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Do recato militar ao espaço mediático

Do recato militar ao espaço mediático

Sónia Leal Martins 09/06/2022 09:36

A verdade será sempre a verdade, e devemos respeitar quem pensa diferente, porque o respeito que se deve a quem pensa diferente é uma das bases da democracia e um dos princípios das sociedades abertas.

A invasão da Rússia à Ucrânia colocou no espaço mediático vários especialistas na área militar que todos os dias se deslocam aos diversos canais televisivos para dar a sua opinião sobre o que se passa no teatro de operações.

De um momento para o outro, devido ao conflito militar que assola o território europeu, Portugal redescobriu estes especialistas na área das relações internacionais (alguns deles civis que pouco sabem do assunto), tal como no início da pandemia, tinha acontecido com os especialistas em Saúde Pública.

De entre os especialistas militares que têm partilhado a sua visão dos factos ocorridos na Ucrânia, alguns têm sido sistematicamente acusados de terem posições pró-russas, de entre os visados, estão principalmente três Generais portugueses, o Major-general Raúl Cunha, o Major-general Carlos Branco e o Major-general Agostinho Costa que perante tais acusações respondem que fazem comentários neutrais com base na doutrina militar e geoestratégica.

Ora, sobre esta matéria parece pertinente fazer duas considerações. A primeira prende-se com a leitura que os distintos generais fazem acerca dos motivos que levaram a Rússia a invadir a Ucrânia. Argumentam eles, por um lado, que a Rússia foi praticamente “obrigada” a agir, porque se sentia encurralada devido aos sucessivos alargamentos da NATO a Leste, e por outro, que a Ucrânia não cumpriu os Acordos de Minsk.

A segunda consideração é sobre as opiniões que os Generais têm sobre as ações militares propriamente ditas, ou seja, a estratégia militar seguida e os avanços e recuos que a guerra tem tido.

Considero que a interpretação que os Generais têm dos motivos que levaram à invasão da Rússia à Ucrânia, não são totalmente corretas, é certo que a Ucrânia vinha tornando público a vontade de aderir à NATO, no entanto, esta organização manifestou diversas vezes que esta era uma questão que não estava em cima da mesa.

Mais, só após a invasão, dois Países vizinhos da Rússia, que se tinham mantido neutrais até então – a Suécia e a Finlândia – por se sentirem ameaçadas militarmente pela Rússia, mostraram-se interessadas em aderir à NATO, estando neste momento o processo de adesão em curso.

No que toca aos Acordos de Minsk, os Generais têm razão. A Ucrânia não os cumpriu. Poderemos discutir se os Acordos eram justos ou não para a Ucrânia, mas o que é certo é que foram assinados e não foram cumpridos. Será que os incumprimentos desses Acordos justificam a invasão? A resposta é clara, Não!

A invasão de um País soberano, nestas circunstâncias, é sempre condenável e injustificável. Era na mesa de negociações, usando a diplomacia, que os problemas se deveriam ter resolvido, aliás, a resolução desta guerra, terá de ser feita desta forma, quando se sentarem à mesa Joe Biden e Vladimir Putin.

No plano das operações militares os Generais estão corretos. Num primeiro momento a estratégia russa fracassou e os russos foram obrigados a recuar em algumas regiões e a deslocarem todas as suas Forças para o Donbass. O que temos assistido nas últimas semanas é ao avanço das tropas russas neste território, o que levou o Presidente ucraniano a afirmar que a situação no Donbass é muito difícil.

Não são os três Generais que o dizem, é o próprio Presidente ucraniano. É um facto, podemos gostar ou não, mas é a verdade, resulta de uma análise puramente militar, e não de opiniões meramente pessoais.

Quando se está no papel de comentador, por mais conhecimentos que se tenha sobre o assunto em apreciação, ninguém consegue distanciar-se totalmente daquilo que são as suas ideias, sejam elas políticas ou religiosas. No entanto, independentemente das preferências de cada um, os factos serão sempre factos. A verdade será sempre a verdade, e devemos respeitar quem pensa diferente, porque o respeito que se deve a quem pensa diferente é uma das bases da democracia e um dos princípios das sociedades abertas.

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