07/07/2022
 
 
Avi Cohen. A velocidade matou o homem que tinha pressa

Avi Cohen. A velocidade matou o homem que tinha pressa

Afonso de Melo 17/06/2022 20:43

Agora, que Darwin passou a ser o último estrangeiro a assinar pelo Liverpool, é altura de recordar o primeiro, que chegou em 1979, por 200 mil Libras.

Esta mania dos clubes ingleses andarem a comprar estrangeiros a rodos não tem tantos anos como isso. Foi surgindo nos anos-80 porque, até lá, Liverpool, Manchester United, Arsenal ou Everton (os que, apesar de tudo, tinham mais uns cobres), preferiam apostar em escoceses, galeses ou irlandeses do que em malta do continente ou da América do Sul.

O Liverpool foi, aliás, um bom exemplo dessa política, basta recordar os nomes de John Toshack, Kenny Dalglish, Ian Rush, Graemme Souness, John Wark, Ronnie Whelan ou do desconcertante Steve Heighway. Nos dias de hoje, em Anfield, vale tudo: desde colombianos (Luiz Diaz), senegaleses (Mané), holandeses (van Dijk), brasileiros (Alisson), egípcios (Salah) e, nestes últimos dias mais um uruguaio (Darwin). Curiosamente, o primeiro não-britânico a vestir a camisola dos reds também nasceu no Egipto, na cidade do Cairo, de família judia, no dia 14 de novembro de 1956, tendo-se mudado muito cedo para Israel e começado a mostrar as suas qualidades, que não eram assim tantas como se possa pensar, no Maccabi de Tel Aviv – chamava-se Avraham Cohen. Teria um triste fim, mas nós só estamos no começo. Já lá vamos.

Estudiosos mais coca-bichinhos preferem considerar Rud Rudham, um guarda-redes nascido em Joanesburgo no dia 3 de maio de 1926, como o verdadeiro não-britânico a fazer parte dos quadros do Liverpool, embora outros registem a sua ascendência inglesa para refutar a afirmação. Rud deu nas vistas numa digressão feita pela África-do-Sul à Grã-Bretanha e manteve-se como o titular da baliza na época de 1954-55 até sofrer nove golos do Birmingham e ser posto de parte. Ou seja, fez apenas seis jogos pelos reds. Nada que Avi não pudesse ultrapassar e ultrapassou mesmo. Mas por pouco.

Aos 11 anos, Cohen era considerado como uma das grandes esperanças do Maccabi, mas, vendo bem, que percebem os israelitas de futebol? Troncudo, alto, jogava a qualquer posto da defesa que estivesse disponível. Entre 1974 e 1978, realizou 134 partidas pela equipa sénior e marcou dez golos. Despertou o interesse de um dos olheiros do Liverpool e foi convidado para assinar pelo clube de Anfield que ofereceu por ele 200 mil Libras. Chegara ao topo!

 

Fracasso

Convenhamos: a despeito de jogar pela seleção de Israel desde 1976 e tendo somado 51 internacionalizações e marcado três golos, Avi não tinha categoria para roubar o lugar a gente com o estatuto de Phil Neal, Alan Hansen, Phil Thompson ou Alan Kennedy. Aliás, seria por causa de uma lesão de Alan Kennedy, um homem com pés de belbutina, que conseguiu a sua estreia, em Leeds, no Elland Road, no dia 15 de setembro de 1979, não na defesa mas sim no meio-campo. Não iludiu nem desiludiu: foi anódino. Tanto assim que só voltaria a jogar no final da época, num encontro de campeonato contra o Aston Villa, no qual conseguiu estar péssimo logo de início num auto-golo apontado ao seu companheiro Ray Clemence, mas redimindo-se com um outro, na baliza certa, ainda antes do intervalo.

Na época seguinte disputou 14 jogos (no total cumpriu 18) por via da demorada lesão de Alan Kennedy, atuando como defesa esquerdo. Ficou mais recordado por ter atuado contra o Southampton no dia 20 de setembro de 1980, dia sagrado para os judeus do Yom Kippur, e ser esculhambado por toda a imprensa israelita, do que pelo que conseguiu mostrar em campo. Percebeu que não tinha lugar em Anfield e tinha pressa de jogar._Regressou ao Maccabi durante seis anos até ser chamado pelo seu ex-colega Souness, que treinava o Rangers, e desiludir novamente, agora em Glasgow. No dia 20 de dezembro de 2010, sofreu um terrível acidente de moto e entrou em morte cerebral. Oito dias mais tarde desligaram-lhe a máquina. Caiu no esquecimento.

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