12/08/2022
 
 
Kaali. Como um poster de cinema abriu uma "guerra" na Índia

Kaali. Como um poster de cinema abriu uma "guerra" na Índia

DR Sara Porto 11/07/2022 19:32

No poster do documentário Kaali, uma mulher vestida como a deusa hindu fuma um cigarro com a bandeira do orgulho LGBTI+ como fundo. A partilha da imagem pela cineasta indiana, Leena Manimekalai, no Twitter, tem originado uma enorme controvérsia no país.  

Sabemos que é impossível que todos os filmes agradem a “gregos e troianos”. É impossível que toda a gente possua uma só opinião relativa a uma imagem, uma ideia, uma ideologia. Felizmente, em Portugal, quando existe uma discórdia, nomeadamente a nível religioso, normalmente e atualmente, esta não passa de uma troca de opiniões ou “galhardetes” nas redes sociais, onde cada um defende a sua visão.

E, por mais que o possa fazer de uma forma menos correta, ou mais agressiva, por norma, esta acaba por “morrer” com o passar dos dias. A isso chamamos liberdade de expressão, liberdade de criação e liberdade religiosa. Contudo, como sabemos, este não é o cenário em muitos outros países. E, recentemente, um poster de um novo documentário tem sido palco de uma “guerra” na Índia, por alegadamente “ridicularizar a comunidade hindu”. Tendo inclusive, levado recentemente à prisão da própria cineasta e de vários membros da sua equipa. 

A representação de uma deusa Kaali, o novo documentário da cineasta indiana Leena Manimekalai, tem sido o centro de uma enorme controvérsia no país desde que o seu poster foi publicado pela realizadora, na rede social Twitter, no dia 2 de julho. Porquê? Nele é mostrada a deusa Kaali – uma deusa hindu considerada a mestre da morte, do tempo e da mudança – a fumar enquanto “segura” uma bandeira LGBTQI+. 

Em entrevista à BBC Tamil, Manimekalai esclareceu que, na produção e no que lhe diz respeito, “Kaali é um ser primordial, ambicioso e desenfreado que atropela tudo o que é considerado monstruoso e que corta todas as cabeças do mal”. “Kaali é um filme que mostra o que aconteceria se tal pessoa entrasse em mim durante uma noite e rastejasse pelas ruas de Toronto”, afirmou a cineasta na semana passada.  Manimekalai reforçou ainda que a “sua” Kaali “acredita no amor e na partilha”. “Ela aceita o cigarro de um morador de rua negro num parque ao redor do mercado Kensington, em Toronto, e ouve reggae”, pormenorizou.

Além disso, explicando a sua interpretação da deusa, a realizadora afirmou ainda ao The Wire que esta Kaali é inspirada nos rituais das aldeias Tamil, “onde se aproxima das pessoas como um espírito e come carne, fuma ganja, bebe araca do campo (bebida alcoólica original da Índia), urina no meio da aldeia, cospe e dança”.

“Eu encarnei-a e escolhi caminhar pelas ruas do centro de Toronto, terra de imigrantes, para entender o colonialismo dos colonos”, sublinhou, acrescentando que “em festivais de aldeias no sul da Índia, as pessoas costumam vestir-se como Kaali, beber licor do país e dançar”. “Nós artistas não podemos ser sufocados pelo clima de medo! Precisamos de ser mais barulhentos e mais fortes”, alertou. 

Mas de acordo com a BBC, na terça-feira passada, a situação começou a agravar-se. A polícia do estado de Uttar Pradesh, no norte da Índia, registou uma queixa contra a cineasta pela “representação desrespeitosa” de deuses hindus, nomeadamente Kaali, “amada por milhões de pessoas”. O tweet de Manimekalai gerou milhares de respostas de hindus furiosos, que a acusaram de “ofender os seus sentimentos religiosos”.

Vários utilizadores do Twitter disseram que a representação da deusa no poster é “um insulto ao hinduísmo” e pediram mesmo “uma ação legal contra a cineasta”. Outros pediram que “todos os sentimentos religiosos fossem respeitados”.

As queixas Vinit Goenka, por exemplo, porta-voz do partido governante Bharatiya Janata, disse que a projeção da deusa feriu “os sentimentos dos indianos em todo o mundo” e pediu ao Governo indiano que garantisse que o tweet fosse retirado. “Este tweet é um insulto a todos os indianos, pois Kaali é adorada. Projetá-la desta maneira está a ferir os sentimentos dos indianos em todo o mundo, não apenas dos hindus. Não consigo entender por que é que este tweet ainda não foi removido!”, escrevia na altura o porta-voz do partido. 

Por sua vez, um advogado da capital indiana, Delhi, anunciou uma queixa policial contra Manimekalai. Já a autora Meghna Pant afirmou: “Devemos respeitar os sentimentos de outras pessoas. FIRs e ameaças de morte já não assustam os artistas! A única maneira de impedir isto é trazer uma lei que atravesse as religiões e defina estritamente os limites da liberdade de expressão e da liberdade artística!”, defendeu. 

A conhecida ativista Deepa Easwar, reforçou ainda que “os hindus se tornaram num alvo fácil”, concordando com a escritora indiana: “Precisamos de passar uma mensagem de que estamos irritados e agitados! Não nos vamos deitar e aceitar o que está a ser jogado contra a nossa cara!”. Outro ativista, Rahul Easwar, defendeu que o poster era “nada menos que incitação ao ódio e perversão”. “Não podemos ser pisados ou insultados assim”, garantiu.
“Isto é blasfémia e fere o sentimento religioso hindu. Isto precisa de ser removido imediatamente”, publicou um internauta.

“Por que é que os deuses, deusas e artigos de fé hindus são escarnecidos, ridicularizados, humilhados no altar da ‘criatividade liberal’? Os hindus devem ser punidos pela sua tolerância? Os hindus não estão a ser forçados a adotar uma postura mais dura?”, escreveu outro utilizador da rede social. “Todos os dias a religião Hindu é ridicularizada. É para testar a nossa paciência?”, interrogou outro, pedindo ao líder do país para “tomar medidas”.  

Cineasta em perigo Em resposta a todos os comentários, Leena Manimekalai, pediu às pessoas que assistissem ao filme “antes de difamá-lo”: “O filme fala sobre os acontecimentos em que Kaali aparece à noite e dá um passeio pelas ruas de Toronto. Depois de assistir ao filme, com certeza que mudará a hashtag de #ArrestLeenaManimekalai para #IloveyouLeenaManimekalai’”, twittou a autora.

Mas isso não foi o suficiente e o poster acabou mesmo por ser retirado da rede social. Depois de se aperceber dessa decisão, a “cineasta em apuros” interrogou se a plataforma também retiraria as partilhas dos “traficantes de ódio”: “O @TwitterIndia retirará os tweets dos 200 mil traficantes de ódio?! Esses trolls desclassificados twittaram e espalharam o mesmo poster que consideram censurável. Kaali não pode ser linchada. Kaali não pode ser violada. Kaali não pode ser destruída. Ela é a deusa da morte!”, escreveu. 

De acordo com o India Today, na quinta-feira, Manimekalai disse que, graças a toda esta confusão, “não se sente segura em nenhum lugar neste momento”:“Parece que toda a nação que agora se deteriorou da maior democracia para a maior máquina de ódio quer censurar-me”, acrescentou. 

Terá a cineasta razões para isso? A verdade é que, além da imensa reação nas redes sociais, vários First Information Report – FIRs [documentos preparados por organizações policiais no subcontinente indiano e países do Sudeste Asiático, incluindo Mianmar , Índia , Bangladeche e Paquistão, quando recebem informações sobre a prática de um crime reconhecível ou quando a polícia recebe informações sobre qualquer infração criminal] foram abertos contra si em Delhi, Uttar Pradesh e Madhya Pradesh por, precisamente, “ferir sentimentos religiosos”.

Segundo o The Telegraph, a Unidade de Crimes Cibernéticos da Polícia de Delhi, por exemplo, registou um FIR sob as Secções 153 A (promoção de inimizade entre grupos) e 295 A (ultrajantes sentimentos religiosos) do Código Penal Indiano (IPC).

Uma luta política Além disso, a controvérsia acabou também, segundo o jornal indiano, por levantar “ondas políticas”. A questão também foi um tópico proeminente de discussão no India Today Conclave East 2022, com vários líderes políticos a comentarem o assunto. 

A disputa sobre o poster da “Kaali fumadora” explodiu com o partido BJP, a criticar a parlamentar do partido TMC, Mahua Moitra, pelos seus comentários sobre a Deusa Kaali. A política admitiu ser uma admiradora da deusa e defendeu que, como indivíduo, tanto ela como a realizadora, “têm direito de imaginar a Deusa Kaali como uma deusa que come carne e aceita álcool”. 

“Cada pessoa tem o direito de adorar deuses e deusas à sua maneira”, afirmou Mahua Moitra, segundo o India Today.
Reagindo ao poster do filme, outra parlamentar do TMC, Nusrat Jahan, disse que é preciso assumir a responsabilidade pelas suas ações”: “Não vamos puxar a religião novamente e torná-la vendável! Eu sempre apoiei a criatividade e a individualidade. Dito isso, também acredito que os sentimentos religiosos não devem ser feridos! Se estamos a criar algo temos de assumir a responsabilidade pelas nossas próprias ações.

No que me diz respeito, eu nunca iria ferir os sentimentos religiosos de ninguém ou misturar criatividade e religião”, explicou. Enquanto o partido de Moitra se distanciou do seu comentário e condenou-o, o líder do Congresso Trinamool (TMC), Shashi Tharoor, disse estar “surpreendido com o ataque” e instou as pessoas a “relaxarem e deixarem a religião para os indivíduos praticarem em particular”.

Contudo, exigindo sua prisão, o BJP de Bengala – unidade estadual do Partido Bharatiya Janata no estado indiano – disse que “moveria o tribunal se nenhuma ação policial fosse iniciada contra Manimekalai’s, dentro de 10 dias. O líder da oposição na Assembleia de Bengala Ocidental, Suvendu Adhikari, lembrou que “centenas de queixas policiais foram apresentadas contra Moitra em todo o estado”.

E na quarta-feira, um FIR foi registado também contra si em Bhopal. Além disso, também o ministro do Interior de Madhya Pradesh, Narottam Mishra, ameaçou a cineasta: “O insulto a Kaali não será tolerado e medidas rigorosas serão tomadas. Solicitaremos o registro de um FIR! Também vamos pensar em banir este filme!”, prometeu.

No meio de toda esta “guerra”, o Alto Comissariado da Índia no Canadá disse que pediu aos organizadores do evento onde o filme de Manimekalai seria exibido para retirar o poster “provocativo”. Acrescentou que também transmitiu “queixas de líderes da comunidade hindu no Canadá” aos organizadores.

E, com isso, o Museu Aga Khan, em Toronto, que deveria exibir Kaali brevemente, lamentou e removeu o documentário da sua lista de filmes apresentados: “O museu lamenta profundamente que um dos 18 vídeos curtos de ‘Under the Tent’ e a sua partilha nas redes sociais tenham causado inadvertidamente ofensa a membros das comunidades hindus e de outras religiões”, escreveu o museu em comunicado na terça-feira.

A Universidade Metropolitana de Toronto também se distanciou do filme, expressando “arrependimento” por ter “causado ofensa”. Num um comunicado, a escola acrescentou: “Estamos comprometidos com a equidade, a diversidade e a inclusão, respeitando ao mesmo tempo a diversidade de crenças e pontos de vista na nossa sociedade”.

Sob ataque e a receber várias ameaças, Manimekalai garantiu que continuará a usar a sua voz “sem medo” até que a “matem”: “Não tenho nada a perder. Enquanto viver, desejo viver com uma voz que fale o que acredito sem medo. Se o preço disso for a minha vida, ela pode ser dada!”, escreveu num tweet. Nessa partilha, a realizadora voltou a pedir que as pessoas assistam ao documentário “para entender o contexto por trás do poster”.

Depois de toda a polémica, a cineasta e outras 10 pessoas voltaram este fim de semana a ser alvo de um novo processo por, supostamente, “incitarem sentimentos religiosos”, disse a polícia estadual no sábado, confirmando a abertura de um inquérito após as numerosas denúncias. 

O responsável pela Delegacia de Polícia de Kankhal, Mukesh Chauhan, afirmou que o caso foi registado depois queixa de Vikram Singh Rathore, secretário-geral nacional da Hindu Yuva Vahini – grupo religioso de jovens hindus. Chauhan explicou que o caso foi registado na secção 295 do IPC (ultrajantes sentimentos religiosos) contra a cineasta Manimekalai, a produtora assistente Asha Ponachan e outros membros da equipa. 

Se o caso está a ganhar uma dimensão sem precedentes, a representação de figuras religiosas na tela é uma questão delicada na Índia. 

Em 2015, o conselho de censura do país exigiu 16 cortes no filme de Bollywood Angry Indian Goddesses, em português Deusas em Fúria, de Pan Nalin, que mostrava imagens de deusas hindus. 

De acordo com o Conselho Central de Certificação de Filmes (CBFC) o filme supostamente “invocou a ira do conselho de censura chefiado por Pahlaj Nihalani por mostrar imagens de deusas hindus e por usar certas palavras como ‘adivasi’, ‘sarkar’ e ‘figura indiana’”. “Estou super triste e magoado porque usámos imagens completamente respeitosas de Kali no filme, mas tivemos que desfocá-las. Eu cresci a assistir a filmes repletos de deuses e deusas. Cortamos a cabeça das pessoas nos filmes, e de repente temos que é de remover imagens das deusas”, lamentou Pan Nalin, na altura.

“Frieda, uma fotografa, reúne as suas melhores amigas na sua grande casa de família, onde quer fazer um importante anúncio. Unidas para a celebração, as amigas passam por diversas situações e descobertas que mudam as suas vidas para sempre”, lê-se na sinopse da produção.

Nalin, que é conhecido por filmes como Samsara e Valley of Flowers, que têm a espiritualidade e religião como tema, disse ainda que “toda a objeção é não associar mulheres indianas a deusas”. 

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