07/07/2022
 
 
Afonso de Melo 21/06/2022
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Descascando pinheiros

Os mortos adiados passam por mim como se houvesse um pinheiro na curva da estrada à sua espera. Ninguém me espera em lado nenhum. A estrada é apenas a estrada. E eu vou por ela e nada mais...

Há gente com pressa. para mim um minuto é apenas um minuto e ponto final. Chego sempre mais cedo aos compromissos porque tenho o complexo da pontualidade. Prefiro esperar a que esperem por mim. Deve ser por isso que continuo à tua espera mesmo sabendo que não vens. Que nunca virás. Aliás, nem sequer existes. Espero pela minha Francisca até ao dia em que possa olhar para dentro dos seus olhos azul-Olival, iguais aos meus, esperando encontrar neles aquele jeito de menina confiante que sentava ao meu colo como a vida dever ser: pai e filha. Sangue do meu sangue. Compreendo a pressa dos outros. Já a tive. Queria viver depressa, morrer cedo, ser um cadáver bonito. Não vai acontecer. Morrerei velho e mais feio do que nunca e não faço ideia do que irão fazer do meu cadáver, espero que não façam funerais com ele porque é, no mínimo, humilhante ser o morto de serviço.

Compreendo a pressa dos carros que se enfileiram atrás do Anglia Fascinante na estrada que leva de Alcácer à Comporta. Buzinam, ultrapassam o inultrapassável em riscos contínuos, disparam-se suicidas e homicidas pela recta para a qual as vacas, pensativas, deitam os olhos lânguidos no intervalo do que pastam. Os italianos têm uma frase marcante - “dicono - non posso vivere senza di te; e dopo non muoiono” (dizem – não posso viver sem ti; mas depois não morrem). Estes que me ultrapassam a quase 200 à hora morrem muito. Mas muito. Morrem descascando pinheiros. Alguém lhes recolha os restos que ficam agarrados às árvores que eu não tenho tempo para isso. Viajo a 65 quilómetros por hora, é isso que divulga o aparelho à minha frente, entalado na carroçaria logo abaixo do volante. Os mortos adiados passam por mim como se houvesse um pinheiro na curva da estrada à sua espera. Ninguém me espera em lado nenhum. A estrada é apenas a estrada. E eu vou por ela e nada mais...
afonso.melo@ionline.pt

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