07/07/2022
 
 
Afonso de Melo 16/06/2022
Afonso de Melo

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A Estátua dos Olivais

Sempre fui da noite, sempre fui de chegar tarde a casa, tantas vezes já com o sol alto. Este cheiro devolve-me ao tempo em que voltava com o Francisco Febrero (por extenso Xitó) e o Rui Laires das idas ao Campo Grande, à 2000, ou ao Hexágono, perto da Casa da Moeda,

Quando, pela madrugada, chego a casa dos meus pais, na Avenida Cidade de Luanda, nos Olivais Sul, as flores das tílias marcam o cheiro da noite e um sem fim de memórias espalha-se-me pelo que penso. Sempre fui da noite, sempre fui de chegar tarde a casa, tantas vezes já com o sol alto. Este cheiro devolve-me ao tempo em que voltava com o Francisco Febrero (por extenso Xitó) e o Rui Laires das idas ao Campo Grande, à 2000, ou ao Hexágono, perto da Casa da Moeda, a que nós chamávamos Os Russos e onde pela primeira vez nos foi autorizado pagar as contas no final da semana. Ou quando regressava do Bairro Alto, ainda no tempo em que, por entre as casas de fado, só havia o Café Concerto, um dos primeiros bares com música ao vivo, aqui mesmo na Rua do Norte, onde escrevo no meu canto do lado esquerdo do restaurante Calcutá, minha Índia em Lisboa, e uma discoteca escura, com escadas inclinadas, que se chamava Juke Box. Nessa altura eu e o Paulo Pimenta (por extenso Gelateiro) éramos tão irmãos da noite como um do outro. Ainda tenho coisas para lhe dizer, para falar com ele, mas tenho de esperar que haja uma vida depois da morte na qual nos possamos encontrar numa esplanada a apanhar sol e a beber umas cervejas  (cerveja para mim é sempre plural). Não sei quem foi o génio que inventou a Estátua dos Olivais, mas para nós, dos Olivais Sul, era um escape um tudo nada grotesco, mas inevitável. O infeliz condutor vinha ao volante, procurando orientar-se por entre ruas e  pracetas com nomes de cidades das colónias, caía na asneira de parar e perguntar a qualquer um de nós o destino com que ansiava, e ouvia a resposta de sempre: “Siga sempre em frente, contorne a Estátua dos Olivais, e depois à esquerda (ou à direita, ou em frente, conforme os gostos)”. Nunca mais dava com ela porque simplesmente não existia. E também não me lembro de alguém nos perguntar: “Sabe como se vai para a Estátua dos Olivais”. Talvez isso fizesse aquilo que é impossível fazer a um gajo dos Olivais Sul: deixá-lo sem resposta.  

 

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