07/10/2022
 
 

As relações sociais, profissionais, familiares e pessoais depois da pandemia e do incremento do teletrabalho

O teletrabalho não deve ser levianamente diabolizado, pois, em muitas circunstâncias, ele pode contribuir para uma vida mais satisfatória nas cidades, nos empregos, nas famílias e no próprio plano pessoal … mas!

A forma como a pandemia fez avançar o teletrabalho em alguns setores da sociedade, e a maneira como este, subitamente, mudou ou influenciou a vida coletiva, profissional, familiar e pessoal de muitas pessoas estão ainda por estudar.

E, na verdade, por sua causa, todas essas dimensões da vida mudaram muito, e muito depressa.

O teletrabalho não deve ser, no entanto, levianamente diabolizado, pois, em muitas circunstâncias, ele pode contribuir, de facto, para uma vida mais satisfatória nas cidades, nos empregos, nas famílias e no próprio plano pessoal.

Ele permite gerir melhor o tempo e algumas necessidades socais, familiares e pessoais básicas sem, por isso, prejudicar, necessariamente, a atividade profissional.

Contudo, temos, também, de reconhecer que a forma como, durante a pandemia, ele se foi espontaneamente estabelecendo acabou por criar, também, imensos problemas: curiosa e exatamente nos mesmos planos de vida em que trouxe enormes benefícios.

No plano social o teletrabalho contribuiu, em muitos casos, para o isolamento de muitas pessoas.

Mudou-lhes os hábitos de sempre e alterou-lhes os mais normais comportamentos de convivialidade e até de cortesia, desde sempre necessários à vida em sociedade e em ambiente laboral.

Fomentou, além do mais, uma visão mais individualista das responsabilidades profissionais.

Tais responsabilidades podem até nem ter saído erodidas, mas, em alguns casos, autonomizaram-se, indelevelmente, no seio das equipas de trabalho, contribuindo, desse modo, para uma maior dificuldade de assunção coletiva de objetivos que justificam a sua existência.

Em muitos casos, aconteceu que pessoas pertencentes a uma mesma equipa passaram a assumir, por si próprias, decisões que, antes, eram alvo de consulta prévia e decididas em conjunto, tendo sempre em atenção o interesse e envolvimento dos outros parceiros e o dos objetivos comummente traçados.

É certo que nada disso aconteceu de propósito, ou passou a ser, necessariamente, feito com propósitos abusadores.

O que sucedeu foi a emergência de condições que fomentaram uma mentalidade reforçadamente individualista, adquirida ou desenvolvida, algo inconscientemente, durante o tempo de isolamento que a pandemia proporcionou.

Hoje, reatar os laços internos de companheirismo e de solidariedade nas formações laborais torna-se muito mais difícil e, em muitos casos, a tentativa de retorno a métodos coletivos de análise, preparatórios das decisões, aparece até, a alguns, como abusivo e incompreensível.

Alguns destes novos hábitos de agir individualmente, criam, ainda, permanentes atritos pessoais e profissionais entre pessoas que, antes, discutiam, frente-a-frente e com franqueza, os problemas com que se deparavam no trabalho.

Tais comportamentos, autocentrados, aumentaram a falta de comunicação entre todos e fizeram recrudescer a desconfiança, a conflitualidade silenciosa e, em consequência, as intrigas e os ressentimentos mútuos.

Queira-se, ou não, a pura relação escrita, realizada por intermédio de um computador, não favorece a apetência para os consensos, que resultam mais naturais de uma regular conversa pessoal.

Estes hábitos recentes e a sua atual resiliência podem, contudo, ter consequências mais contraproducentes do que se imagina.

Permitem, em suma, reconduzir, forçadamente, a organização e direção dos coletivos laborais a antigos e mais autoritários métodos administrativos e a uma aversão dos responsáveis das equipas – também ela indesejável – ao teletrabalho.

Nada mais pernicioso, pois, para um são e mais livre ambiente profissional.

Por outro lado, no que se refere à vida pessoal e familiar, também o teletrabalho alterou, para o bem e para o mal, muitas das condições de sociabilidade.

Se, por um lado, terá aproximado, em alguns casos, os casais e os filhos, tornando mais coesos os seus laços familiares; noutros, dada a exiguidade das habituações e as tensões já antes existentes, terá exacerbado muitos conflitos.

Nestes casos, a gestão demasiado tempo reprimida de tais antagonismos, aliada à recente e súbita explosão da liberdade da convivialidade externa, que a atenuação da pandemia consentiu, poderão ter contribuído, também, para a implosão de muitas famílias.

Por outro lado, em situações em que um dos membros da família terá tido de ficar mais tempo em casa, privilegiando o teletrabalho e acumulando, assim, as tarefas domésticas, e o outro se manteve fora, muitos desfasamentos comportamentais poderão, entretanto, ter surgido.

O membro do casal que ficou recolhido e favoreceu o teletrabalho, além de sobrecarregado familiarmente durante a pandemia, poderá ter acumulado um cansaço – um tédio - extraordinário.

Nalguns casos, isso proporcionou, depois, uma propensão para o recolhimento caseiro que, aquando da libertação dos usos sociais, o terão tolhido no regresso fácil à normal convivialidade externa.

Tal alteração comportamental poderá ter defraudado as expectativas mais festivas do companheiro ou companheira que, por ter sempre trabalhado no exterior, não sentiu modificados radicalmente os hábitos sociais anteriores à pandemia.

Também do ponto de vista estritamente individual, muitos hábitos foram mudando.

De um lado, o teletrabalho permitiu uma gestão da sociabilidade mais distendida e de acordo com uma elasticidade temporal desejada por uns tantos: para esses ele foi libertador e compensou.

Em diferentes casos, pelo contrário, conduziu outros a uma convivialidade ainda mais restrita e à propensão a um ainda maior isolamento social.

Para muitas pessoas, recordemos, a convivência laboral era das poucas oportunidades de sociabilização diária que conseguiam ter.

Neste aparente retorno à normalidade, avolumam-se e hipertrofiam-se, pois, conflitos sociais, profissionais, familiares e pessoais cuja proporção e gravidade ainda não alcançámos totalmente.

Procurar, por isso, estudar todas as dimensões destes problemas e projetar as soluções laborais mais razoáveis para construir uma vida nova devem, neste momento, ser, também, uma preocupação política alargada.

Uma preocupação que ambicione dar mais liberdade a todos e possa, também, limitar o individualismo doentio e pernicioso que ameaça dominar e degradar, generalizadamente, a vida social, profissional, familiar e pessoal.

No fundo, a política tem como objetivo principal encontrar soluções de vida que emancipem o homem e libertem a vida dos aspetos mais constringentes que os envolvem e condicionam.

Num momento em que se preconiza – e bem – o reforço da digitalização do trabalho, convém estar atento a algumas das suas consequências.   

    

 

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