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Académica. Estudantes roubados em Caracas por um ladrão e por um árbitro

Académica. Estudantes roubados em Caracas por um ladrão e por um árbitro

Afonso de Melo 21/06/2022 21:10

Convidados para participar no torneio comemorativo do 400 anos da fundação da capital venezuelana, os rapazes de Coimbra estiveram em grande.

Os Estudantes andavam em bolandas. O que vale é que era tempo de férias, pelo menos na Academia se não na Académica. Ter sido segunda classificada no campeonato, logo a seguir ao Benfica (ainda grande da Europa) fizera com que houvesse muita gente, em toda a parte, a querer ver a arte dos rapazes da Briosa.

Num salto, a Académica fora a Boston, defrontar os Tigers (episódio que fica para se contar por aqui noutra altura), regressara a Portugal e partira para Caracas, Venezuela, onde iria permanecer pelo menos quinze dias. Coisa de prestígio, acrescente-se.

Nesse tempo, os torneios internacionais de Caracas atraíam gente da mais fina nobreza do futebol. Apelidada de Copa del Cuadricenterário – a capital do país comemorava 400 anos da sua fundação – , a competição punha em liça três equipas – os de Coimbra, o campeão de Espanha, Atlético de Bilbau, e os argentinos do Platense – que jogavam todas contra todas duas vezes, como se fosse um campeonato.

No dia 18 de Agosto, o Estádio Universitário de Caracas encheu até à medula. Havia gente dependurada nos postes de electricidade para assistir ao Académica-Atlético de Bilbau e não deram por mal empregues os seus esforços. “O público assistiu a um desafio muito interessante, rápido, alegre e com fases de grande emoção junto a ambas as balizas”, descrevia um dos enviados-especiais a Caracas.

E concluía: “De um lado a boa técnica e a esclarecida táctica (Académica); do outro, a virilidade do futebol em força (Athletic Bilbau). Toni foi expulso, farto de aturar um adversário que lhe mordia as canelas a torto e a direito, Artur Jorge, no último minuto, teve uma cabeçada que obrigou o grandíssimo Iribar a mostrar porque era um dos maiores do mundo, e os 90 minutos acabaram a zero.

Logo no dia a seguir, porque não havia tempo a perder, a Académica regressou ao campo, desta vez para defrontar o Platense, que ficara em segundo lugar no campeonato argentino. Chovia que Deus a dava, mas o povão manteve-se fiel, sobretudo um grande número de emigrantes portugueses.

A relva estava uma miséria, sobretudo para que os Estudantes pudessem desbobinar aquele futebol de passe e repasse tanto do seu gosto, acabou por haver mais luta do que jogo, Artur Jorge fez 1-0 de cabeça, a centro de Celestino, aos 85 minutos, mas quatro minutos mais tarde Medina empatou numa recarga, concluindo um lance confuso. Estava decorrido metade do torneio, estava tudo em aberto e cabia outra vez à Académica jogar (de novo contra o Platense), enquanto os bilbaínos iam descansando. Quando os mandaram para o relvado do Universitário, bateram os platenses por 2-0.

O festival e o desgosto Pelo meio dos futebóis, os estudantes estavam furiosos. Um roubo generalizado no hotel varreu-lhes os quartos, o graveto e o mais de valor que ficara esquecido sobre as mesas de cabeceira. Quando chegou a hora de se haverem com os argentinos deitavam fumo pelas orelhas. E o Platense sofreu a bom sofrer com isso. Parecendo influenciados pela hostilidade do público, que chegara a apedrejar o autocarro da equipa na chegada ao estádio, os adversários da Académica entregaram-se por completo à superioridade adversária. Mário Campos e Vítor Campos construíram, logo aos 4 minutos, uma jogada a seu jeito que terminou com um golo belíssimo. Ernesto fez 2-0 aos 13m.

A goleada ameaça surgir com os primeiros pingos de chuva, mas os Estudantes preferiram trocar a bola e enervar os adversários. O 3-0 só surgiu aos 84 m, outra vez por Ernesto. Com vantagem sobre o Athletic nos golos marcados, bastava um empate para carregar até Coimbra o bonito troféu dedicado ao vencedor. Sem poder contar com Augusto Rocha, lesionado, a Académica fez aos bascos o mesmo que fizera aos argentinos, enredando-os num futebol ofensivo asfixiante.

Mas, aos 43m, o árbitro italiano Varroni ignorou uma carga grosseira de Rojo sobre Maló e validou o golo do Athletic. Os protestos foram intensos mas só valeram a expulsão de Rui Rofrigues. Com o ímpeto quebrado, a Académica ainda teve forças para lutar pelo empate. Mas Iribar foi enorme.

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