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Espanha-Portugal. Os gloriosos triunfos que foram pia abaixo (II)

Espanha-Portugal. Os gloriosos triunfos que foram pia abaixo (II)

Afonso de Melo 02/06/2022 16:54

Mais marcante do que a segunda vitória sobre a Espanha (que a FIFA também não reconheceu) foi a rebeldia de Mariano Amaro, Simões, Azevedo e Quaresma, que se recusaram a fazer a saudação fascista.

Depois da vitória em Vigo, por 2-1, no dia 28 de Novembro de 1937, num ambiente de esfusiante alegria no qual se destacaram as figuras de António Oliveira Salazar e Francisco Franco (embora ausentes tinham as suas caras expostas em dois enorms cartazes num dos topos do estádio), Portugal tinha dois jogos agendados para Lisboa no ano de 1938 - a 9 de Janeiro, frente à Hungria (4-0) e no fim do mês, dia 30, face à Espanha. Para a FIFA, a selecção espanhola não existia - por causa da Guerra Civil, havia duas federações reclamando o direito de representarem o país. A Fúria que veio a Portugal representava, por isso, só a facção nacionalista do Generalíssimo.

Portugal voltou a aproveitar a fragilidade de um adversário sem jogadores bascos, catalães ou asturianos, por exemplo. E venceu por 1-0, com golo de Pinga, o Artur de Sousa, madeirense do FC_Porto. Como sucedera com a vitória de Vigo, a imprensa nacional não ligou qualquer importância ao facto de, na verdade, o jogo não valer. Para nós valia! Vencer a Espanha não estava nos nossos hábitos e, depois de dez derrotas consecutivas, era a altura ideal para ir tentando equilibrar as contas.

Mas algo iria acontecer que serviria para estragar a festa e deixar os chefes do Estado_Novo bastante incomodados.

Tinham-se estreado em Vigo três jovens jogadores de brilhante futuro: o guarda-redes Azevedo, do Sporting, e os belenenses Mariano Amaro e Manuel Quaresma.  Azevedo viria a ser o keeper da famosa equipa do Sporting que contou com os Cinco Violinos na linha de ataque. Quaresma viria a ser um dos campeões do Belenenses de 1946: driblador exímio, ficou conhecido pela sua habilidade e pelo seu repentismo. Mas Amaro foi, seguramente, a maior figura humana de todos eles.  Vítor Santos, chefe de Redacção da A Bola, chamou-lhe Einstein do Futebol por causa do seu génio inato para a resolução dos problemas que os jogos lhe iam colocando. Muito rápido na forma como se antecipava aos adversários para lhes roubar a bola, partia de imediato para o ataque, sempre à procura de alguém a quem dirigir os seus passes certeiros ou de um espaço para aplicar o seu pontapé fulminante. Boémio famoso na Lisboa da década de 40, foi perseguido pela polícia política graças às suas ideias de esquerda que nunca abandonou, nem na velhice, quando se dedicou às lutas sindicais.

 

A saudação!

Todos estes três jogadores - aos quais se juntou Simões, do Belenenses - ficaram ligados a um dos acontecimentos marcantes da história da nossa selecção. No momento de cumprimentarem o público com a saudação fascista, Azevedo esticou o braço mas manteve os dedos encolhidos, Quaresma limitou-se a ficar em sentido e José Simões e Mariano Amaro levantaram os punhos. Os jornais dos dias seguintes procuraram não tocar no assunto, a revista Stadium chegou mesmo a retocar a fotografia das equipas alinhadas de forma a que nada se notasse. Mas nenhum deles escapou às incómodas perguntas da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), tendo José Simões e Mariano Amaro sido mesmo presos para interrogatório. Uma exibição pública de coragem e de convicção que marcava a sua personalidade e uma certa identidade desse Belenenses campeão oito anos depois.

Agora, que o tempo já passou, e as duas primeiras vitórias sobre a Espanha, com a qual voltamos a jogar hoje, em Sevilha, entraram para os arquivos da memória, percebemos que a atitude dos quatro jogadores, concertada ou não, revelou uma coragem e uma dignidade que não bateu certo com o facto de sermos a única selecção da Europa a aceitar defrontar uma Espanha nacionalista, desprezada por via da sangrenta guerra que matou mais de meio milhão de pessoas. Azevedo, Amaro, Simões e Quaresma foram protagonistas de um momento que o futebol não devia deixar esquecer.

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