30/11/2022
 
 

274.268

Sento-me mais uma vez na minha mesa da Rua do Norte, nº 17, ao Bairro Alto, e tento ler em vez de escrever, deixando por momentos esta tarefa de encher páginas e páginas de jornais e de livros, sempre numa azáfama incontrolável de lutar contra as palavras, contra as frases, contra o papel em branco.

Mudo de lugar a cada dia. Lisboa, Águeda, Alcácer, outra vez Lisboa. “A minha pátria é onde não estou”, escrevia o inquieto Álvaro de Campos. Talvez amanhã, na minha varanda sobre o Sado, venha um vento que me devolva aos caminhos de Samarcanda ou de Timbuktu, ou apenas àquele lugar simples à sombra dos coqueiros no ventre espaçoso, fervente e húmido da minha mãe Índia, e que tem um cartaz à porta da rua principal a dizer Nuvem. Esvoaço por entre as letras que escrevo, para já em sítios que são profundamente meus, embora pouco me importe o leito, eu que dormi nos passeios e bancos de jardim de tantos lugares da Terra que teimo em querer conhecer por inteiro como um navegante que não pode dar-se ao luxo de ter cais. Entre o leito e com quem me deito, preocupo-me mais com quem possa estar atento aos meus sonhos brutos de sonos escassos porque eles não se partilham nem por osmose. Quero dormir sozinho! Quero dormir sempre sozinho! Sento-me mais uma vez na minha mesa da Rua do Norte, nº 17, ao Bairro Alto, e tento ler em vez de escrever, deixando por momentos esta tarefa de encher páginas e páginas de jornais e de livros, sempre numa azáfama incontrolável de lutar contra as palavras, contra as frases, contra o papel em branco. Há momentos em que, quando leio, preciso de parar para absorver a realidade dos outros. Como esta: “Francisco José da Áustria matou 274 268 animais durante a sua vida, desde perdizes a elefantes e ornitorrincos”. É um número extraordinário, de facto, ficando por saber qual dos animais, entre o que matou e os mortos, era uma besta maior? Pois… Debruço-me no minucioso trabalho do seu contabilista oficial que ou era um contabilista formidável, para atingir este pormenor milenar, ou era um formidável aldrabão que fazia questão de dourar as medalhas do arquiduque que tinha um bigode quase patológico, para utilizar outra expressão pessoana. E assim, como se ele passasse ali na berma, com o passo molenga que se espera de quem teve tão pouca metafísica que foi empurrado a ficar para a história por umas centenas de codornizes, gritaria com vontade: “Adeus ó Francisco!”. E saberia que por todas estas letras que hão de matar-me, a oriente do oriente do oriente, que o universo se reconstruirá com ideal e esperança. Não me perguntem é em quê. Nem em quem.

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