da China tem vindo a publicar a obra desta feminista que ainda este mês de junho, dia 12, conseguiu reunir mais de quatrocentas escritoras brasileiras na arquibancada do estádio do Pacaembu durante a Feira do Livro de São Paulo numa fotografia única e memorável. Pretas, brancas, citadinas, da periferia, do interior, poetas, novelistas. A autoria deste registo coube a Mariana Vieira Elek que revelou ter sido “muito emocionante ter sido a mulher que clicou o gol mais bonito já marcado na história do Pacaembu. Ver de perto a luz do sol batendo em cada um dos quase quinhentos sorrisos que atravessaram as minhas lentes foi um dos melhores presentes que já ganhei nesta vida.” Ao jornal Folha de São Paulo a fotógrafa confessou que a escolha do local para a fotografia “Além de uma questão prática, também tinha o simbolismo de preencher um espaço simbolicamente masculino com mulheres.”

Madalosso quis fazer um registo semelhante ao que o fotógrafo americano Art Krane fez num dia de verão de 1958 em Nova York com os músicos de jazz da época. Esse registo fotográfico a preto e branco que ficou conhecido como “Um Grande Dia no Harlem” reuniu cinquenta e sete cantores na 17 East 126 th Street com a Madison Avenue. São fotografias como estas que fazem a diferença. Se a de Art Kane foi crucial no campo da música jazz, a de Elek em especial é um marco na literatura brasileira. Por nunca ter havido tantas mulheres a escrever no Brasil, por nunca se ter dado tanto valor à escrita no feminino, esta pode ser considerada uma foto-bandeira, uma espécie de logo feminino da literatura actual.

Madalosso, perita em desengavetar estereótipos, fez questão em posicionar na primeira fila as escritoras negras, as periféricas e menos conhecidas. Consegue-se ler nos cartazes que estas mulheres escritoras seguram frases como “O ferro jorra por entre as pernas dessa mulher que voz/ sangra”; “Mulheres negras importam” ou “O primeiro romance publicado no Brasil foi escrito por uma mulher negra.” Foi? Foi sim. Para quem não sabe essa autora chama-se Maria Firmina. Mas não são apenas cartazes que elas levantam esfuziantes no ar, são livros delas próprias na grande maioria. Depois deste acontecimento histórico, outros iguais se multiplicaram em outras cidades e também em outros países.

Agora um salto até à belíssima capa de Tudo Pode Ser Roubado.  Mais do que pelo seu apetecível apelo estético a capa que é da autoria de Vera Tavares cativa-nos pelo mistério. Por ser tão chamativa (ainda que sóbria) e tão pouco óbvia. Isto porque só no antepenúltimo capítulo perceberemos o que significam o tronco desmembrado, os braços e uma perna jogados a um canto no fundo azul da imagem. Tudo bem que numa primeira leitura podemos facilmente identificar a figura feminina de biquíni com Sandra no seu estilo Riviera, a manequim do brechó (loja de roupa em segunda mão) da transexual, elegante e frágil Tiana, mas e o resto? O que fazem ali aqueles pedaços de um corpo desmembrado? Só mais tarde iremos perceber tudo e é nessa altura que vamos usufruir o gozo pleno da ilustração. Uma ilustração que ao colocar lado a lado um corpo ao alto e um corpo aos pedaços, desmembrado no chão nos encaminha de imediato para uma ideia de mutação, e na verdade é em acelerada mutação que ao longo dos vinte e sete capítulos a narrativa, o tempo, as emoções e a própria cidade se vão dispor. Ziguezagueamos por isso a todo o momento numa mutação constante e num jogo de antagonismos onde todos os personagens, compulsivamente focados na sua estratégia de sobrevivência se vêem alheados ao sistema.

Comecemos pelo modus vivendi da garçonete, de Biel e do seu chefe. Lembremo-nos de Tiana que pela sua sexualidade pouco ortodoxa aos olhos de todos também se sente alheada do mapa da convencionalidade. “A Tiana disse que nessa hora teve uma sensação estranha, de ser uma farsa, como um homem que se veste de mulher no Carnaval ou como uma mulher que carrega um corpo que não é o seu. E não é isso que você é?, perguntei. Uma mulher carregando corpo que não é o teu? Claro que não. Eu sou tudo isso que eu sou, que não é homem, nem mulher, talvez nem trans, porque às vezes também não me sinto trans. Aí você tá complicando, falei. E ela me disse que os outros é que complicam. Que não entende a obsessão das pessoas com gênero, uma necessidade de viver enquadrando os outros numa categoria, como se a sexualidade e suas derivações fossem a coisa mais importante que existe, quando na verdade são apenas uma pequena parcela do que somos, a nossa tão vasta existência precisando passar por um buraco de agulha.”

Mas não são apenas estes os personagens pouco convencionais. Ainda faltam os casais poliamorosos, o pastor evangélico que além de navalhar a relação conjugal com a mulher abusa à descarada de menores ou mesmo o Noiete, «o craqueiro com transtorno obsessivo-compulsivo que organiza de forma doentia o lixo que junta por aí, enfileirando na calçada moedas ao lado de moedas, bitucas ao lado de bitucas, quem sabe numa tentativa de botar ordem no caos incontrolável que fervilha dentro e em volta dele.” Agora resta a pergunta: será que este jogo de antagonismos que a autora nos propõe não passa de uma forma de nós próprios também encontrarmos alguma ordem nos nossos dias? Mas como encontrar alguma ordem, algum respeito ou qualquer valor se através das guelras desta cidade e dos seus habitantes só respiramos mentira?

O nome do homem que propôs à garçonete o roubo de O Guarani é mentira, as intenções de Marcelo, o homem por quem Tiana, a dona do brechó se apaixona são mentira, as camisolas de lã que toda a vida a mãe da garçonete costurou dizendo que eram para os pobres não eram para os pobres. Outra mentira. O trabalho na faculdade que a personagem principal mostra a Cícero para o impressionar é falsificado. É sempre de mentira cada morada ou o número de telefone que ela dá aos homens com quem se deita. Mas o leitor facilmente se amarra à vida de mentira que a personagem principal leva. E com ela se sente cada vez mais próximo. É ela a sua parceira no crime, na sacanagem. É com ela que tão bem começa a saber etiquetar cada pessoa nas categorias “altamente roubável, razoavelmente roubável ou pouco roubável.” Mas o saber etiquetar cada pessoa não passa só por aqui. Passa por criticar também. Criticar a falsa moral, a ambição de tantos, a futilidade, o ensino, a superioridade intlectual.

Através de Cícero, Madalosso faz uma crítica ao altar universitário, ao conhecimento engaiolado. «Sempre pensei que o conhecimento servia para libertar as pessoas, mas agora também percebia que, aliado à vaidade ou à insegurança, também servia para construir belíssimas gaiolas.» A autora, sempre pautada pela ironia e por um sarcasmo peculiar, aponta também o dedo aos valores que se vão dilacerando graças à cartilha das redes sociais e à doutrina oca da televisão. Vejamos o exemplo do antropólogo que ruma à Amazónia para fazer um registo de músicas tradicionais porque os indígenas graças à televisão começaram a cantarolar os anúncios publicitários que iam passando nos intervalos da programação. «Queria registar as canções antes que elas se perdessem, porque a televisão já estava avançando por lá e afetando a cultura local. Na tribo Korubo, por exemplo, o amigo dele tinha visto uma índia embalar a filha cantando o jingle de um comercial de colchões. Pra ter sono bom, Ortobom, ele ouviu a indiazinha cantar, listando em seguida o endereço das lojas na mesma melodia.»

É incrível como quase que nos fica colada a melodia da indiazinha ao ouvido. Como quase que batemos de frente contra a porta dos fundos para onde as janelas esventradas dos sonhos de todas as personagens desta história dão.

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