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24 de Maio de 1934. Andavam a esculhambar a estátua do Marquês

24 de Maio de 1934. Andavam a esculhambar a estátua do Marquês

Afonso de Melo 24/05/2022 13:42

Sebastião José nunca caíra em tão grande desgraça. Nos jornais, deitava-se o monumento abaixo, um taberneiro lembrou-se de usar a estátua para dependurar cartazes a anunciar as zurrapas que vendia. Até um bonequito de mau gosto punha o Marquês a pedir: “Vai-me comprar um marujinho...”.

Pobre Marquês! Desde que que fora transformado em estátua, mais o respectivo leão, nunca for tão esculhambado pela população lisboeta. Uma total falta de respeito não apenas pelo monumento mas também pela pessoa nele retratado. Uma vergonha! Parecia não haver um único habitante da velha capital do_Império que não aproveitasse a onda para encher páginas de jornais com opiniões insultuosas sobre a estátua que dominava a Baixa, desde lá do alto da rotunda. Uns deitavam por terra a farpela do bom Sebastião de Carvalho e Melo (cuja bondade tinha muito que se lhe diga, mas enfim...), considerando que os trajes que envergavam eram, no mínimo, ridículos. Outros marravam de frente contra os símbolos com que o haviam feito rodear, a começar pelo leão que achavam de um tamanho desmesurado. Para cúmulo do desrespeito, um taberneiro de má fama, com estabelecimento aberto na Rua do Arsenal, lembrou-se que a estátua do Marquês seria o lugar ideal para lhe espetar umas bandarilhas, passe a comparação. Agarrou numa série de panos grossos, dependurou-os nos vincos do monumento e deixou bem à vista de todos os passantes as marcas das bebidas com que envenenava os clientes lá no seu tugúrio. “Mas que falta de respeito total!”, bradaram aqueles que sempre foram mais extremosos em relação aos símbolos nacionais. Além disso, o vendedor de zurrapas, tinha lá na sua lojeca ordinária, à venda uns bonecos de plástico a imitarem como podiam o Marquês de Pombal e que, se lhes carregassem na cabeça, soltavam com uma voz casquinada: “Oh pá, chega-me ali ao Abel para comprar um marujinho...” Chiça, que era de escacha. Ora agora o Marquês de Pombal, com toda aquela pompa, a gostar de marujinhos??? Mas já não havia limites à decência, ou quê?

Bem, muitos estavam mesmo com a pachorra pelos limites. Primeiro tinha sido uma marca de pomadas a dar a si própria o nome de Marquês de Pombal; depois tinha sido uma manteiga, com sal e sem sal, a ser vendida em pacotes com o mesmo nome e com o desenho do monumento no papel sebento.

Começaram-se a erguer as vozes ofendidas. Sebastião_José não era nenhum labrego, valha-nos Deus! Afinal fora o reconstrutor da Lisboa moderna, após o terramoto, e governara o país com determinação, algo que não podia ser obliterado da memória colectiva. Andar a avacalhar a figura era o mesmo que andar a avacalhar a História de Portugal. E, por isso, ninguém se espantou quando a polícia começou a dar caça aos abusadores.

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