29/06/2022
 
 
Afonso de Melo 23/06/2022
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Num lugar do cá dentro

É possível que os sentimentos não ocupem espaço, dei por mim a pensar. Mas ocupam. Só assim consigo explicar todas as vezes  que um nó me fica entalado na garganta, impedindo-me de engolir, e aquecendo-me as  pálpebras com o sal das lágrimas.

Em que lugar do cá dentro é que se guardam os sentimentos? A doutrina divide-se: uns falam num órgão que se chama coração, outros numa espécie de nuvem de onde nada se apaga que dá pelo nome de alma. Nenhuma resposta me satisfaz. O coração é um músculo, não é como o estômago. Se este último se dilata após um rodízio à brasileira, não vejo o coração dilatar-se depois de um rodízio de sensações. Os sentimentos, pelo menos os meus, somam-se, dia a dia. Amo sempre quem amei, mesmo que esteja congelado no tempo, os meus mortos ocupam o mesmo espaço que quando estavam vivos, somando-lhe a crescente saudade a cada momento que passa, há sempre gente que, de repente, procura um espaço em mim e não posso recusá-lo.

Não me liberto da responsabilidade de ter gostado. “És para sempre responsável por aqueles que cativas”, dizia a raposa ao Pequeno Príncipe. E eu levei a lição a sério. Nunca me farto de gostar, de amar, ou de me sentir responsável por aqueles que cativo. E se tudo isso se arrumasse cá dentro, como numa prateleira, seria gordo e grande como Gargântua, uma espécie de pequeno planeta como o meu mano Xitó que deve ter ficado daquele tamanho só por causa da sua inesgotável generosidade.

É possível que os sentimentos não ocupem espaço, dei por mim a pensar. Mas ocupam. Só assim consigo explicar todas as vezes  que um nó me fica entalado na garganta, impedindo-me de engolir, e aquecendo-me as  pálpebras com o sal das lágrimas. Procuro-os em mim e encontro-os sempre, pelo que também podem viver nas  pontas dos meus dedos sempre prontos a encherem de letras as páginas em branco que, na minha frente, nunca ficam em branco. Perguntas a mais e respostas a menos. Talvez por isso, Pessoa, que construiu filosofias capazes de desalicerçarem o universo, tenha escolhido este para ser o último poema que escreveu em português: “Há doenças piores que as doenças/Há dores que não doem, nem na alma/Mas que são dolorosas mais que as outras/Há angústias sonhadas mais reais/Que as que a vida nos traz, há sensações/Sentidas só com imaginá-las/Que são mais nossas do que a própria vida/Há tanta coisa que, sem existir/Existe, existe demoradamente/E demoradamente é nossa e nós…/Por sobre o verde turvo do amplo rio/Os circunflexos brancos das gaivotas…/Por sobre a alma o adejar inútil/Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo/Dá-me mais vinho, porque a vida é nada”.

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