27/06/2022
 
 
EUA prometem apoiar Ucrânia até ser alcançada "derrota estratégica" da Rússia

EUA prometem apoiar Ucrânia até ser alcançada "derrota estratégica" da Rússia

AFP Diogo Vaz Pinto 23/05/2022 11:39

Depois de a Rússia ter obtido a sua maior conquista desde o início da invasão, ao assumir o controlo de Mariupol, a Ucrânia recebe um pacote de apoio gigantesco dos EUA e está em melhores condições do que nunca para suster novas investidas das tropas inimigas.

Um dia após o Presidente norte-americano, Joe Biden, ter assinado um pacote de apoio económico e militar gigantesco à Ucrânia, de 40 mil milhões de dólares (cerca de 38 mil milhões de euros), é cada vez mais improvável que o país se satisfaça com um mero acordo que promova a paz e permita a Vladimir Putin ter uma saída airosa para o conflito que provocou. Recorde-se que, na semana passada, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, se indignou com a forma como o seu homólogo francês, Emmanuel Macron, estava ainda a tentar assumir algum relevo no processo diplomático, sugerindo que as partes alcancem um acordo em que a Ucrânia pague a paz com a cedência das zonas do seu território que estão sob o controlo das tropas russas. “Queremos que o exército russo saia da nossa terra. Nós não estamos em solo russo”, disse Zelensky numa entrevista ao canal italiano RAI. “Não pagaremos com o nosso território qualquer ajuda para salvar a face de Putin.”

 

Guerra “será sangrenta”

Numa altura em que a guerra está prestes a entrar no quarto mês, as forças russas renovaram a investida contra uma cidade-chave na zona Leste da Ucrânia (Severodonetsk), o que sinaliza que os objetivos militares russos finalmente se alinharam com uma estratégia realista, admitindo que não há qualquer cenário em que o país vizinho venha a cair inteiramente sob a alçada do antigo mestre soviético. Assim, e depois de as tropas russas terem sido repelidas dos arredores de Kiev, e mais recentemente, da segunda maior cidade do país, Kharkiv, a menos que seja negociada uma solução diplomática, será de esperar que os próximos meses sejam caracterizados por uma guerra de atrito, numa altura em que nenhum dos lados parece capaz de fazer mais do que ganhos incrementais.

E se o conflito parece prestes a entrar num período de impasse, com a guerra limitada à região do Donbass, que Vladimir Putin ainda espera anexar, à semelhança do que fez, em 2014, com a Crimeia, os líderes europeus contentaram-se com um papel de figurantes, insistindo nos apelos a um cessar fogo, isto numa altura em que não é claro que tipo de acordo poderia constituir uma vitória, ou, pelo menos, um resultado aceitável do ponto de vista da Ucrânia. Ainda que tenha descrito como “extremamente difícil” a situação no Donbass, no discurso em que assinalou o terceiro aniversário desde a sua tomada de posse, Zelensky admitiu que a guerra “será sangrenta”, mas que os ucranianos irão definir os termos em que esta chegará ao fim. O líder ucraniano agradeceu também o apoio que irá certamente fortalecer a posição do país frente aos invasores, sendo aquele pacote aprovado pelo Congresso norte-americano um dos maiores esforços de assistência externa em décadas, e Zelensky vincou a importância de as suas forças estarem armadas de forma a abrir os portos e as linhas de transporte que foram bloqueadas pelas forças russas. Este corte das exportações de cereais e outros produtos agrícolas cruciais no suprimento alimentar de todo o mundo contribuiu para uma espiral de inflação global dos preços dos alimentos.

 

Rússia concentra-se no Leste

Com o pacote promulgado este sábado por Biden, ascende a 50 mil milhões de dólares (47 mil milhões de euros) o total dos fundos disponibilizados pelos EUA para garantir que a Ucrânia não fica desamparada perante a invasão russa, e, para que se tenha uma ideia da grandeza do valor em causa, o orçamento anual reportado oficialmente pela Rússia é de 65 mil milhões de dólares (62 mil milhões de euros), o que explica em grande medida a convicção de Zelensky de que nos próximos dias e semanas as forças sob o seu comando estarão em condições de rechaçar novas investidas russas.

Este domingo, enquanto as tropas invasoras prosseguiam os ataques de artilharia contra zonas residenciais no Leste, em mais um evidente sinal de desrespeito pela vida dos civis, as agências de notícias reportavam que 58 infra-estruturas civis tinham sido reduzidas a escombros, causando mortos e feridos. Segundo a agência EFE, na província do Donetsk “foram destruídos mais de 40 edifícios residenciais, uma escola, uma escola de música, um instituto, empresas e instalações críticas”. Entretanto, chegavam ainda relatos de que um grupo de tropas ucranianas entrincheiradas tinham sido capazes de suster as investidas por parte dos russos na tentativa de cercar Severodonetsk, vindos de quatro direções diferentes. Esta cidade é um dos principais redutos ucranianos na região do Donbass, que além de Lugansk, abrange ainda Donetsk. Depois de ser forçada a abrir mão de uma invasão generalizada, do país, a Rússia tem vindo a concentrar-se no Leste da Ucrânia, e a batalha por Severodonetsk tornou-se uma prioridade no esforço para capturar toda aquela região, tendo o exército destacado tropas e artilharia pesada que tinha antes investido no cerco à capital, Kiev.

A tentativa de sobrepujar as defesas ucranianas, prossegue depois de a invasão ter enfrentado uma série de contratempos, com a liderança russa a sentir o desgaste. No entanto, e ainda que Moscovo tenha sustido perdas brutais nos três meses do conflito, se as suas forças conseguirem avançar sobre Severodonetsk, estarão em condições de ameaçar de seguida Kramatorsk, que é a sede do comando militar da Ucrânia naquela região.

Entretanto, a conquista da cidade portuária de Mariupol foi certamente o avanço mais significativo desde que a Rússia invadiu a Ucrânia a 24 de fevereiro. Os militares ucranianos disseram, este sábado, que a Rússia estava já a levantar as minas do porto na tentativa de o tornar novamente operacional. A reabertura significará um reforço do controlo de Moscovo sobre as partes a sul e a leste da Ucrânia que estão já sob o seu domínio, aumentando a sua influência económica sobre o Mar Negro, onde a marinha russa é dominante.

 

Economia “praticamente desfeita”

Outro desenvolvimento inesperado neste fim-de-semana ocorreu com a admissão por parte do Kremlin de que a sua economia estava “praticamente desfeita” no que toca a questões logísticas, com o ministro dos Transportes a reconhecer que as sanções estão a ter um impacto bastante profundo no setor que tutela. E se isto pode significar que Moscovo poderá estar aberta a retomar as negociações, por agora, alguns dos conselheiros de Zelensky, aqueles que representam a linha mais dura entendem que o único resultado aceitável é que a integridade seja restaurada e o território retome as fronteiras que ficaram definidas em 1991, quando o país ganhou a independência face à União Soviética. Isto incluiria tanto a região do Donbass como toda a península da Crimeia. Mas Zelensky tem dado sinais de que estaria disposto a acatar uma cedência da Crimeia e até de alguns territórios do Leste. Por sua vez, a embaixadora norte-americana na NATO, Julianne Smith, na sua participação na conferência em Varsóvia, na Polónia, reafirmou não apenas o completo apoio dos EUA à Ucrânia, como vincou que a atual administração está empenhada em salvaguardar a integridade do território do país e a sua soberania, indo mais longe num aspeto: “Nós queremos ver uma derrota estratégica da Rússia. Queremos que a Rússia deixe de vez a Ucrânia.”

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