27/06/2022
 
 
Uma nova democracia para uma nova política de energia

Uma nova democracia para uma nova política de energia

Pedro Sampaio Nunes 17/06/2022 08:53

Como mostram os exemplos da França, Suécia, Suíça e Finlândia, esses sim exemplos a copiar, e mostram pela negativa a Alemanha, a Dinamarca e Espanha, esses a evitar.

Por Pedro Sampaio Nunes, ​Ex-Diretor da Comissão Europeia das Novas Tecnologias de Energia e das Energias Convencionais | Ex-Secretário de Estado da Ciência e Inovação. Consultor

A Comissão Europeia apresentou no passado dia 18 de maio a sua proposta REPowerEU, um plano que pretende reduzir rapidamente a dependência dos combustíveis fósseis russos e acelerar a transição ecológica.

Nesta proposta a Comissão mostra infelizmente que nada aprendeu com a crise atual, e propõe na prática, substituir a nossa dependência da Rússia, por uma dependência mais total e mais irreversível da China. Salva-se o apelo a uma maior eficiência energética, onde cada unidade de energia no consumo, evita a produção de três unidades de energia primária na produção. De resto, estamos em pleno reino da fantasia e do politicamente correto, que nos trouxe até à atual tragédia.

Com os preços mais altos de energia do Mundo, sejam em combustíveis líquidos, pela enorme punção fiscal a que são sujeitos, seja na eletricidade ou no gás natural, a Europa, gigante económico com pés energéticos de barro, tem que fazer algo de drástico e eficaz para alterar esta situação, que ameaça a sua competitividade industrial e o nível de vida dos seus cidadãos. Mas não seguramente o que consta da proposta da Comissão, em que esperemos que o bom senso do Parlamento e do Conselho Europeu, coloquem no bom caminho. Essa situação vem já de trás, não deriva da guerra da Ucrânia, mas foi muito agravada pelo conflito que estamos a assistir. 

A política europeia de energia formatou-se muito condicionada pela agenda climática, uma vez que a União pretendeu assumir um papel de liderança no combate climático, e sobretudo na chamada economia “verde” a que iria dar origem. 
Aquele que é hoje o maior poluidor do globo, a China, domina largamente todas as tecnologias ditas “verdes”, com a maior potência instalada em fotovoltaica e eólica, baterias e carros elétricos. Tem já 33 centrais nucleares e está a construir 21, destinadas no futuro a substituir as centrais a carvão. Tem planeadas e propostas mais 178! 

Quer isto dizer que apesar dos sacrifícios impostos à economia europeia, a liderança da “economia verde”, e das matérias-primas de que necessitam, está nas mãos dos que mais poluem. A abordagem ideológica e dogmática foi suplantada pela abordagem pragmática.

A política voluntarista da “Energiewende” que inspirou e condicionou a política europeia de energia (e a nossa), revelou-se um enorme fracasso, tal como denunciava o “Economist” em 2015 e o Tribunal de Contas alemão no ano passado. 600 mil milhões de euros desperdiçados em subsídios, têm como resultado as emissões 6 vezes superiores às da França ou às da Suécia.

Isto deve-se à intermitência e falta de densidade energética das energias renováveis, que não têm atualmente tecnologia eficaz para as resolver, e que esse fato empurrou o sistema elétrico alemão e europeu, para uma dependência crescente do gás natural russo e para os custos mais elevados do Mundo, à medida que a potência firme vai cedendo lugar a potência intermitente nos sistemas elétricos. 

O hidrogénio verde é uma fuga para a frente para tentar sair deste impasse e usá-lo como forma de armazenar os inevitáveis excedentes, quando se ultrapassa a “barreira do som” das percentagens críticas de injeção de energias intermitentes nos sistemas elétricos, que correspondem em termos gerais à potencia de consumo no vazio, porque criam necessariamente nas horas de produção plena excedentes. Ora o hidrogénio é uma molécula perigosa, de transporte e armazenagem complexa e de produção ainda muito cara, que exige mais energia para ser produzida do que aquela que vai proporcionar ao consumo. 

Estamos de novo no experimentalismo que nos conduzirá a mais elefantes brancos e mais ineficiências, enquanto os nossos concorrentes, beneficiando dos nossos erros, vão tomando conta, uma a uma, das tecnologias críticas para o nosso desenvolvimento futuro. E controlando as matérias-primas necessárias para as produzir. Mantendo os seus custos baixos e a sua estrutura produtiva competitiva. Tudo porque recusamos ideologicamente e sem base científica, duas tecnologias provadas, seguras e competitivas: A energia nuclear e a fracturação hidráulica (“fracking”). Como recusámos os biocombustíveis. 

Sendo que a energia nuclear é a única eficaz para satisfazer a base do diagrama (“baseload”), que conjugada com a eficiência energética e renováveis, poderá diminuir de forma drástica e rápida as emissões, aumentar a nossa segurança de abastecimento e diminuir os custos do sistema energético. Com um registo histórico de segurança muito superior a qualquer das outras formas de energia por unidade de energia produzida.

Como mostram os exemplos da França, Suécia, Suíça e Finlândia, esses sim exemplos a copiar, e mostram pela negativa a Alemanha, a Dinamarca e Espanha, esses a evitar. Veremos como irão responder os responsáveis políticos a esta mudança necessária e urgente de rumo e de política. Se olham de frente os fatos, ou se se deixam de novo condicionar pelo politicamente correto, mas tecnicamente incorreto.

Ou se por mantermos um sistema político baseado em listas de deputados fiéis e escolhidos pelas direções partidárias, e não pelos respetivos eleitores locais, se coíbem de pensar pelas suas cabeças estas realidades, e alinham pelo diktat do respetivo chefe.

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