29/06/2022
 
 
Paulo Espínola. "Dá a sensação de que não queriam receber refugiados porque eram sírios ou iraquianos"

Paulo Espínola. "Dá a sensação de que não queriam receber refugiados porque eram sírios ou iraquianos"

Maria Moreira Rato 23/05/2022 14:41

O doutorando em Geografia Humana e investigador do CEGOT avaliou as políticas de integração de imigrantes e refugiados em Lisboa e nos Açores.

Avaliar as políticas de integração de migrantes não comunitários e refugiados de 7 países europeus, incluindo Portugal, foi o objetivo principal de um estudo que colocou os Açores e Lisboa como regiões com um grau avançado em termos do modelo de integração regional. A Universidade de Coimbra (UC) participou no mesmo e, deste, resultou o primeiro Índice de Políticas de Integração de Migrantes (MIPEX) para Regiões, conhecido também por MIPEX-R.

Este estudo foi conduzido, em Portugal, por Paulo Espínola, do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território da UC. Das 25 regiões estudadas, sabe-se que 12 foram classificadas com um grau avançado em termos do modelo de integração regional, como Lisboa e Açores, enquanto quatro se encontravam numa fase intermédia e nove com atraso. O Regions for Migrants and Refugees Integration, projeto que arrancou no início da pandemia e termina agora, teve por meta a inclusão da integração de migrantes e refugiados nas políticas de coesão social ao nível regional.

Como Lisboa não tem Governo Regional, Paulo Espínola – licenciado, mestre e doutorando em Geografia pela UC – teve como referência a atuação da Câmara Municipal de Lisboa e, no caso dos Açores, a do Governo_Regional, fazendo recomendações como a criação de um website, uma aplicação móvel e um documento impresso que constituem o guia de boas-vindas para os imigrantes.

Mestre em Geografia Humana com a tese “A Emigração na Ilha Graciosa” e prestes a entregar “A imigração estrangeira em espaços insulares de baixa densidade – Impactos territoriais nos arquipélagos ultraperiféricos europeus: estudo de casos nos Açores e nas Canárias”, para alcançar o grau de doutor na mesma área, o investigador reflete acerca da forma como a Europa e, especificamente, Portugal têm lidado tanto com o fluxo migratório como com a crise de refugiados que teve início em 2015, fazendo igualmente um périplo pela invasão da Ucrânia pela Rússia.

 

Como começou a conduzir o Índice de Políticas de Integração de Migrantes (MIPEX) para Regiões, designado MIPEX-R, em Portugal?

O primeiro incluiu apenas os países da União Europeia (UE) – e não regiões em específico – e é de 2004. Portanto, entre esse ano e 2020, houve cinco edições e a classificação dos Açores e de Lisboa segue a tendência nacional: nos quatro primeiros, Portugal posicionou-se em segundo lugar independentemente de ter ocorrido um aumento do número de países. Atualmente, é uma ferramenta que procura avaliar as políticas de integração de migrantes não comunitários e refugiados em 25 regiões de 7 países europeus.

Há algum país, além do nosso, que se tenha destacado pela positiva?

Em primeiro lugar, também estava quase sempre a Suécia. Em 2020, Portugal foi ultrapassado pela Finlândia e fiquei um pouco triste. Tudo isto foi discutido na Conferência das Regiões Periféricas Marítimas da Europa e as últimas edições foram preparadas pelo Migration Policy Group (MPG) e pelo Barcelona Centre for International Affairs (CIDOB): tudo isto partiu de uma equipa de investigadores, foi uma tentativa de perceber como é que os países da UE e, depois, as regiões, estavam a lidar com o aumento do fluxo migratório. É aqui que surge um problema para Portugal: quando me pediram a segunda região, porque Lisboa não estava incluída no início, eu não aconselhei a capital. Foi o CIDOB que insistiu e eu percebi o motivo: queriam uma região totalmente contrastante com os Açores, ao nível dos valores, das políticas e tudo mais para entender as diferenças entre uma fase muito mais consolidada de desenvolvimento – vivem mais de 200 mil imigrantes em Lisboa – e uma menos avançada – nos Açores, creio que vivem pouco mais de 2 mil. Mas os Açores sempre estiveram bastante mais associados à emigração do que ao oposto.

Como foram escolhidas as regiões?

Temos de dividir este projeto em seis regiões-piloto: eram apenas os Açores, Múrcia e Catalunha (Espanha), Puglia e Campania (em Itália) e Escânia (Suécia). Era necessária a colaboração dos governos regionais e, numa primeira fase, estes tiveram de indicar um investigador independente, especialista em migrações: a minha tese de doutoramento inclui os Açores, e também as Canárias, por isso, há um motivo para ter sido escolhido. Além disso, nenhum de nós pode estar ligado ao governo. O Governo Regional dos Açores contactou-me, o MPG e o CIDOB viram o meu CV e aceitaram-no. O MIPEX mede as políticas de integração e, neste caso, a regional: a ferramenta que se desenvolve é um questionário de políticas públicas gigantesco, com mais de 200 perguntas. O Estado, normalmente, tem de prestar contas a entidades como o Eurostat e tem dados estatísticos, sobre imigrantes, bem desenvolvidos.

Então, quais eram as lacunas?

Fiquei responsável por completar o questionário arranjando sempre provas: por exemplo, havia oito perguntas acerca de competências formais da região e eu não tinha de consultar ninguém. A questão é que precisava de ir verificar tudo à Constituição, imaginemos. Também podia ir à legislação, mas sempre a regional. Na maior parte das vezes, coloquei as questões a várias repartições da região autónoma, responderam e cruzava tudo.

Mas também colaborou com organizações não-governamentais e stakeholders como associações de imigrantes.

Sim, todos os órgãos direta e indiretamente ligados aos imigrantes. Alguns enviavam-me as respostas, assinalavam-nas com uma cruz e eu tinha de comprovar. Vamos supor que eles diziam que havia professores que sabiam língua x e y para integrarem os alunos imigrantes nas escolas: não bastava dizer, tinha de ser corroborado. Essa informação, posteriormente, passava a um nível superior da UE e, se tivessem dúvidas, eu sabia. Em três ou quatro indicadores, tive obstáculos. No início, foi complicado porque não sabíamos aquilo que se podia aceitar ou não.

Quando é que entrou no projeto?

Precisamente no início da pandemia. Lembramo-nos daquilo que aconteceu em março de 2020: teria de participar em reuniões presenciais e não me sentia confortável e, por esse motivo, ponderei não me juntar aos meus colegas. Suspenderam as reuniões presenciais, em Barcelona, e estivemos quase sempre reunidos no Zoom. Durante a primeira fase, o questionário foi mudando: por exemplo, os coordenadores da Suécia diziam que x pergunta só fazia sentido para Portugal e Espanha, os de Itália achavam que y pergunta não se encaixava no questionário deles porque nada daquilo se fazia no país... Teve de haver adaptação, jogo de cintura para chegar a um consenso. Conseguimos conciliar tudo e, depois de uns quantos ajustes, chegámos a 61 indicadores de áreas distintas nomeadamente competências formais das regiões, coordenação e implementação da política de integração, utilização dos fundos nacionais e comunitários na política de integração e coordenação com as ONGs e os stakeholders. Simultaneamente, fizemos outro questionário com 57 perguntas de cariz mais estatístico.

Pode exemplificar?

Ficaram muito surpreendidos por os Açores não recorrerem a fundos europeus, esse ponto é curioso. No final, as políticas de integração, tanto de Lisboa como dos Açores foram classificadas como ligeiramente desenvolvidas. Ou seja, fazem parte do grupo mais avançado e Lisboa teve maior pontuação global. O máximo é 100, mas nenhuma região, das 25, esteve acima dos 80. Há uma diferença significativa entre as duas portuguesas, mas ficaram bem posicionadas.

Quais são os pontos mais fortes de Lisboa?

São, definitivamente, a formulação e implementação das políticas de integração e o desenvolvimento de relações com os atores envolvidos. Sabe-se que a política dirigida aos refugiados está mais desenvolvida do que a dos imigrantes não comunitários. São poucos, mas ficam quase todos em Lisboa e em Setúbal. Há uma grande procura pelos recursos europeus. Relativamente à intervenção, atingiu a pontuação máxima no âmbito da estratégia para a cultura e religião.

E quais são os pontos mais fracos que detetou?

É necessário melhorar o apoio à integração dos imigrantes nas escolas e, acima de tudo, promover campanhas preventivas com foco na anti-discriminação.

Como é que avaliaram os Açores?

Compreendemos que a estratégia para os imigrantes está mais desenvolvida do que a dos refugiados. Mas é normal: enquanto desenvolvemos o estudo, vivia apenas um refugiado lá. Nem sequer sabíamos o que o tinha levado a escolher o arquipélago. Quando precisamos de falar com somente uma pessoa, é fácil identificá-la e contactá-la: o mesmo não acontece com dezenas, centenas ou milhares. Por outro lado, os Açores também têm um bom nível de produção de políticas e são fortes nas áreas de integração da cultura, religião e anti-discriminação. Só que não se verifica o mesmo em relação à implementação e avaliação das políticas, tal como ao nível fraco de utilização de recursos comunitários e nacionais. Achamos que urge tomar medidas ao nível do apoio dado aos imigrantes em termos de habitação e das suas línguas maternas.

Quais foram as principais diferenças destacadas entre as duas?

Neste projeto, o Regions for Migrants and Refugees Integration (REGIN) as políticas regionais eram extremamente valorizadas. Como a legislação que saía da assembleia regional. Se uma assembleia regional tem um grande nível de produção de políticas de migração, é porque tem interesse. A questão é que metade da produção pode não ser muito útil: e atenção que não estou a insinuar que foi isso que aconteceu. Também foi avaliada a implementação das medidas: por vezes, o governo produz uma lei e, na prática, nunca é aplicada.

Quando começou a estudar os Açores, existia apenas um refugiado. E nos anos anteriores?

Apenas ele. Os Açores até foram penalizados porque não há forma de entender a integração de refugiados se existe somente um. Desde a crise do Mediterrâneo, de 2015, a verdade é que Portugal aumentou para 5 mil vagas. E não foram preenchidas em nenhum ano! Parece-me que muitos passavam a imigrantes, já não tinham o estatuto de refugiados, ou abandonaram o país. Quando surgia uma vaga na Alemanha ou em França, imaginemos, era provável que se mudassem para lá devido à mobilidade que está facilitada na UE. Perguntaram-me o motivo pelo qual existia um refugiado nos Açores e eu disse que se Portugal oferece 5 mil vagas e nunca são preenchidas, é normal que se nem no Continente se fixam, não será nos Açores que existirão muitos. Há uma política de fixar refugiados em locais no Interior, como Castelo Branco, Guarda ou Coimbra, mas eles querem residir em Lisboa por uma razão simples.

Qual?

Pode parecer estranho, mas ficam perto do aeroporto. E, assim, se tiverem planos de se mudarem para outro país, estão na capital, com todos os recursos disponíveis. Já nos Açores, aquele único refugiado nunca quis sair de lá.

Teve oportunidade de conversar

com ele?

Nós, os coordenadores, nunca falámos diretamente com os imigrantes e refugiados. Não podíamos ter contacto com eles porque estávamos a avaliar os poderes públicos. Entendo que as pessoas queiram saber isso porque se pode pensar: “Então, mas quem consegue avaliar as políticas são eles”. E é verdade, por isso é que se termina com a avaliação das políticas e os Açores foram castigados como eu referi há pouco: não havia forma de medir a satisfação dos imigrantes. Temos de ouvir as duas partes, mas o Governo Regional não tinha nenhuma maneira de entender este indicador.

Os indicadores são percecionados através de dois alvos principais.

Sim, os imigrantes e os beneficiários de proteção internacional, isto é, refugiados. Medimos a integração em áreas como o trabalho, educação, cultura, religião, segurança social, assistência, apoio à habitação, etc. Há perguntas sobre as quais eu próprio tive dúvidas: por exemplo, os indicadores sobre a língua materna são de uma exigência brutal. Lisboa tem por volta de 140-150 nacionalidades e dá a ideia de que tem de se apoiar todas as línguas: concordo, mas é muito complicado. E na capital ainda se pode tentar fazer, mas e em regiões como os Açores? Há recursos humanos para comunicar em ucraniano, suponhamos? De um refugiado, passaram para mais de 100, de acordo com os últimos dados que consultei: há nove ilhas e os refugiados ucranianos instalaram-se em sete das mesmas. Em algumas delas, vivia apenas um que, por sua vez, recebeu dois, três, quatro... familiares ou amigos.

Após o questionário, quais foram os passos dados?

Fiquei responsável por fazer a primeira análise, sendo que o tratamento dos dados esteve a cargo do CIDOB. A partir daí, tive de elaborar um relatório em que fazia recomendações ao governo regional: surgiu uma reunião final, que aconteceu em setembro do ano passado, em que estive eu, dois representantes do governo açoriano e o CIDOB. Foi complexo porque o governo mudou e as pessoas, por mais competentes que sejam, não estão inteiradas de tudo quando iniciam um mandato. Mas acabou por correr tudo bem! Uma das recomendações que fiz foi simplesmente sugerir que elaborem mais projetos para conseguirem fundos europeus e parece-me que é fácil. Com esta e outras, tinham de apresentar propostas de alteração ou aceitar. Houve mais reuniões e as medidas implementadas foram a criação de um website, de uma aplicação móvel e de um documento impresso como guia de boas-vindas para os imigrantes. O objetivo é que este conjunto de ferramentas forneça, de forma direta e organizada, todas as informações sobre o processo de integração. Permitem igualmente que os imigrantes sejam notificados sobre prazos de inscrição e possibilidade de preencher formulários e colocar questões sobre dúvidas que se levantem.

Não se reuniram com representantes de Lisboa?

Não, colaborei com a Sandra Silva, investigadora do Centro de Estudos Geográficos (CEG) da Universidade de Lisboa. A região tinha todos os planos desenvolvidos, estava lá tudo, enquanto nos Açores existia tudo mas estava disperso: a lei tal, o projeto tal, informações num documento, outras num link que não se encontrava facilmente... Existia a política, mas faltava coordená-la num único documento, aplicação ou site. Estamos no séc. XXI e está tudo informatizado, mas não nos podemos esquecer de imigrantes, como aqueles que são originários de regiões como a África Subsariana, que não estão propriamente familiarizados com as novas tecnologias. A vantagem do REGIN é que existe um laboratório de ideias e se as regiões tiverem dificuldades em formalizar um projeto e/ou apoio, podem pedir ajuda a um conjunto de especialistas do mais alto nível. Só por aí, acho que é uma enorme mais-valia. Embora existissem apenas 2196 imigrantes e 1 refugiado na altura, são seres humanos e têm de ser bem tratados nos Açores. Não é que fossem maltratados, atenção, estava era tudo muito disperso. Aquilo que também notei no arquipélago é que havia pouco envolvimento das autarquias: era tudo a nível regional, protocolos regionais e... Houve uma parte que teve de ser corrigida.

Como assim?

Tinham uma participação ativa no Conselho Português para os Refugiados e no Alto Comissariado para as Migrações, mas não produziam nada. Entende-se porque tinham somente um refugiado. Aquilo que ficou decidido é que o governo ia envolver mais as câmaras municipais e as juntas de freguesia e está prevista a formação em diversidade cultural para professores e profissionais de saúde. Uma parte que não está muito má é o acesso à saúde, mas colocámos questões como “O rececionista fala inglês?”. As medidas iniciais foram estas, têm é de ser desenvolvidas.

E como é que o governo reagiu quando consultou o relatório que elaborou?

Ficou surpreendido porque fiz um diagnóstico e apontei tudo. Um dos membros não ficou muito agradado, mas lembrei sempre o motivo pelo qual era um convidado independente. Os políticos, por vezes, trocam as coisas e eu entendo a mensagem política: “Se os Açores são bem classificados, o governo atual está muito bem”. As coisas não são assim porque avaliamos o desempenho do governo anterior e o ano de referência é o de 2019. E eles não tiveram a perceção de que não estávamos a falar daquilo que levavam a cabo. Contudo, não houve problemas, só acharam que tinha sido “demasiado independente”.

E notou que o seu trabalho já deu frutos?

Fiquei feliz quando percebi, em março, que o vice-presidente do governo regional, Artur Lima, anunciou que a região estaria preparada para receber entre 250 e 500 refugiados ucranianos de imediato. Não quero insinuar que tive muita importância, mas os Açores sabem que não conseguem subir muito no próximo REGIN se continuarem com um refugiado. O MIPEX veio sensibilizar o governo para a importância de acolher refugiados. Em Portugal, é difícil contabilizar os refugiados.

Ainda há um mês, o i deu a conhecer que a alegada escravatura de 200 moldavos em Serpa havia sido denunciada ao Ministério Público. Com problemáticas como a agricultura sazonal, não se dá conta de quantas pessoas estão efetivamente em solo português?

Mas alguém deve saber quantas são. Por exemplo, ao longo destes dois anos, o governo regional dos Açores deu-me dados sobre os imigrantes e os refugiados. Quando foi a vez de recolher informação sobre Lisboa, contactei o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), o ACM, o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE)... Tudo o que teoricamente estaria relacionado com imigração. A questão era a seguinte: a informação era sempre aproximada. Eu e a Sandra necessitávamos do número exato de refugiados que estavam em Lisboa e essas entidades, que geralmente deviam ter ou têm – e não podem divulgar –, não avançaram com os mesmos. Pensámos que o melhor poderia ser contactar as câmaras municipais e tivemos indicações de outros especialistas no sentido de como podíamos calcular os valores aproximados. Basicamente, aqueles que apresentamos para Lisboa são uma estimativa, mas que não falhou muito. É difícil estudar os refugiados porque estão muito protegidos, mas talvez a proteção seja também uma forma de integração.

Será que, por vezes, também convém não revelar os números reais?

Não sei, mas é estranho. Estamos a falar de um projeto internacional, de cariz europeu, e geralmente impõe um certo respeito. Mas compreendo: para além do surgimento da pandemia, ainda se iniciou a extinção do SEF. Eles queriam ajudar-me, encaminhavam as questões e os pedidos, mas estavam a ultrapassar uma fase de incerteza. E quando supostamente eu e a minha colega tínhamos terminado Lisboa, o CIDOB disse que precisava de mais dados porque, de outra forma, a região ficaria “muito despida” do ponto de vista estatístico.

E qual é o futuro do MIPEX?

A meta é alargar o projeto a mais regiões. O que é que acontece: a maioria dos países tem várias regiões e Portugal não. Se pensarmos, Lisboa tem mais do dobro dos imigrantes do Algarve, a diferença é que a área metropolitana tem 3 milhões de habitantes, enquanto o Algarve tem meio milhão. Tentei convencê-los, inicialmente, a escolher a Madeira em alternativa a Lisboa por ter assembleia regional com poder legislativo. Agora, digo: ainda bem que foi Lisboa!

Porquê?

Não estou a imaginar as câmaras municipais a conseguirem controlar tantos cidadãos estrangeiros. Lisboa correu bem, mas se me pedirem para analisar a região Centro, não me parece que Coimbra represente a Guarda e Castelo Branco. Possivelmente, Aveiro, Coimbra e Leiria. Sabe-se que há concelhos mais periféricos, em Lisboa, como Sesimbra, que não se enquadram bem na mancha urbana, mas a questão é que se formos para a margem Sul, ou para os arredores da margem Norte, entendemos que Lisboa realmente representa toda uma “região”. Eu não estou a apelar à regionalização, quero frisar isso: não tem nada a ver. A verdade é que, olhando para a UE, quase todos os países estão divididos por regiões.

Recuando até à invasão da Ucrânia pela Rússia, em comunicado, esclareceu que “foram já 6 milhões de ucranianos que, entretanto, deixaram o seu país em direção, sobretudo, à UE”, elucidando que “esta corrente poderá mudar a relação de Portugal com os refugiados, isto porque o nosso país não tem sido muito procurado por este tipo de migrantes forçados”.

Acho que vão chegar mais refugiados. Aqui aos Açores, estou à espera de que o número aumente. Agora, é o seguinte: esse contexto que referi tem a ver com a tal fase em que Portugal, por exemplo, dispõe as tais 5 mil vagas e elas não são preenchidas. E atualmente, por uma situação absolutamente lamentável, obviamente que tudo muda. Sabe-se que, numa guerra, as pessoas, em aflição, procuram ir para os países vizinhos. Geralmente, é assim que tudo acontece e é aquilo que se constata na Ucrânia. A UE funciona bem, embora haja países que não estão alinhados com os restantes, como a Hungria que teve o comportamento que teve na crise de 2015. Não quero recordar cenas tristes, mas lembro-me até de jornalistas pontapearem refugiados na fronteira. Tal como a Checoslováquia ou a Polónia. Dá a sensação de que, nessa época, não queriam receber refugiados porque eram sírios ou iraquianos.

A forma como estamos a receber e integrar os refugiados ucranianos tem sido debatida por ser diferente daquela como lidámos com aqueles de outras nacionalidades.

Tem a ver com o sentimento de injustiça que há: estamos a falar da invasão de um país. Mesmo tentando compreender, à luz da História, a questão da Crimeia, onde até havia uma espécie de paz podre, percebemos que as medidas tomadas não têm nada a ver com aquelas que são tomadas agora. Na Crimeia, grande parte da população era russófona. Há portugueses que ficam assustadíssimos quando imaginam a Rússia a chegar à Transnístria: conheço-a desde a rebeldia face a Quichinau e sempre quiseram pertencer à Rússia. São 600 mil habitantes que simpatizam com a União Soviética e é uma área curiosa do globo porque é a área através da qual entramos na URSS se a imaginarmos como era. Já ponderei lá ir para perceber como funciona. Se os russos chegassem lá, acho que a anexação seria totalmente pacífica, mas se avançassem para o resto da Moldávia, as coisas seriam distintas.

De que modo?

O grande perigo é se Putin quiser ligar Donbass à Crimeia: não aceito, mas acho que se compreende a ligação das duas áreas russófonas. Continua a ser inaceitável, todavia entende-se o objetivo. Agora, partir da Crimeia e chegar à Transnístria... Tem de se atravessar uma grande parte do território ucraniano e, lá está, ficaria uma “mini Ucrânia” cercada por russos. Algo que, claramente, não seria desejável. A guerra não está a avançar do modo como se julgava no início: acho que se pensava que, mais cedo ou mais tarde, o exército russo ocuparia as grandes cidades. O governo ucraniano não tinha condições e o apoio ocidental é muito importante: em 2020, a Ucrânia foi ultrapassada pela Moldávia em termos de PIB per capita. E isto é uma tragédia. A Bielorrússia tem um PIB per capita superior a estes dois países e eu não fazia ideia disto antes da guerra. Portanto, já algo não funcionava na Ucrânia antes da guerra e, talvez por isso, sem esta crise de refugiados, depois da Guerra Fria, os níveis da emigração fossem significativos.

Falando novamente da aceitação dos refugiados ucranianos, recebemos estas pessoas de forma diferente porque nos identificamos mais com elas do que com os refugiados sírios, afegãos, etc.?

Sim, e isto entra em contradição com a minha tese de doutoramento. Ausculto a população natural de cinco ilhas atlânticas: duas das Canárias e três dos Açores. Fiz entrevistas e questionários através dos quais tentava perceber a hierarquia das preferências em termos de relações sociais com grupos de imigrantes. Não fazia perguntas como “É ou não racista?”, foi tudo feito de forma mais “camuflada”, mas o que acontece é que um dos conjuntos que a população autóctone não integrava tão bem era o da Europa de Leste. Por dois motivos: muitos trabalhadores não falavam a língua, esse é um forte obstáculo, e como havia vários grupos, os imigrantes, preferencialmente, davam-se com aqueles do seu país ou das proximidades. Depois do conflito da Crimeia, conviviam bem com os russos que viviam no estrangeiro. Integraram o mesmo território durante tantos anos e pareceu-me que não havia assim uma rivalidade tremenda. É claro que, à medida que o conflito do Donbass foi avançando, deixou marcas. Por vezes, sendo sincera, não sabia se estava a falar com ucranianos de Donetsk ou de Lviv, imaginemos. Não tinha essa preocupação porque o meu objetivo não era esse, mas aquilo que notei foi: os autóctones, para trabalhar, até para serem amigos, preferiam os africanos. Os grupos mais rejeitados eram os dos asiáticos – esta comunidade fecha-se sobre si própria – e os da Europa de Leste.

Como é que foi essa experiência?

O trabalho de campo foi muito interessante porque havia imigrantes de todos os países. Se estivermos em Lisboa e precisarmos de entrevistar imigrantes nepaleses, e um ou dois disserem que não, está tudo bem porque encontramos mais. Em ilhas pequenas, se ficamos com o nome manchado ou não simpatizam connosco por alguma razão, telefonam uns aos outros e nenhum deles falam connosco. Para além disto, e apesar de não ter sido esse o meu foco, deparei com alguns imigrantes ilegais. Perguntavam-me se podiam revelar esse detalhe e eu confirmava, mas avisava-os de que não convinha andarem a dizer a toda a gente que não estavam legalizados. Lá está, não esperava encontrar imigrantes ilegais em determinadas ilhas.

Eram de que nacionalidades?

Não posso revelar por motivos de confidencialidade, tenho de preservar os dados dos inquiridos, mas há histórias interessantes. Por exemplo, uma senhora a quem não tinha sido dada autorização de residência vivia numa destas ilhas com o marido. Eram de nacionalidades diferentes e ele é que, depois de preencher o inquérito, me disse “Há aqui uma coisa que não está bem”. Ela decidiu ficar com ele e nunca mais se preocupou em tratar dos documentos. Noutro caso, travei amizade com um membro de uma comunidade e foi assim que consegui chegar aos outros imigrantes dessa nacionalidade. Aquilo que posso acrescentar é que é estranho, numa ilha, encontrar involuntariamente imigrantes ilegais e, noutra, indicarem-me quem são e nenhum deles querer falar comigo. Tive de delinear bem uma estratégia para estar em contacto com o máximo de comunidades possível.

Há alguma situação que tenha considerado peculiar?

Um casal, também imigrante, vivia num local, propositadamente, porque era o único que ainda não tinha rede. E explicaram-me que tinham ouvido dizer que a rede ia chegar lá. E, se chegasse, sairiam daquele local porque não queriam estar em contacto permanente com o mundo exterior. “Há rede a partir daquele sítio. Se precisar de falar com os meus filhos, vou lá”, dizia a senhora, que tinha os filhos e a restante família no país de origem. E também há situações perigosas porque há pessoas que decidem, deliberadamente, viver no meio do nada. O mais interessante é que têm recursos financeiros. Tanto que consta que, quando precisam de cuidados de saúde, são transportados de helicóptero para o país de origem porque têm seguros de saúde de valores elevados.

É um mito?

Não me surpreende que seja verdade, parece-me é que se querem isolar do mundo e preferem ficar em ilhas porque sabem que têm sossego. O sossego que procuram.

Entrevista corrigida às 13h do dia 25 de maio de 2022

Ler Mais

Os comentários estão desactivados.


×

Pesquise no i

×
 


Ver capa em alta resolução

iOnline