27/06/2022
 
 
José Paulo do Carmo 24/06/2022
José Paulo do Carmo

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"Burning Man" português

É preciso ao dia de hoje ter uma boa cunha ou ter antecipado o problema para conseguir alimentar uma produção para os próximos meses.

Com o aproximar do Verão vão-se “acotovelando” os convites para festas e festinhas, discotecas, festivais e espaços ao ar livre. Parece que toda a gente de repente faz eventos. Depois da moda dos restaurantes embalados em conceitos e desenhos filosóficos em que a comida é apenas parte da equação (muitas vezes a menos importante) agora passamos para os eventos. Não falo das habituais comemorações de aniversário que cada um saberá o que faz com o seu, falo de produções de porta aberta, promovidos nas redes sociais e através do “boca a boca”, cada um com a sua cultura e as suas ideias, com regras determinadas de acesso e muitas vezes convites selecionados, para que não se adultere o resultado que se pretende atingir.

Depois de dois anos de pandemia, parte deles enclausurados em casa, sem entretenimento, sem noitadas e pouca ou nenhuma vida social, a sede cresceu e de que maneira. As pessoas estão sedentas de animação, de algo que as distraia, que as tire de casa e as faça vibrar sem pensar muito nos problemas da vida. Foi a perceção desta oportunidade que construiu tanta oferta que vemos por aí. Umas mais exclusivas, outras mais misteriosas e algumas mesmo privadas. E só não existem mais ainda porque dada a guerra na Ucrânia e a saída de uma pandemia, que abrandou a produção mundial, o material de som e sobretudo de djiing entrou em rutura de stock. É preciso ao dia de hoje ter uma boa cunha ou ter antecipado o problema para conseguir alimentar uma produção para os próximos meses. Os armazéns de aluguer não têm mãos a medir e as lojas de venda de produtos do género deixaram de fazer promessas de prazos de entrega.

Mas voltando aos muitos eventos que todas as semanas se vão realizando um pouco por todo o lado, parece que regressou a moda há muito afastada dos portugueses, das festas temáticas, em que as pessoas se produzem de uma determinada forma e alinham num tema escolhido pela organização, criando uma sensação de pertença completamente diferente. Um estilo que caracterizou a loucura dos anos 70 e 80 e que com raras exceções deixou de existir, porque com a democratização da noite, os clientes começaram a ter pouco cuidado com o estilo e pouco respeito pela cultura da noite, afinal de contas havendo tanta oferta, se não entravam num sítio entravam no outro, era-lhes indiferente.

Não sei se influenciados por quem chegou de fora, porque muitas vezes em Portugal somos assim, só damos valor quando quem chega nos mostra o caminho, o que é certo é que começaram a surgir alguns movimentos alternativos, iniciados pela comunidade francesa que se instalou nos bares e restaurantes de apoio às praias da Costa da Caparica e que viraram fenómeno, com produções inspiradas no mítico festival “Burning Man”, evento de contracultura realizado anualmente no Nevada, mas que do festival só aparentam mesmo as roupas. A verdade é que vieram para ficar e são cada vez mais as produções independentes que vão apostando numa realidade a que os portugueses estão nitidamente dispostos a aderir. São os casos das produtoras “It is what it is” ou dos mais recentes “Yard Episodes”. Espera-se por isso um verão pintado nestes tons.

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