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Ucrânia. Russos aceleram no Donbass

Ucrânia. Russos aceleram no Donbass

João Campos Rodrigues 02/07/2022 10:30

Depois de se arrastarem durante semanas, as forças do Kremlin ganham terreno, prestes a tomar o que sobra de Lugansk.

A Ucrânia tem perdido terreno que terá enorme dificuldade em recuperar. Após a queda de Severodonetsk, forças russas aceleraram e avançam com tudo o que têm sobre a sua cidade gémea, Lysychansk, ameaçando também Sloviansk, a chave para conseguir o abastecimento das tropas ucranianas na linha da frente do Donbass. Ainda assim, as forças de Kiev não só têm imposto custos pesados aos invasores, como lá vão conseguindo algumas vitórias, tendo até conseguido expulsar as forças russas da Ilha das Serpentes.

Se o nome desta pequena ilha com uns meros 0,17km2 lhe soa familiar, provavelmente é por ter sido o palco de um dos episódios mais marcantes do início da invasão, quando tropas ucranianas recusaram render-se mesmo perante um navio de guerra russo. Sugerindo-lhe, via rádio, que se fosse «fod**». Na altura, foi avançado que a guarnição inteira desta ilha fora massacrada por bombardeamentos navais, o que não se verificou – afinal, trata-se de um conflito cheio de desinformação de ambos os lados. Mas entretanto a Ilha das Serpentes já se tornara um símbolo da teimosa resistência ucraniana.

Quanto à retirada russa desta ilha, mais uma vez temos duas narrativas. O Kremlin justificou que ordenou às suas tropas para partirem como «gesto de boa vontade», de maneira a facilitar uma eventual retoma do comércio marítimo de cereais ucranianos. Uma justificação vista com enorme ceticismo, dado que ainda mantêm sob estrito bloqueio naval Odessa, o único grande porto nas mãos de Kiev. Já os militares ucranianos anunciaram que conseguiram expulsar a guarnição russa graças a uma contínua barragem de mísseis, artilharia e bombardeamentos aéreos, algo facilitado por a Ilha das Serpentes ficar a menos de 50km da Ucrânia continental. As imagens obtidas pela Reuters, mostrando a Ilha das Serpentes coberta por extensas nuvens de fumo, comprovam a narrativa ucraniana.

«Podemos afirmar que um poderoso assalto com artilharia de foguetes que temos conduzido desde há algum tempo, durante toda a operação militar, alcançou o seu objetivo», salientou Natalia Humenyuk, a porta-voz do comando sul das forças armadas da Ucrânia. Humenyuk anunciou que atingiram pelo menos duas baterias de mísseis russas, gabando a capacidade dos howitzers autopropelidos Bodogan, de fabrico ucraniano. Além do seu valor simbólico, a retirada russa pode ter grande importância estratégica, estando a Ilha das Serpentes posicionada no meio das rotas navais que levam ao estreito do Bósforo e ao Mediterrâneo.

Esta vitória relembra que, se a Rússia tem apostado tudo em barragens maciças de artilharia, seguindo a tradição militar soviética e do império russo, as forças armadas ucranianas também foram treinadas e estruturadas com base nessa mesma doutrina, apesar da crescente adaptação às táticas da NATO. As forças do Kremlin simplesmente têm um poder de fogo muito superior, daí que a sua artilharia se note mais.

 

Desgaste mútuo

O poderio russo está agora centrado em Lysychansk, a última cidade que sobra aos ucranianos no oblast – uma categoria administrativa equivalente aos nossos distritos – de Lugansk. Apesar de Lysychansk ficar em terreno elevado, protegida pela destruição das três principais pontes que atravessavam o rio Seversky Donets a partir de Severodonetsk, nem isso trava os invasores.

As forças do Kremlin «após fazerem avanços arrastados durante tantas semanas, atacaram rapidamente Lysychansk. E parece que está à beira de cair», descreveu Alex Crawford, uma repórter da Sky News, apontando para a destruição atrás de si. «Olhem para todo aquele fumo. Houve foguetes, munições de artilharia e explosões durante praticamente todo o tempo que estivemos aqui».

O Governo ucraniano já admitiu que tem perdido até duzentas tropas por dia, boa parte atingida por artilharia distante, morrendo sem sequer ver o inimigo. A Rússia pode depender cada vez mais de jovens recrutas, tendo perdido boa parte das forças de elite – o caso mais notório talvez tenha sido a total destruição de brigadas inteiras de paraquedistas lançadas sobre o aeroporto de Hostomel – durante as suas catastróficas tentativas de tomar Kiev e Kharkiv logo nos primeiros dias da invasão. Mas entretanto algumas das unidades mais bem treinadas ucranianas também sofreram perdas brutais, tendo Kiev de recorrer cada vez mais a batalhões de voluntários com pouco mais que uns dias de formação.

Tudo parece encaminhado para um impasse sangrento, estando cada um dos lados convencido de que sairá mais benefíciado nesse cenário. Ou seja, «a Ucrânia está a contar com os seus aliados ocidentais. Vladimir Putin está a contar que eles desanimem», resumiu o Economist.

Se o Kremlin tem enormes reservas de munições – ainda que sofra de dificuldades em repor o seu arsenal de munições guiadas, por às sanções impedirem a compra de componentes eletrónicos – e armamento, havendo relatos de que a sua indústria militar está a forçar operários a fazer turnos duplos ou triplos, o armamento vindo da NATO é considerado mais sofisticado. E, talvez até mais crucial, batendo os russos quanto ao alcance e precisão da artilharia, o «Deus da guerra», como lhe chamava Estaline.

O problema é que «as indústrias de Defesa ocidentais são formidáveis, mas têm dificuldade em produzir grandes volumes, especialmente de munições», notou o Economist. Além do risco que, ao longo do tempo, os líderes ocidentais se comecem a cansar dos custos globais da guerra, do aumento dos preços do combustível e alimentos ou da inflação, perdendo o seu atual entusiasmo com a causa ucraniana.

Entretanto, o Kremlin vai agarrando cada vez mais território ucraniano, bem consciente de um dos axiomas da guerra: é muito mais fácil defender posições que tomá-las. Lysyschansk então enfrenta um risco enorme, com as forças russas a avançar na sua retaguarda, vindas do sudeste, estando prestes a ser cercada. Aliás, Ramzan Kadyrov, o líder da Chechénia, mais conhecido como o senhor da guerra favorito de Putin, veio anunciar que as suas forças especiais – os kadyrovtsy, uma milícia acusada de brutais abusos dos direitos humanos – conseguiram atravessar o Seversky Donets a partir de Kremina, junto com forças separatistas, ameaçando atingir Lysychansk a noroeste.

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