29/06/2022
 
 
Carlos Gouveia Martins 23/06/2022
Carlos Gouveia Martins

opiniao@ionline.pt

A maior arte de falar, às vezes, é estar calado

Nunca foi tão fácil ter e emitir opinião. Sobretudo, partilhá-la. Existem mais telefones do que seres humanos e cerca de metade da nossa humanidade tem acesso à internet. Hoje, qualquer um, e qualquer continente, pode publicar os seus pensamentos e fotografias onde, teoricamente, poderá ser visto por milhares ou milhões de pessoas.
 
Não lhe chamaria aldeia, mas seguramente o mundo de hoje tornou-se numa única cidade global. Nunca na história da humanidade existiu uma possibilidade tão grande para a liberdade de expressão se expandir como esta que vivemos. Com o que é agradável, nesta liberdade, e com um infindável mundo de males de libertinagem que vai desde ameaças, notícias falsas que se propagam, de imagens deturpadas, pedofilia, crimes de teor sexual, ofensas e imundice. Acho que “imundice” resume bem.
 
É bom termos noção das barreiras que a liberdade de expressão tem. Ser livre não permite liberdade de pisar os limites. Liberdade não prevê aprisionar a verdade.
 
Com tanto incentivo ao uso da palavra, a maioria da sociedade global desaprendeu o básico: para falar do que seja, é preciso ouvir muito primeiro. Para escrever bem, é preciso ler muito primeiro. Para se ser credível a falar, para além de estudar calado, é preciso saber respeitar o silêncio e dessa forma dar peso às palavras. É preciso saber que uma intervenção boa valerá sempre mais do que dez medíocres. Quantidade não é qualidade e vivemos de excessos.
 
Há excesso de intervenção publica. Esse excesso permite que, à partida, fique banal qualquer intervenção que deveria ser levada em conta, ouvida e entendida.
 
À cabeça de qualquer um, neste caso, vem o excesso de comunicação do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Não falta intervenção ao nosso Presidente da República, falta, isso sim, silêncio. E, saber que estar calado, claro está, também é uma forma de comunicar. Às vezes, mais eficaz do que um longo discurso.
Felizmente, Marcelo Rebelo de Sousa, mesmo assim, erra menos que muitos outros.
 
Podia elencar ainda um conjunto vasto de comentadores (alguns nem sei como conseguem escrever todos os dias em jornais, estar nas televisões e ainda aparecer publicamente em eventos! Devem ter sósias!) que conseguem falar de futebol à segunda-feira, do SNS à terça-feira, da dívida pública à quarta-feira, do ponto de cozedura do peixe à quinta-feira, de marés e preia-mar à sexta-feira e ao fim-de-semana ainda debatem conflitos militares e são especialistas em filosofia, latim e mandarim.
São aqueles que nunca poderão ser levados a sério, embora se vendam como tal, porque são meros especialistas de generalidades e likes de redes sociais.
 
Há mil casos que ficam na nossa memória coletiva do Mural da “vergonha alheia”.
 
Ainda nestas horas recentes, assistimos a mais um filme infeliz destes.
Um filme que era evitável estando calado. Calada, neste caso.
A Diretora-Geral da Saúde, Graça Freitas, ontem voltou a ensinar aos portugueses que o silêncio é o seu melhor discurso. Dizia a responsável de saúde que “Agosto não é um bom mês para ter acidentes ou doenças. O pior que nos pode acontecer é adoecer em agosto.” Claro, porque nós escolhemos quando temos acidentes e decidimos quando adoecer. Melhor foi a sugestão gastronómica que Graça Freitas deixou: “cuidado com o bacalhau à Brás no verão por causa das salmonelas”. Surpreendente. Já espero ver Ljubomir Stanisic, conhecido Chef e presença habitual nas televisões, a abordar os níveis de imunidade atual ao SARS-CoV-2 e ainda a explicar como estão as infeções em Portugal pelo vírus Monkeypox.
 
Há mais.
Que dizer da declaração do Primeiro-ministro, no final da semana passada, em que prometeu ao país que esta segunda-feira (dia 20 de junho), “grande parte dos problemas do SNS estarão resolvidos”.
Acho que é tão óbvio que o seu silêncio teria sido um melhor discurso que dispenso dar argumentos a este erro, grande e inesquecível, que foi a declaração de António Costa.
Os portugueses, mas sobretudo os profissionais de saúde preferiam que estivesse calado.
 
Sobre António Costa há vários momentos em que hoje deverá pensar que mais-valia não ter falado. Sobretudo porque ocupa um cargo que exige importância nas palavras e não descrédito. É primeiro-ministro e deve pensar, acredito, que a sua atuação deve servir de exemplo ao país que governa.
 
Ontem mesmo, afirmou o líder do PS e Primeiro-ministro, no Parlamento que "é inaceitável que as empresas andem a subremunerar o talento". O nosso primeiro-ministro revelou o que pensa sobre os empresários e gestores portugueses. Considera que não pagam mais porque não querem. Mas esta afirmação é demagógica. Muito demagógica. Quando o país está a assistir à rotura no SNS porque o Estado não tem uma política de remuneração do talento na saúde, sobretudo dos médicos que encontram no setor privado uma remuneração mais adequada (e sem falar no diferencial que existe no SNS com o valor/hora dos tarefeiros), que discurso é este senhor Primeiro-ministro?
Antes de dar lições de moral aos empresários e gestores, António Costa deveria tomar decisões no setor público e nas empresas públicas que lhe dessem a autoridade para fazer este tipo de afirmações. À data, devia ter estado em silêncio.
 
Poderíamos todos recordar muitas mais intervenções infelizes que tinham tido cura: O silêncio ao invés do discurso.
 
Porém, quando já identificámos este erro nas duas maiores figuras do Estado e ainda numa Diretora-Geral que mais exposta esteve nestes últimos dois anos pandémicos, e deveria ter já o treino linguístico para não cometer estes erros, creio que está bom.
 
A sociedade fala em excesso.
A sociedade portuguesa então, fala muito, mas atua pouco.
 
Que o diga o SNS. Os nossos índices de produtividade. Os números que demonstram qual a fatia de portugueses que vive de rendimentos à custa da menor fatia de portugueses que trabalha. Falamos todos muito, o país (não sou eu) demonstra que fazemos pouco.

Talvez, se parte dos portugueses poupasse no tempo que “discursa” (entenda-se: escreve nas redes sociais e partilha coisas que desconhece nem estudou) e praticasse o silêncio, iria ter mais tempo disponível para contribuir para sermos um país mais produtivo e eficaz.
 
Falaríamos só daquilo que estudámos ou que profissionalmente nos tornou competentes e conhecedores na nossa vida.
Deixaríamos de ser todos comentadores e especialistas de banalidades.
 
Esta sugestão é aplicável a qualquer Presidente da República, Primeiro-ministro, comerciante, profissional de saúde ou quem atravesse uma infeliz fase de desemprego: Para falar de algo, devemos estudar e conhecer a situação. Se não sabemos, perguntamos a quem sabe, antes de falarmos. E se não soubermos (especialmente a classe política), não tenham vergonha de dizer: “Não sei responder a isso. Irei informar-me e falo depois se oportuno”.
 
Ter a humildade de estar calado ou assumir que não sabemos tem muito mais elevação e categoria, esse tipo de silêncio, que palavras ocas e “promessas” como a de que esta segunda-feira teríamos resolvidos parte dos problemas do SNS.
 
Fica a sugestão, muitos dos melhores discursos que podem alguns ter, com toda a sua liberdade de expressão, será o silêncio.
 
Pratiquem. Sabe e faz bem. A todos.
 

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