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José Carlos Barros: "Esta asneirada do acordo ortográfico é uma metáfora da degeneração da nossa sociedade"

José Carlos Barros: "Esta asneirada do acordo ortográfico é uma metáfora da degeneração da nossa sociedade"

Diogo Vaz Pinto 11/07/2022 12:32

Os leitores de poesia já se haviam deparado há muito com os inventários afetivos e a subtil ironia de José Carlos Barros. Mas depois de ter já sido finalista do Prémio Leya, com o terceiro romance, aquele cuja escrita se arrastou por uma década, conquistou o prémio e então... o quê? Logo se verá.

 

Já o chinfrim amainou, e deram por si esgotadas aquelas semanas mais intensas, publicitárias, depois do anúncio do Prémio Leya, resta agora ver de que modo assenta o pó depois desse pequeno pé de vento, sendo este o mais cobiçado pelo valor, pelo pequeno buzinão que se segue,  isto quando há muito a literatura por si só não alimenta já grandes farras. A glória literária vive de ninharias e é o passatempo de uns tantos que não se cansam de jogar a feijões e uma ocupação de uns poucos demagogos do mistério, que se devotam a umas aleivosias de feira em feira, improvisando umas patetices choramingonas para essa gente que aparece a fingir de povo. Isto não diminui o empenho daqueles que ainda se esmeram e dão anos da sua vida, tantas horas para superar alguns emperros de ofício, esses que não se encostam ao tal do ‘dom’ mas se esfalfam para encontrar as suas páginas levando a cabo esse esforço de sondagem e conhecimento mágico da realidade, não passando ao lado nem por cima das agruras, dos aspetos mais rudes e esgotantes do quotidiano. Transmontano, nascido em Boticas, e vivendo há vários anos no Algarve, José Carlos Barros foi vereador municipal e ainda deputado na Assembleia da República (2015-2019). Tem-se mantido fiel ao mundo de que sempre foi íntimo, trazendo notícias tantas vezes miúdas, como uma chuva que preferisse a sua avara e honesta melodia a inventar às três pancadas uns vendavais ou tempestades muito postiças. Seja nos poemas que escreve desde a adolescência seja nos romances a que se abalançou já maduro, prefere dizer-nos as coisas claramente, apresentar-nos paisagens de punhos cerrados contra ídolos de pó, do que vir-nos com galanteios de sonhos parvos. Durante o mandato na assembleia, bateu-se como pode contra ‘o silêncio antidemocrático’ com que nos fazem engolir certas aberrações como este novo acordo ortográfico e tem sido sempre uma voz crítica da forma como se tem esquecido o interior do país e se marginalizou a riquíssima cultura das populações rurais. O romance que lhe valeu o Prémio Leya – As Pessoas Invisíveis – procede, de resto, a um ajuste de contas com um obscuro e sujo episódio do período colonial, mas também com esta mentalidade do deixa andar, este alheamento e até receio de enfrentar o passado, isto num país onde persistem as mofentas lérias sobre a grandeza dos nossos feitos, e em que aqueles que nos exaltam a identidade vêm sempre com aranhas na boca já a dobarem a História.

O teu percurso inicia-se com alguns poemas publicados no DN Jovem, é desse modo que primeiro te dás a conhecer.
O DN Jovem foi uma possibilidade que se oferecia a quem existia periférico a tudo isto de poder publicar. Eu cresço na província, numa vila, e o que fui conseguindo publicar foi em jornais regionais, sem grande expressão. Num tempo em que a imprensa escrita tinha uma importância enorme, essa possibilidade era realmente uma abertura imensa. De resto, o que fui escrevendo ao longo dos anos ia saindo em pequenas edições que não alcançavam qualquer expressão. Normalmente, ganhava um prémio literário desses que abundam por aí e editava um livro que, na maior parte dos casos, ficava perdido nalgum armazém, numa câmara municipal ou coisa do género. Por isso eram poucas as pessoas que conheciam o que eu escrevia.  

Mas onde me parece que começas a diferenciar-te verdadeiramente é nos blogues, onde soubeste fazer daquilo uma verdadeira oficina literária, deixando que a respiração assistida que ali se dá, com os leitores a morder o calcanhar, fosse um fator de encorajamento e te levasse a experimentar com os géneros de uma forma bastante invulgar.
A blogoesfera foi realmente um desdobrar do mapa, e adorei as possibilidades que me oferecia pois senti que, mesmo estando afastado dos centros, conseguia chegar a todo o lado, e acredito que para quem sempre praticou uma escrita quase invisível aquele campo que se abria foi bastante sedutor. A blogoesfera dava-me essa liberdade espantosa de publicar o que quisesse como e quando quisesse. Foi um momento de expansão do horizonte criativo como não tenho memória de outro comparável. Eu publicava de tudo, desde desenhos, poemas, apontamentos, até ao meu primeiro livro que teve uma edição comercial, e que foi escrito num blogue. Isto porque a determinada altura resolvi começar a escrever diariamente os capítulos de um texto como um folhetim.

Estás a referir-te ao O Prazer e o Tédio?
Sim. Houve algumas pessoas que tropeçaram naquilo e é isso o que tem de bom a blogoesfera, é que levou a outras coisas, e foi assim que me surgiu a proposta de editar em livro esse texto. Era comum as pessoas estranharem que eu escolhesse divulgar os poemas à medida que os escrevia nos blogues antes de os reunir em livros, e para mim o que era estranho era que privilegiassem a publicação em livro, quando havia ali condições de estarmos uns debruçados sobre os ombros dos outros, a seguir o que estávamos a fazer, a deixarmo-nos inquietar pelas descobertas que fazíamos, como se, durante um tempo fôssemos colegas de uma redação virtual, e estivéssemos todos a trabalhar num imenso jornal, onde a liberdade era a regra. Para mim esse registo diário sempre foi algo de natural. Era uma forma de fazer as minhas interrogações e ter a hipótese de ouvir outras respostas. De resto, não fosse pela blogoesfera e eu quase não teria poemas. As coisas que escrevia em papel iam desaparecendo, porque nunca fui muito disciplinado no sentido de ir guardando e mantendo um arquivo do que fui escrevendo, mas a partir do momento em que os publicava neste ou naquele blogue, esse arquivo ia-se fazendo, e o facto é que ainda hoje quando preciso de ir à procura deles é-me mais fácil encontrá-los ali do que nos livros que, entretanto, publiquei. O certo é que durante muito tempo escrevi sem essa preocupação de depois publicar em papel, e não sou desses que entendem que o livro é assim tão prestigiante para o autor como isso.

Nesta indisciplina, ou disciplina fervilhante e sujeita a uma série de acasos, os quais se vão intrometendo no fio e na trama daquilo que vai sendo escrito, há aspetos que me parecem muito curiosos, por exemplo em O Prazer e o Tédio, na tua capacidade de questionar, tal como fazia o Camilo, tecendo apartes, criando com o leitor uma cumplicidade muito forte, naturalizando o processo literário, questionando as suas convenções... Não sentes que, hoje, quando se chega à edição dos textos, não se dá precisamente um retrocesso, um rearmamento em torno das velhas convenções, que tornam os textos literários mais redundantes e assépticos de forma a ser mais fácil apresentá-los no mercado?
O que me puxou para a literatura não foi um qualquer fascínio com a posição do escritor ou sequer com os aspetos mais filosóficos das grandes estruturas narrativas, mas foi simplesmente uma atração pelas palavras, pelo poder transfigurador da linguagem. A interrogação é sempre o modo de lançar a linha na minha escrita, e sinto até que a ignorância está ligada ao impulso que me leva adiante, pois à medida que vou escrevendo é que vou descobrindo, vou fazendo uma investigação pelos meios que tenho à disposição, mas não parto para a escrita seja do que for com um grande projeto em mente. Os textos são uma forma de ir por aí, levantar a linha entre inquietações, ver onde me leva. Nunca tive outro método. E acho que quando escrevi melhor foi quando me senti mais livre, e a blogoesfera encorajou essa espécie de impunidade de quem não está ali com vista a impressionar e, eventualmente, ser promovido a autor publicado. E o que mais tem incomodado os leitores dos romances que escrevi é a forma como vou fintando a cronologia, ou seja, aborrece-os que crie dificuldades, que faça desvios, que o que escrevo não esteja sempre submetido a esse carácter mais linear, mais fácil de seguir. No fundo, parece que me criticam precisamente aquilo que eu gostaria mais de privilegiar, que é essa indisciplina na minha escrita.

Então, não te parece que se queixam precisamente de não tornares a tua escrita mais cómoda, mais ‘otimizada’ para um consumo?
Não gosto dessa ideia de dificultar a vida ao leitor. Não me ponho a escrever e a pensar como é que vou criar engulhos a quem me esteja a ler. Não começo uma frase a pensar para mim próprio: vou obrigar o leitor a ser mais exigente. Por outro lado, também me parece que não faz sentido uma escrita que deixe de colocar problemas ao leitor, porque o leitor não está do outro lado nem no fim da linha, não deve ser colocado na condição de alguém para quem se está tirar as grainhas ou cortar à volta do nervo para ser mais fácil engolir o texto.

A sedução, do mesmo modo como acontece entre corpos, tem algo a ver com introduzir alguma resistência, uma dificuldade no mesmo sentido em que a dor funciona como um modo de afinação e um estimulante do prazer. Sem esse atrito não se gera realmente uma troca entre duas ou mais posições, seja ao nível mental, sensorial, seja o que for.
(Suspira pesadamente…) O meu processo de escrita é relativamente simples. É a forma que tenho de me confrontar com as questões que o mundo me vai deixando no prato. Ando ali a roê-las. Assim, de um modo geral, procuro lidar com essas questões reduzindo a indagação da minha escrita a aspetos que me parecem essenciais. Acho que isso se notará especialmente na poesia que escrevo, a qual passa por interrogações permanentes relativamente a questões e vivências do quotidiano, portanto, é uma indagação virada para as coisas mais comuns. Não tenho um grande projeto literário que vá para além disto.

Vivendo tu a maior parte da tua vida longe dos centros urbanos, residindo atualmente numa propriedade rural em Cacela Velha, e sendo a tua formação a de Arquiteto Paisagista, não sentes que existe uma relação distante, fria e de gabinete em relação a esse outro mundo? E não te parece que existe um paralelo a ser traçado com a forma como se definiu esta norma do novo acordo ortográfico?
Sim, não me é difícil traçar esse paralelo. Tanto na forma como encaramos aquilo a que se convencionou chamar ‘paisagem’, como na questão do novo acordo ortográfico, há uma simplificação assustadora, a qual parece estar associada a uma forma de iliteracia, uma certa desistência de tentar compreender verdadeiramente as coisas. A simplificação é sempre uma forma de desistência, e isto está patente tanto no acordo como nas políticas face ao território. A paisagem é de um certo modo o resultado da relação que se estabelece entre o homem e o território, e, portanto, as comunidades cultas, como eram as antigas comunidades rurais, comunidades profundamente ligadas ao espaço que habitavam e que, por isso, compreendiam a sua complexidade, tratavam o território de uma maneira que levava à criação de paisagens equilibradas e que garantiam essa sustentabilidade de que agora se fala tanto. À medida que nos fomos afastando dessa sabedoria – e afastarmo-nos dela é presumirmos que através da educação dos manuais conhecemos o mundo –, começámos a tratar o território de uma forma muito mais desastrada, e até com uma certa sobranceria. E depois é o mesmo mundo que destrói o território e que não estabelece ligações cultas com a paisagem que vem assumir com um fervor religioso que temos de salvar o planeta e a diversidade das espécies.

E na literatura?
Parece-me que na literatura se pode estar a passar algo de semelhante: fomos caminhando progressivamente para este afunilamento, definindo as regras segundo as quais tudo deve funcionar, e depois espantamo-nos que a criatividade tenha acabado sufocada debaixo dessas convenções. Ao mesmo tempo, perdemos de vista o que é essencial, aquilo que nasce à volta disso ou até alheio a esse subsistema, e que mantém a sua interrogação fora desse regime. Se pudesse vincar uma qualidade que julgo que existe na minha escrita é o parecer ainda estranha. Por exemplo, há vários dos meus poemas que se bastam com um olhar desarmado sobre as coisas à sua volta, sobre a paisagem, e o que me dizem dos meus poemas é que, apesar de breves, e não particularmente complicados, vincam essa estranheza.

Sendo que muitas vezes a tua poesia assume um tom crítico, este caracteriza-se por uma ironia que nunca resvala para o cinismo. Parece até resistir na tua escrita uma espécie de consciência popular, o enlaçar que está próximo daquela articulação airosa dos provérbios, e que está numa relação de grande intimidade com aquilo que acontece ao mundo.
Desde logo não gosto daquela ideia de falar ou escrever partindo do pressuposto de que estou do lado certo e que os outros estão do lado errado. Nem gosto de pensar as coisas em termos maniqueístas. Gosto de me sentir parte dessa grande corrente em que estamos todos postos em causa, e, portanto, o destino do mundo não me é indiferente, pelo contrário.

E não sentes que a condição da vida moderna o que faz é romper esses laços, reforçar uma perspetiva individualista em que acabamos um tanto alheados das consequências dos nossos atos, o que leva as pessoas a desligarem-se dessa corrente?
Perguntaste-me há pouco o que é que eu sentia vindo de um ambiente campestre… Todos os dias quando saio de casa aquilo de que estou rodeado é de árvores; vivo numa quinta no meio de árvores. São árvores centenárias que eu conheço desde que fui para ali e que continuarão ali muito depois de eu já cá não estar. Essas árvores dão-me uma lição permanente sobre aquilo que permanece, que não muda, uma vez que a árvore permanece no mesmo lugar, mas, por outro lado, mostra-me aquilo que está constantemente a transformar-se, com as estações, com a coloração da folhagem, e a lição tem a ver com o mundo ser este balanço entre aquilo que permanece e aquilo que está em constante transformação, e de forma muitas vezes cíclica. Isto é uma coisa que me interessa muito, até no que diz respeito à minha escrita. Essa indagação sobre as coisas que mudam e sobre o que permanece, esses centros de força que não podem perder-se. O que sinto como mais negativo nos nossos dias, são essas formas de euforia contemporâneas, um certo ambientalismo que parece baseado na fé, como se as questões ambientais em vez de serem pensadas de um ponto de vista científico fossem matéria religiosa. Aquilo a que isto nos leva é a andarmos à flor dos acontecimentos, esquecendo onde estão as raízes e aquilo que não se altera de um momento para o outro e a que não podemos deixar de regressar. Por isso, para mim, esta lição prende-se com uma consciência sobre esses centros de força, e também com tradição, que é uma palavra que hoje cai mal, mas que é muito importante nessa noção de permanência. Por outro lado, não devemos ficar reduzidos a um imobilismo, e é preciso questionar os novos dados com que vamos sendo confrontados.

Entendes essa resistência a noções como a de tradição como algo que deriva de uma angústia contemporânea em que muitas pessoas sentem que se não estiverem constantemente a demolir ou a cortar com o passado, não estão a ter um papel ativo e a inventar o mundo em três dias, isto quando na compressão bíblica foram precisos sete dias para a criação do mundo?
É, há gente que, desse ponto de vista, parece ter uma ambição superior à de Deus. Parece que querem refazer as coisas ainda mais depressa, e é claro que têm mais sucesso no capítulo da destruição do que no da reconstrução. É curioso como regressamos sempre às questões da ruralidade… Cada vez admiro mais as comunidades rurais que conheci na minha infância e que, entretanto, foram sendo desmanteladas. E isto porque vejo nelas uma cultura secular e que, hoje, nos faz muita falta. Quando subitamente estamos todos a discutir as alterações climáticas e as medidas que é preciso tomar em termos ambientais, quando oiço dizer que é preciso recuperar agro-sistemas sustentáveis, etc., é incrível ouvir dizer isso e ter a consciência de que isso foi o que passámos as últimas décadas a destruir. Que coisa estranha que se oiça agora dizer – pelo menos em teoria, porque depois na prática já se sabe como as coisas se passam – estas coisas como se tivéssemos descoberto a pólvora, desejando-se regressar a formas de relacionamento com o território que foram aquelas que abandonámos num período que não ultrapassa o meu tempo de vida. Por isso é que me parece que deve haver também agora formas de resistência para não nos deixarmos seduzir por determinadas modas… Gosto da ideia de que a pólvora já foi inventada há muito tempo e que não precisamos de estar sempre a deixarmo-nos guiar por epifanias e a balançar entre noções contrárias que apenas prosseguem os fins do desmantelamento daquilo que foi construído com grande custo.

Voltando à questão do acordo ortográfico, como é que foi lidar de frente e enquanto deputado com um dos fenómenos que mais claramente nos demonstra o funcionamento dessa estupidez organizada e de gabinete que, depois de ser imposta, parece impossível travar?
O que me custa mais neste assunto é deparar-me com a evidência de que o novo acordo ortográfico está sempre a tropeçar nos seus defeitos e problemas, mas que, em vez de se tentar resolver esses problemas, prossegue-se numa fuga para a frente. Ora, isto é uma evidência que perpassa por quase toda a comunidade de língua portuguesa, e mesmo quem defende a aplicação do acordo, reconhece os problemas que há nas suas normas e que seria importante haver uma correção. Isto para não falar de uma falange que me parece cada vez maior de pessoas que acham que o melhor seria simplesmente eliminar o acordo e voltar à norma anterior. Mas não sendo um linguista nem um especialista na matéria, nem gosto de ter sobre isso uma posição demasiado rígida, até porque há aspetos técnicos que certamente me escapam… Mas custa-me que uma questão que está sujeita aos usos que se fazem de uma língua por uma comunidade nos seja imposta desta forma. De resto, mesmo quando se chama acordo, logo por aí se percebe que a coisa falha, porque não há acordo nenhum. Este deve ser um dos raros acordos internacionais que entra em vigor sem que as partes o tenham ratificado. Aliás, há países como Angola que não se limitam a não ratificar, mas ainda explicam os motivos por razões de ordem científica, e não meramente políticas. Ou seja, o acordo prossegue quando um parceiro como Angola já expôs, do ponto de vista da linguística, os aspetos em que este falha, e notando que, sendo um instrumento deficiente, não faz sentido ratificá-lo. Ora, num acordo em que há sete países que devem chegar a uma norma comum e em que três não ratificam, cinco não usam, e outro está-se nas tintas, parece-me que configura de facto um fenómeno muito estranho. Mas, de tudo isto, o que mais me chocou é a ideia de que não se pode discutir o acordo ortográfico. Como se houvesse uns guardiões das normas linguísticas e que, por motivos de ordem burocrática, nos forçam este regime, com os governos a recusarem-se a discutir um problema que está a gerar um impasse e que, na verdade, veio fragmentar ainda mais um universo linguístico, quando a ideia era criar relações mais estreitas.

E qual é o argumento usado pelos nossos governos?
É que existe um acordo internacional e que Portugal respeita os seus compromissos internacionais… Isto não faz o menor sentido, e o facto é que as instâncias que tomaram esta decisão é que se barricaram e resolveram que vão continuar a alhear-se dos problemas que desencadearam. Infelizmente – e é isto o que mais lamento–, parece-me que a razão por que não se encontra uma solução é porque a maior parte das pessoas se está marimbando para estas questões da língua, e isso devia entristecer-nos, porque, no fundo, esta medida, cheia de boas intenções, acabou por traçar um diagnóstico que nos devia envergonhar a todos e que expõe um problema profundo na forma como nos relacionamos com um dos aspetos nucleares da nossa dimensão cultural e até existencial. O que dizer quando uma boa parte das pessoas se está a lixar para a forma como se escreve, e se se dá erros ou se cada um opta pela norma que quer, havendo depois lugar, como temos visto, até a documentos oficiais em que se anda de uma norma para a outra, provando a enorme confusão que tudo isto veio gerar? Isto tem-se verificado na própria Assembleia da República, onde muitos dos documentos que são produzidos, alguns dos quais na esfera da regulação e legislação, oferecem um retrato expressivo desta incerteza e confusão. Por isso, a maioria de nós anda a escrever no chamado ‘acordês’, e as coisas vão passando. Foi esta a minha experiência no período que passei na assembleia enquanto deputado, confrontando-me com uma indisponibilidade total para se discutir o acordo ortográfico e que é, no mínimo, estranha numa democracia.

Não te parece que este período em grande medida vai ser lido à luz desta borrada, com esta confusão a servir como um diagnóstico geral para a forma como as coisas se passam na sociedade portuguesa em que tudo é empurrado com a barriga?
Sim, acho que toda esta asneirada do acordo ortográfico funciona como uma metáfora do estado de degeneração da nossa sociedade, em que estamos a assistir a uma desistência das coisas essenciais, e a cedermos às frivolidades, nesse deixa andar que é a pior forma de uma sociedade ir adiante. Aliás, muitas vezes, quando desabafava sobre estes problemas do acordo ortográfico aquilo que me diziam era precisamente para não me maçar com isso... Lá vinha o «deixa andar, que não vale muito a pena a gente chatear-se com isso». E isto vale igualmente para as questões do território e da paisagem, que está a ser destruída. Depois também não inquieta a ninguém que já nem tenhamos um Ministério da Agricultura, e vemos que governo após governo as questões da agricultura são tratadas por uma espécie de direção geral que se limita a distribuir os fundos comunitários. Portanto, tornámo-nos um país que prefere ser pago para abdicar de qualquer visão de futuro, e, por isso, sinto que esta é uma metáfora dessa dissolução das aspirações coletivas num país que cada vez menos tem com o que se identificar.

E de que modo é que a literatura se enquadra também nesse diagnóstico?
Daquilo que vou acompanhando, nomeadamente através das redes sociais, é como se também tivéssemos deixado de afinar os critérios para entender exatamente o que se pretende das obras literárias. Aí parece-me que a crítica é essencial, para ir levantando questões e também chamando a atenção para aquilo que de mais relevante está a fazer-se num determinado momento. Com o fim dos jornais, em grande medida arrastados por esta proliferação dos fazedores de opinião, sinto que a grande perda é ao nível de textos que me fizessem compreender a opinião de determinadas pessoas, de certos especialistas. Mas, hoje, os textos jornalísticos foram substituídos por este constante digladiar de posições que se organizam mais num regime de conflito, para criar divisões tantas vezes artificiais, e que não nos esclarecem sobre os problemas que estão por trás. É uma guerra de interpretação, a qual muitas vezes está sujeita a esses limites do que é mais potável ao nível das redes sociais, os cento e quarenta e tal carateres, ou esses dichotes e blagues que é fácil de reproduzir na televisão. De um certo modo, o país surge cada vez mais adaptado à imagem mediática, e assim os aspetos mais complexos e relevantes ficam cortados do plano. Por isso, parece-me que o grande fenómeno das últimas décadas é uma simplificação grosseira, acrítica, e que ao mesmo tempo é voraz, mas não faz outra coisa senão nivelar tudo, sepultar-nos nas barricadas que formamos, sem que do debate emerja uma perspetiva mais rica em contrastes. Ao mesmo tempo, admito que esta minha leitura está em linha com um certo reacionarismo típico das pessoas que, à medida que vão ficando mais velhas, têm maior dificuldade em ler os aspetos mais interessantes desta nova dinâmica social e mediática. Posso ser eu que não estou a saber ler o mundo, pode ser que os meus olhos vejam coisas para as quais a minha capacidade de leitura já se mostra obsoleta. Mas não deixa de ser essa a sensação que tenho, de que o debate reflete cada vez mais uma simplificação acrítica, e que, por isso, é muito mais fácil que se criem estas posições tão drásticas e que não conseguem lançar pontes entre si.

Ao publicares este livro que ganhou o Prémio Leya, As Pessoas Invisíveis, sentiste alguma resistência ao teu desejo de respeitar o antigo acordo ortográfico?
Não. Faço questão disso, e não senti resistência. Um dia isto pode deixar de fazer sentido, mas, neste momento, acho que ainda se nos exige este ato de resistência. Posso dizer que, quanto a isso, levaria a questão ao limite. E sei que no Plano Nacional de Leitura não podem estar livros que não respeitem o acordo ortográfico. Assim, mesmo que este livro fosse selecionado eu recusar-me-ia a que integrasse o PNL. Nem me vejo como um tipo com um caráter subversivo, sou até uma pessoa relativamente conservadora, que não gosta de ver as coisas a mudar muito depressa, que tem uma desconfiança em relação a esses ímpetos de mudança radical, e que entende que há coisas que têm um caráter de permanência e que não podem ser alteradas por decreto nem do pé para a mão, mas, neste aspeto, sou de uma exigência absoluta, e, se calhar, até exagerada. A pouca colaboração que me é pedida para a imprensa, antes de aceitar pergunto sempre primeiro se me vão respeitar a ortografia. De outro modo, rejeito. Acho que o silenciamento a que foi reduzida a questão do acordo ortográfico é algo verdadeiramente antidemocrático. Isto para não dizer outras coisas.

Disseste às tantas que, sendo tu uma figura que veio de fora dos centros onde o meio literário assume alguma expressão, entendes que os prémios foram importantes para te apresentares…
Para publicar, desde logo. Até a O Prazer e o Tédio, portanto a 2009, e eu então já tinha 40 e muitos anos, nunca tive um editor. Portanto, os prémios para mim tiveram essa importância. A verdade é que para além de enviar o que escrevia para esses prémios, nunca insisti muito em publicar, nunca fiz o cerco aos editores. Agora, isto não quer dizer que para mim publicar não fosse importante, porque era, nem que fosse nessas edições que me permitiam, pelo menos, oferecer os livros a algumas pessoas. Mas depois daquele primeiro romance, depois de publicar, em 2013, Um Amigo para o Inverno, depois de terem saído algumas críticas elogiosas, incluindo ao meu trabalho enquanto poeta, penso que já não me seria tão difícil publicar numa editora, mas não havia certezas. Por isso, quando concorri ao Prémio Leya foi também para ter a edição assegurada, e também para que pudesse garantidamente ter um olhar dos leitores sobre o livro. Isto porque, durante muitos anos, tive aquela sensação (com a qual já me tinha até conformado) de que publicava livros que ninguém lia, ou apenas muito pouca gente. Desse ponto de vista, este prémio é, para mim, muito importante. Esta não é propriamente a minha vida, mas, sinceramente, até gostaria que fosse. Gostaria de ser escritor, de ter disponibilidade, tempo e condições para me dedicar à escrita em exclusivo. Não tenho. Ainda assim, durante a pandemia escrevi um livro de poemas, todo ele escrito à máquina, pois foi uma ótima altura para voltar a ela, e acabei este romance, mas a verdade é que já estava a trabalhar nele desde 2011. Portanto, este romance andou comigo 10 anos. Fui escrevendo aos bocadinhos, reescrevendo, voltando ao princípio. Passados todos estes anos, essa sensação de que, se não fosse este prémio, podia nem ter como editar este livro, ou podia mais uma vez editar um livro para o ver de imediato cair no esquecimento, isso fez com que concorresse e que, de uma forma talvez um pouco provinciana, tenha ficado muito feliz por ter ganho o prémio.

E ao que é que isso obriga em termos de fazer parte de uma máquina de aceleração mediática e de uma série de pequenos compromissos em termos de participar na sua divulgação em diferentes pontos do país?
O prémio vai-me levar a andar de um lado para o outro no decorrer deste ano. Isso tem aspetos positivos: agrada-me a ideia de poder andar por aí a falar sobre o livro e ir ao encontro de diferentes leitores. Depois tem um lado negativo, que é o facto de a partir de certa altura já me faltar a paciência para andar a repetir-me e a fazer sempre o mesmo. Mas estou consciente de que o prémio não vai alterar substancialmente as coisas. Sei que daqui a dois ou três meses já toda a gente se esqueceu, e não demorará muito para haver outro Prémio Leya, e, portanto, tudo regressará a uma certa normalidade. Mas este é um momento especial. Sei, contudo, que não irá alterar nada, e eu certamente não irei escrever mais por o ter ganho… Aliás, tenho até alguma dificuldade em perceber por que quero escrever, uma vez que o faço com grande dificuldade. Então se for prosa, escrever uma página que seja, é para mim algo que me custa imenso, e, nesse sentido, retirando o aspeto da vaidade em ver o livro ser publicado e divulgado, até tenho dificuldade em explicar porque é que escrevo, tendo claro que não é das coisas mais divertidas que faço. Mas sinto que há alguma coisa que não me deixa desligar-me, que me obriga a não estar muito tempo sem voltar à escrita. E a verdade é que já estou com uma grande vontade de começar a contar outra história porque já não escrevo há bastante tempo e começo a sentir essa necessidade. É como se escrever fosse uma forma de eu próprio me colocar face às questões que me inquietam, encontrar um rumo entre as coisas que me importam. Mas isto não é nada de invulgar, acho que se passa o mesmo com muita gente.

Num relato como o deste romance, em que estás sempre a entretecer na estrutura elementos históricos, e ao mesmo tempo te dás liberdade para imaginar este protagonista, que ele mesmo alimenta uma relação mais da ordem do fantástico, sentes que há aqui um braço-de-ferro entre duas tendências na atual ficção portuguesa?
Este livro resulta de um processo de aprendizagem depois de me ter confrontado com um acontecimento – o massacre de Batepá, em São Tomé e Príncipe, que ocorreu uma década antes de eu ter nascido e de que eu nunca tinha ouvido falar… e, no entanto, morreram mil e tal pessoas. Achei isso estranho, e mais estranho ainda quando percebi que nenhum dos meus amigos tinha ouvido falar disto. Depois, ao começar a puxar pelo fio, dei-me conta de que aquilo tinha a ver com uma espécie de estertor do processo de escravatura, isto oito décadas depois de esta ser abolida. Percebi que estava a escrever sobre o Estado Novo, sobre um país que tinha um império, mas que, por outro lado, era um país pobre, supersticioso, e, assim, foi sendo empurrado para a História. E o título As Pessoas Invisíveis vem de eu me ter dado conta de que estava a falar de pessoas que pagam a fatura daquilo que designamos por interesse público, o que não deixa de ser para mim uma descoberta curiosa: essa noção de que esse bem coletivo é sempre alcançado às custas de pessoas que são colocadas à margem desses processos. Isto aplica-se numa série de campos da nossa vida, como no processo de industrialização da floresta, em que quem pagou a fatura foi o chamado mundo rural, das populações rurais, com a desertificação do interior, com as pessoas a serem chamadas para trabalhar nesses grandes investimentos, ficando depois desamparadas quando estes se deslocavam. O mesmo se verificou nas minas de volfrâmio, com a extração desse minério que foi feita à custa das populações que viviam nas redondezas. E neste momento temos o lítio, em que parece óbvio que há um interesse público na sua exploração, mas conheço pessoas de Covas do Barroso que acordaram com máquinas retroescavadoras à porta e que lhes destruíram já parte das encostas e da paisagem antes de haver licença para que isso fosse feito.

E o que descobriste na investigação que fizeste para este livro?
A investigação neste caso fez-me ter consciência de que estava a falar dessas pessoas que, às tantas, se vêm metidas no meio destes processos, mas que não contam para nada, pois não são tidas nem achadas no processo de decisão. Mas são estas pessoas que, na verdade, se revelam essenciais, e isto é também uma chave de interpretação para este tempo – e, no fundo, a ambição de qualquer escritor acaba por ser essa de conseguir desvendar a época em que vive. Aquilo de que me apercebi é que vivemos sujeitos a uma espécie de máquina trituradora e que resulta desse alheamento em relação ao destino daqueles que vão sendo empurrados para as margens, para que possam ser sacrificados a favor do tal interesse público. Como é óbvio, se as riquezas em termos de minerais de lítio fossem descobertas na linha que vai do Rossio ao Campo Grande, tenho a certeza de que todo o processo seria discutido com outro respeito pelas pessoas que aqui vivem, mas se se tratar das vidas de pessoas que vivem marginalizadas no mundo rural, os seus interesses já não interessam, nem são levados em conta, porque é fácil silenciá-las. De resto, acho curioso que, desde 2011, a única referência que ouvi ao massacre de Batepá foi num discurso de Marcelo Rebelo de Sousa aquando de uma visita a São Tomé e Príncipe. Acho estranho que continuemos a ter tanta dificuldade em confrontarmo-nos com a nossa História, mas acho que é indicativo desse outro regime que sucedeu ao Estado Novo. Se este impunha a sua versão distorcida das coisas, agora não é preciso impor nada, porque nos habituámos a este regime do deixa andar.

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