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28 de junho de 1953. E São Marino perdeu o monopólio dos divórcios italianos

28 de junho de 1953. E São Marino perdeu o monopólio dos divórcios italianos

Afonso de Melo 28/06/2022 18:25

O Governo italiano pôs um ponto final numa das fontes de receita da Sereníssima República de São Marino – os divórcios (cerca de 40 por ano) que só os cidadãos de Itália podiam obter nos serviços civis do pequeno enclave. Em troca, ofereceu um pacote económico de 150 milhões de liras anuais e quinze toneladas de tabaco.

São Marino, esse país minúsculo alcandorado no alto de um pico dos Apeninos, a orgulhosa Sereníssima República de São Marino, a mais antiga das repúblicas, perdera um dos seus recursos económicos mais rentáveis: os divórcios. Eram cerca de quarenta por ano, e todos de cidadãos italianos. Aproveitavam (alguns abusavam) de um acordo legal bivalente e a facilidade dos processos de separação que vigoravam no país. Talvez não fossem de uma facilidade infantil. Afinal, um divórcio é um divórcio (ou pelo menos era, nesse tempo) e ninguém se divorciava de ânimo leve. Suponho eu. O curioso de tudo isto é que o divórcio estava interdito aos naturais de São Marino. Ou seja, só os italianos é que se aproveitavam da brecha na lei para se verem livres de maridos e mulheres. Os lá de casa continuavam em casa. Ou, se mudavam de casa, mantinham-se casados e viva lá o seu compadre. Algo que não agradava de sobremaneira ao Governo italiano. E, assim, pôs cobro ao tal acordo que permitia a cidadãos de naturalidade italiana residentes ou trabalhadores em São Marino requerer o divórcio perante as autoridades locais. Fazia sentido? Não contem comigo para me imiscuir em tal matéria. Entre marido e mulher não se mete colher. Ponto final. Metam outros mais curiosos ou mais coscuvilheiros.

O Governo de São Marino ficou desagradado com a decisão do seu homólogo de Itália. Afinal, tirando o turismo e uma muito duvidosa indústria filatélica, o país não abundava em fontes de rendimento. E digo duvidosa indústria filatélica porque nem todos podem ser colecionadores de selos, embora São Marino seja famoso pelos seus. Exigiu uma compensação. Enfim, dentro da noção de exigência que um anãozinho como São Marino pode exigir ao seu único vizinho (trata-se de um enclave), a Itália. Com umas mãos largas dignas de San Generoso di Tivoli, o Governo de Itália compensou o desaparecimento do negócio dos divórcios com uma verba de 150 milhões de liras anuais e de um fornecimento, também anual, de quinze toneladas gratuitas de tabaco. Não era mau de todo. Até porque todos os estrangeiros que punham os pés em território italiano queriam fazer uma visita a São Marino e sempre gastavam por lá uns dólares, umas libras esterlinas ou uns francos. Vendo bem, as carreiras de autocarros que ligavam Rimini à Cidade de São Marino andavam pejadas de gente que, ainda por cima, atravessava a fronteira delimitada por portões de pedra sem precisar de vistos ou sequer de apresentar o passaporte.

 

Selos

Sobraram os selos, portanto. Não deixa de ser impressionante a procura que os selos de Sã Marino têm um pouco por todo o mundo. São exóticos, num país tão minúsculo e datam desde outubro de 1607, quando foram inaugurados os Serviços Postais da República. Não deixa de ter graça que, exatamente por São Marino, Sereníssima República, ser tão pequeno (61,2 km2) que os selos ganhem importância já que qualquer um vai entregar uma carta a qualquer lado, se não a pé, de bicicleta, sem precisar gastar cuspo. Com o tempo, lembraram-se os senhores dos correios san-marinenses, de começarem a inventar: selos sobre tudo e mais alguma coisa; selos quadrados, em losango, em triângulo... Selos para guardar por serem assim mesmo: esquisitos. E a malta ia guardando. E tornou-se num hábito passar por São Marino e comprar selos, mesmo que não sirvam para compor nenhuma coleção. É como adquirir postais. Aliás, muitos dos selos de São Marino são verdadeiros postais da cidade capital e seus arredores. E assim, se não se divorciam, os italianos sempre podem lá ir escrever cartas às amantes. Ou às mulheres, sei lá, para variar.

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