27/06/2022
 
 
Cereais. Dependência externa vai agravar-se no Outono

Cereais. Dependência externa vai agravar-se no Outono

AFP Sónia Peres Pinto 23/06/2022 18:00

INE garante que a dependência de Portugal de países terceiros para o consumo de cereais deverá registar um agravamento, na altura em que, a produção nacional desta matéria-prima poderá cair entre 10% e 15%. Presidente da Confrari já tinha alertado para esta situação e defendeu subida de preços.

Apesar da conjuntura marcada pela seca, pela escalada dos custos com os meios de produção, pela subida dos preços dos produtos agrícolas e pela suspensão das transações comerciais com a Rússia e a Ucrânia, as previsões agrícolas, no final de maio, apontam para a normal instalação das culturas de primavera. Os dados foram revelados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e dizem ainda que no caso do milho e do cereal fundamental – que são fundamentais para a produção pecuária – prevê-se mesmo um aumento de 5% na área semeada, “o que terá um impacto reduzido na satisfação das necessidades de abastecimento, já que, em média, a produção nacional representa 25% do consumo interno.

De acordo com os mesmos dados, o abastecimento externo de milho a Portugal era assegurado em 41% pelas importações da Ucrânia (média 2012-2021), país que era o principal fornecedor nacional, obrigando à procura de alternativas no mercado mundial. No entanto, nos dois primeiros meses de guerra, as importações de milho provenientes do Canadá, Brasil e Polónia aumentaram significativamente, atingindo 140 mil toneladas e compensando a suspensão das transações comerciais com a Ucrânia.

Uma situação que já levou o presidente da Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal (Confagri), Idalino Leão, ao admitir ao Nascer do SOL que, os responsáveis do setor estão a enfrentar o dobro dos custos de produção dos cereais, “até porque esta guerra é feita no celeiro da Europa e Portugal tem de importar quase tudo em termos de cereais, quer para a alimentação animal, quer para a alimentação humana”, acrescentando que “estamos reféns da especulação e também da falta de oferta que existe atualmente no mercado”.

De acordo com o responsável, este aumento de custos terá de de ser compensado pelo preço final cobrado ao consumidor. “Um dos principais desafios que temos é continuar a produzir alimentos com esta escalada interminável de preços dos principais fatores de produção”, defendendo que será “inevitável que os preços dos produtos agrícolas subam”. Caso contrário, de acordo com o responsável, se continuarmos a assistir a esta escalada de preços dos fatores de produção e se o preço final dos nossos produtos não acompanhar nas prateleiras acabaremos por assistir a “um abandono em massa dos agricultores, colocando em causa a nossa soberania alimentar”. 
 
Seca com impacto nos cereais O gabinete de estatística diz ainda que em relação aos cereais de outono-inverno está previsto que o impacto da seca nas produtividades corresponda a um decréscimo entre 10% a 15% o que, aliado a uma área semeada historicamente baixa, agravará a dependência do abastecimento externo, referindo ainda que estes se encontram “em plena maturação, apresentando, de um modo geral, fraco desenvolvimento vegetativo. Globalmente, as previsões apontam para uma diminuição generalizada da produtividade dos cereais praganosos em 10%, sendo de 15% no trigo duro e aveia”.

Quanto ao arroz, os mesmos dados indicam que as sementeiras “têm decorrido com normalidade”, sendo que a diminuição de 5% na área semeada se deveu “exclusivamente às obras de manutenção dos canais de rega de Alcácer e Grândola” (já intervencionados em 2020). E, no caso de Baixo Sorraia, o INE estima que a área aumente “ligeiramente, devido à conversão de áreas de pastagem permanente em canteiros de arroz”.

Em relação à batata, o recuo previsto da área de 10% no regadio e de 15% no sequeiro resultou de “fatores meteorológicos, económicos e técnico/agronómicos”, designadamente a “falta de precipitação e humidade no solo, aumento dos preços dos meios de produção, em particular dos fertilizantes e dos combustíveis e proibição de utilização de antiabrolhantes de síntese à base de clorprofame”.

Apesar de a colheita da batata de sequeiro ter arrancado “sem dificuldades, apresentando os tubérculos qualidade e calibres razoáveis”, o INE refere que, “na região do Oeste, onde esta cultura é mais representativa, os batatais apresentam um fraco desenvolvimento vegetativo, pelo que se preveem quebras de 60% face a 2021”.

Já no que diz respeito à plantação de tomate para a indústria, o organismo indicou que “decorreu sem interrupções e em boas condições, sendo a área contratada entre os produtores e a indústria transformadora de 16,5 mil hectares, o que corresponde a um aumento de 4%, face à campanha passada”.

Quanto às fruteiras, em particular nas prunóideas, “as condições meteorológicas não foram favoráveis”, prevendo-se por isso decréscimos de produtividade de 15% na cereja e de 10% no pêssego.

Quebra de produção De acordo com o INE, as condições de desenvolvimento da cereja “foram distintas nas principais regiões produtoras”: Se, no Ribadouro, os pomares “apresentam um bom aspeto vegetativo e os frutos grande qualidade, devendo a produtividade ser idêntica à da campanha passada”, na Cova da Beira “as geadas tardias e as baixas temperaturas noturnas de abril provocaram alguma queda de frutos e um atraso no desenvolvimento vegetativo, prevendo-se um decréscimo de produtividade de 25%”.
Mas admite que esta estimativa global de quebra ainda se possa alterar devido à “existência de muitas variedades de cerejeiras com diferentes épocas de colheita e o facto de se tratar de um fruto muito suscetível às condições meteorológicas”, acenando com uma queda que “deverá rondar os 15% face a 2021”.

Também com quebras de produtividade face à campanha anterior estarão também os pomares de pessegueiros, “afetados durante a floração por precipitação, baixas temperaturas noturnas e formação de geadas, que prejudicaram a polinização e atrasaram o desenvolvimento vegetativo”.

Este cenário, “juntamente com os ventos fortes de abril”, contribuiu para a “queda fisiológica dos pequenos frutos, cujo desenvolvimento aparentava um vingamento consolidado, prevendo-se assim um decréscimo de produtividade de 10%”.

Bruxelas “baralha regras” O presidente da Confagri, na mesma entrevista, apontou o dedo a Bruxelas por ter criado ao longo dos anos uma série de regras que tem limitado a produção de cada Estado-membro nos vários setores de atividade. “O que provoca? Um aumento do nosso défice comercial. Um exemplo crasso é o que está a acontecer com os cereais, mas há outros exemplos”, apontando o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. “Esse acordo, a ser efetivado em relação à atividade pecuária, será um autêntico tiro no setor não só português, mas europeu, porque vai ser impossível competirmos com os agricultores argentinos, uruguaios, brasileiros e paraguaios, porque não temos nem escala, nem os custos de produção que eles têm”. 

Idalino Leão defendeu também que as ajudas públicas sejam utilizadas para os agricultores que apostam numa atividade produtiva e ativa dos seus territórios. “As políticas públicas devem servir para corrigir desigualdades e esta política concreta que é PEPAC deve servir para fomentar a produção e incentivar os gestores e os produtores agrícolas ativos e não os agricultores como se costuma dizer na gíria de sofá”, referiu.

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