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Dínamo Dresden. Uma escuridão tão funda como a dos calabouços da polícia

Dínamo Dresden. Uma escuridão tão funda como a dos calabouços da polícia

Afonso de Melo 28/06/2022 21:44

O velho clube que recrutava jogadores-polícias em toda a RDA e foi grandemente dominado pela Stasi caiu outra vez para a III Bundesliga.

Dresden e o futebol sempre tiveram uma relação difícil e, agora, parece ser mais difícil do que nunca. O Dínamo, que já chegou a andar nos regionais da Alemanha unificada, conseguiu recentemente chegar ao segundo escalão mas voltou a descer para a III Bundesliga. Antes e durante a II Grande Guerra, o clube mais emblemático da cidade era o Drescner SC, campeão alemão em 1943 e 1944, mas morreria pouco depois por via do período de desnazificação imposto pela ocupação Aliada. Reencarnou em 1946 no SG Friedrichstadt mas sempre foi visto pelos ocupantes soviéticos do leste do país como uma organização excessivamente burguesa. De tal forma que, em 1950, na final do campeonato da República Democrática Alemã, face ao Horst Zwickau, perante o olhar atento de Walter Uulbricht, o presidente do Partido Socialista da Alemanha de Leste, sofreu a humilhação de uma derrota dura (1-5) e, pior do que isso, um roubo descarado por parte da equipa de arbitragem de forma a que ficasse claro para todos que era um clube maldito. Os seus jogadores saíram de campo sem cumprimentarem os adversários e foram perseguidos por uma turbamulta furiosa que procurou agredi-los. Um mês depois, o Friedrichstadt era dissolvido e o Ministério do Desporto decidiu que Dresden precisava de um clube que alinhasse com as ideias políticas do regime e ocupasse o lugar perdido pela cidade na Oberliga. O primeiro passo foi entregar esse lugar ao SV Deutsche Volkspolizei Dresden, como está bem de ver, a equipa da polícia local. Na época de 1950-51, outra decisão controversa avançou: o clube de Dresden teve liberdade para ir buscar para as suas fileiras todos os melhores jogadores das equipas de polícia das outras cidades da RDA. Foi campeão na época seguinte. E, concluindo a transformação levada a cabo, passou a ser o clube não apenas da polícia como também da polícia secreta, a Stasi. Com um novo nome a partir de 1953: Dínamo. Nesse mesmo ano voltou a ganhar o campeonato.

Como o que nasce torto tarde ou nunca se endireita, a política voltou a mexer com o futebol de Dresden. O Dínamo foi transferido para Berlim de forma a combater os clubes burgueses da capital, o Hertha e Blau-Weiß. Em Dresden ficou a equipa de reservas, atirada para os campeonatos regionais. Mas, ao contrário do que muitos pensavam, reergueu-se dos escombros.

 

Anos de glória

Nos anos-70, o Dínamo de Dresden chegou ao topo da sua glória desportiva, tendo conquistado cinco títulos de campeão da RDA (1971, 1973, 1976, 1977 e 1978), além de duas Taças (1971 e 1977), surgindo com frequência nas taças europeias e afastando equipas portuguesas como o FC Porto e o Benfica. A sua popularidade cresceu a olhos vistos e o clube tornou-se o orgulho de dois dos mais poderosos homens do país, o tenente-general Willi Nyffenegger, chefe-da-polícia da região de Dresden, e Horst Böhm, major-general e chefe de departamento da Stasi. As três estrelas da equipa, Gerd Weber, Peter Kotte e Matthias Müller receberam um honroso convite para jogar na Alemanha Ocidental, no Colónia, mas acabariam por ser presos por deserção quando se preparavam para sair do país. O Dínamo de Dresden não era um clube que se abandonasse por mais um punhado de marcos.

Apesar de continuar a ser um frequentador das provas da UEFA, a despedida final, na época de 1990-91, foi triste. O Muro de Berlim caíra, o país estava em convulsão, e ao receber o Estrela Vermelha de Belgrado deu-se uma invasão de campo e o clube foi banido pelas instâncias internacionais. A queda estava iminente. 18 dos 72 jogadores que vestiram a camisola do Dínamo entre 1972 e 1989 foram considerados colaboradores da Stasi e sofreram as consequências da mudança de regime. Com a inclusão na Bundesliga, o Dínamo perdeu por completo influência bem como poder financeiro. A abertura a jogadores estrangeiros pode ter sido uma brisa de renovação mas não havia dinheiro para contratar gente de qualidade. Não tardou a perder até o estatuto de melhor equipa da cidade, vendo o Dresdner recuperar esse lugar.

1995 marcou o último ano do Dínamo de Dresden na Bundesliga. Chegou a cair com estrondo na Regiionalliga Nord mas, nas épocas mais recentes, conseguiu ganhar algum fôlego e manteve-se na II Bundesliga entre 2016 e 2020. Tendo sido campeão da III em 2020-21, este final de campeonato foi desastroso e a época de 2022-23 será, outra vez, passada no terceiro escalão do futebol alemão. A política levou o Dínamo até ao topo e foi responsável pela sua desgraça...

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