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A cobardia e o calculismo são o que mais ordena

A cobardia e o calculismo são o que mais ordena

Eugénio Lisboa 01/07/2022 09:28

Aos 92 anos, com a sagacidade e a truculência própria de quem viu muito e leu mais, Eugénio Lisboa entende que o nosso meio inteletual anda a pedir uma honesta e radical barrela.

O nosso milieu literário anda cheio de miasmas perigosos para a saúde mental. Em vez de uma sadia coragem, independência e destemida vontade de se dizer o que as coisas realmente são, assistimos a um conglomerado de acocorados, aconchegados no seu medo de ofender este ou aquele grupo de influência ou aquele provável júri de um prémio ou aquele gestor de uma tribuna crítica.

Em vez de um testemunho autêntico, oferece-se-nos, quase sempre, uma mixórdia destinada a agradar a gregos e troianos. Faz lembrar o que se dizia de um camelo ser o cavalo produzido por uma reunião de muitas opiniões. A nossa literatura, em vez de ser uma esbelta coleção de cavalos, é um conjunto de pesados camelos. Entre o receio de não agradarem a todas as tertúlias da república e o terror de não inovarem o suficiente para obterem a bênção dos gurus de serviço, os jovens candidatos a escritor já não sabem para que lado se virarem. A vida é uma canseira, como dizia a fogosa Lúcia Lepecki.

A maioria das vezes em que pego num romance português, apetece-me ir logo a correr à procura de uma boa ficção inglesa ou americana. Isto faz-me lembrar o conselho saudável que dava o grande Raymond Chandler aos escritores: “Se a história começa a esmorecer, faça aparecer um homem armado de pistola.” É disto que eu me queixo: no raio da ficção portuguesa nunca aparece o salvífico homem armado de pistola. Falta-lhe autenticidade, virilidade e um bom bocado de limpeza.

Falta-lhe, sobretudo, não ter vergonha de recorrer ao homem da pistola. Tem medo de nos “entreter”, como recomendava Henry James que era essencial fazer, por estar convencida de que é seu principal dever aborrecer-nos. Tem muito medo de nos contar uma história, porque os gurus privilegiam o romance sem história dentro. Isso levar-nos-ia a termos de desprezar obras como o Dom Quixote, A Cartuxa de Parma, a Guerra e Paz, a Ana Karenina, A Prima Bette, o David Copperfield, Middlemarch, As Aventuras de Huckleberry Finn e por aí fora, tudo obras recheadas de história, o que faz encolher de horror as vestais do romançolho moderno lusíada.

O genial Ortega y Gasset bem se esfalfou com o símile do colar de pérolas: o que tem valor nesse colar são as pérolas e não o fio, mas, sem o fio, não há colar. No romance, as personagens, as emoções, os conflitos entre personagens serão o mais importante, mas a história funciona como o fio do colar de pérolas: sem ela, não há romance. A história, ao contrário do que sustentam os snobs parolos, é fundamental, mesmo que seja débil, o que não é o caso, nas obras que citei.

Termino, pois, recomendando fervorosamente aos nossos escritores que sejam destemidos, isto é, que não tenham medo de contar uma história e que não receiem recorrer ao homem armado de pistola. Mandem bugiar os gurus lusitanos, cheios de macaquinhos na cabeça e pouca capacidade de pensar.

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