27/06/2022
 
 
Vítor Rainho 23/06/2022
Vítor Rainho

vitor.rainho@ionline.pt

"Não há sem-abrigo pobres"

A declaração de Laurinda Alves é infeliz, só isso e nada mais.

Nada como uma boa polémica que dê para agitar as redes sociais e, se possível, com o achincalhamento de alguém. Numa altura em que há quem fique ofendido por ser tratado pelo nome com que foi registado, só nos falta alguém aparecer pela frente a dizer que não quer ser tratado por idoso, mas sim por bebé, ou um gordo querer que o tratem por anorético. Caminhamos alegremente para uma ditadura do politicamente correto e nem nos damos conta disso. As minorias têm de ser respeitadas da mesma forma que as maiorias e não o contrário. Haja lugar e espaço para todos e cada um na sua.

Vem esta conversa a propósito das declaração de Laurinda Alves, vereadora dos Direitos Humanos e Sociais na Câmara de Lisboa, que disse que a autarquia tinha bilhetes para oferecer a refugiados para irem ver o Rock in Rio e que chegaram a pensar fazê-lo também a sem-abrigo mas que recearam potenciar um problema de “consumos”, presumo que de álcool e drogas. A declaração é infeliz, mas não passa disso. Por acaso alguém se importou que a CML não tenha pensado em oferecer os bilhetes a trabalhadores que laboram oito ou mais horas por dia e ganham o ordenado mínimo? E por aí fora... Quanto à classificação dos sem-abrigo, que tanto ofendeu as mentes mais sensíveis, recorde-se o que disse ao i, em dezembro de 2018, António Bento, diretor do Serviço de Psiquiatria Geral e Transcultural do Hospital Júlio de Matos, e um dos grandes conhecedores dos fenómeno de pessoas sem-abrigo. “A primeira vez que estudámos isso [percentagem de sem-abrigo com problemas mentais] foi em 2001, com a amostra de rua da Santa Casa da Misericórdia. Fomos fundadores da equipa de rua. E quando chegámos aos 1000 casos de rua fomos fazer as contas: 56 ou 57% tinham álcool, depois havia 20% de psicoses, depois as drogas e as perturbações de personalidade. No total, era mais de 90%. Eu acho que isto não varia muito, é obvio que podemos sempre admitir que há 10% de pessoas sem qualquer tipo de patologia. Agora, eu nunca vi pobres na rua, é muito difícil ver isso, mas admito que se houver um terramoto como o de 1755 possa haver”. Há dúvidas do que disse António Bento? Mas, repito, a declaração de Laurinda Alves é infeliz, só isso e nada mais.

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