27/06/2022
 
 
A guerra por detrás da guerra!

A guerra por detrás da guerra!

Vítor Navalho 20/05/2022 15:36

O Quarto Modelo: Confronto Ideológico da Eurásia vs Atlantismo Globalista Progressista e o inevitável caminho para o Federalismo Europeu Humanista (Nova Era).

Vítor Navalho
Psicólogo, membro da OPP - Ordem dos Psicólogos Portugueses e da APA - American Psychological Association  

 

Passados alguns meses do início da actual guerra fratricida que decorre na Ucrânia, várias são as perguntas que continuam a ser colocadas diariamente aos Psicólogos das mais variadas Agências de Intelligence com o intuito de traçar o perfil psicológico de um dos “homens” mais complexos e falado neste momento em todo mundo – Vladimir Putin.

Uns dirão que está doente, com uma possível doença grave ou terminal pela sua aparência física, principalmente o rosto e o corpo inchados, denotando assim um possível tratamento de quimioterapia ou a toma de outro qualquer medicamento. As suas expressões faciais podem demonstrar que ele está em profunda agonia, daí as alterações de humor, tornando-o mais agressivo e como consequência, uma possível justificação para o actual ataque à Ucrânia, pois sabendo que está em fase terminal pretende deixar um legado para a posteridade. Poderá também não ser o Putin mas sim vários sósias e por ai fora… Mas a pergunta que se nos coloca e que vale milhões, contínua sem resposta: Por que é que um individuo que tem tudo o que a maioria dos mortais nunca terá, o levou a tomar uma decisão que o posiciona para sempre nos anais da História da Humanidade pela negativa? Para tentarmos perceber um pouco deste enigmático quebra-cabeças, entremos nas profundezas do seu mundo não visível, nas sombras e nos labirintos obscuros que o rodeiam.

Enquanto a guerra continua a ceifar tudo o que se lhe cruza pela frente, principalmente vidas humanas sem nenhuma justificação aparente (o silêncio dos inocentes), os meios de comunicação social fazem a cobertura 24h por dia de toda a narrativa da guerra com as mais variadas análises políticas, geopolíticas, os impactos directos e indirectos nos mais diversos sectores e países, mas estranhamente, pouco se fala do enigmático e controverso filósofo, cientista esotérico Aleksandr Dugin, mais conhecido como o Novo Rasputin, o ideólogo do Kremlin e o Guru de Vladimir Putin.  

Para melhor compreendermos esta guerra da Rússia contra a Ucrânia é preciso aprofundarmos um conjunto de ideias e conceitos desenvolvidos por vários filósofos / ideólogos, nomeadamente Dugin e os seus seguidores, que não se cingem apenas ao território Russo. 

“Em princípio, a Eurásia é o nosso espaço, o coração da Rússia, continuam sendo o palco de uma Nova Revolução antiburguesa e antiamericana... O Novo Império Eurasiano será construído sobre o princípio fundamental do inimigo comum: a rejeição do atlantismo, o controle estratégico dos EUA e a recusa em permitir que os valores liberais nos dominem. Este impulso civilizacional comum será a base de uma união política e estratégica.” – Fundamentos da geopolítica: o futuro geopolítico da Rússia - Aleksandr Dugin - (Arktogeia - 1997).

Afinal quem é o Novo e Enigmático Rasputin?

Nascido em 1962, filho de um oficial Russo e de uma médica, Dugin cedo fez parte de um grupo secreto de intelectuais que estudavam e aprofundavam os conceitos e conhecimentos sobre paganismo, misticismo e fascismo. No entanto é o esoterismo que o vai marcar e acompanhar ao longo dos tempos. Considerado por muitos como um prodígio, licencia-se em Filosofia com mestrado na mesma área, tendo ainda dois doutoramentos; um em Ciência Política e o outro em Sociologia. Com uma forte apetência para as línguas, domina o Inglês, o Alemão, o Francês, o Espanhol, o Italiano e até o Português. Devido ao percurso iniciado muito cedo e profícuo nas mais variadas áreas do conhecimento, especializa-se no estudo das religiões pagãs, acabando mais tarde por integrar um grupo de ocultistas ligado à política que o vão influenciar definitivamente na arquitectura do seu pensamento, tornando-o assim num dos pensadores mais influentes da Rússia. A sua influência estende-se à fundação da Frente Nacional Bolchevique (divisão do Partido Nacional Bolchevique), sendo um dos mentores do movimento internacional e fundador do Partido Eurásia.

A cortina de fumo por detrás da guerra - Eurásia e a Quarta Teoria Política

Mais do que a guerra visível e todas as consequências nefastas e inerentes que com ela se desencadeiam e se arrastam por tempos indeterminados é preciso perceber o que verdadeiramente está por detrás e quais os seus pressupostos. Afinal o que é o conceito de Eurásia e a Quarta Teoria Política?

A denominação de Eurásia ou Ilha Mundo é uma Teoria Geoestratégica desenvolvida pelo geógrafo, diplomata, cientista político e professor universitário inglês Halford John Mackinder, quando em 1904 publica o artigo The Geographical Pivot of History, no qual formulou a Teoria do Heartland, que significa – “O Coração da Terra”. A premissa da Teoria em questão assentava em - "Quem controla a Europa Oriental, domina a Terra Central; quem controla a Terra Central, domina a Ilha Mundo; e quem controla a Ilha Mundo, domina o Mundo".

Para Mackinder havia uma divisão do mundo entre potências terrestres e marítimas como na I Guerra Mundial. A supremacia do poder naval, o controle dos mares, o poderio das nações marítimas devido aos seus posicionamentos geográficos, que durante séculos desenvolveram o meio de transporte marítimo (mais rápido e seguro do que por terra), tanto para fins comerciais, como para fins de segurança, obtendo dessa forma a sua superioridade, como no caso da Europa em particular, domínio esse em relação ao mundo, que se deveu ao desenvolvimento tecnológico naval e das suas forças militares marítimas, culminado com uma indiscutível prosperidade e segurança em relação às potências terrestres no mundo, tinha chegado ao fim. Segundo Mackinder, esse fim decorria da consequência inevitável da revolução que estava a decorrer ao nível das mudanças tecnológicas provenientes do desenvolvimento do motor a combustão, das grandes ferrovias transcontinentais que se estavam a desenvolver no final do século XIX princípios do século XX, possibilitando dessa forma, uma mobilidade terrestre dentro de grandes massas territoriais nunca antes vista, factor esse, que iria alterar para sempre as dimensões dos conflitos armados e uma verdadeira mudança nas lideranças mundiais.

Mackinder entendia indispensável para a materialização da Teoria do Heartland / Eurásia, um acordo / entendimento entre Rússia e Alemanha, tendo em conta que a Rússia se posiciona no centro geográfico do Heartland, pois possui uma extensão terrestre contínua, praticamente sem obstáculos naturais, que vai da Europa Oriental ao Extremo Oriente. Território esse, com uma enorme riqueza tanto em minerais, como em energia e estando esses recursos ao dispor da indústria Alemã, tornaria possível o desenvolvimento e manutenção de um poder militar estratégico único e de uma massa terrestre invulnerável ao alcance das potências marítimas da altura. Uma aliança estratégica desta magnitude representaria o controlo do território Eurasiático e o verdadeiro domínio do mundo. Esta Teoria influenciou muito o posicionamento estratégico da Alemanha Nazi na II Guerra Mundial e continua a influenciar a política externa das potências mundiais até hoje.

Dugin reposicionando a Teoria de Mackinder, propõe a Eurásia conjuntamente com a Quarta Teoria Política desenvolvida por si, tendo como alicerces de base e justificação, o fracasso das três Teorias Políticas que mudaram o Mundo. O Liberalismo, o Comunismo e o Fascismo. Sendo que o Comunismo e o Fascismo falharam e foram superados pelo Liberalismo (actualmente em decadência para ele) e, segundo o qual, o seu maior representante é os EUA. Dugin, ao propor a Quarta Teoria Política, parte da ideia fundamental de uma polaridade de civilizações e culturas, ou seja, “a ideia de um mundo multipolar – como história, o estado actual das coisas e um projecto para o futuro. Assim a Rússia seria a grande líder da civilização Russa Ortodoxa e Eurasiana.” – A Quarta Teoria Política - Aleksandr Dugin - (Ars Regia - 2009).

Para a praxis do modelo, Dugin mistura um posicionamento sincrético - hibridização entre a extrema-esquerda (economicamente) e a extrema-direita (socialmente / valores), mais conhecido como Nazbol (as duas faces da mesma moeda ou como alguns definem paradoxalmente – extrema-direita revolucionária), que têm sido alimentadas ao longo dos últimos anos, um pouco por todo o mundo, através dos mais variados Think Tanks, onde o próprio Dugin ou Steve Bannon, conjuntamente com outros defensores da causa, têm plantado as sementes do mal. Afirmações feitas recentemente como as do antigo Presidente da Rússia, Dmitry Medvedev – “Chegou a altura de construir uma Eurásia de Lisboa a Vladivostok”, não podem deixar ninguém indiferente.

Qualquer perfil Psicológico que se queira traçar individualmente e neste caso em particular, de Vladimir Putin, não se consegue fazer isoladamente. Um homem sozinho não faz a guerra, mas pode fazer a diferença! Pela positiva ou pela negativa. Neste caso, tem sido pela negativa.

Em suma, o que estamos a viver é uma guerra por detrás da guerra. Um verdadeiro confronto ideológico e filosófico ao mais alto nível contra os valores Ocidentais. Por um lado, o Modelo Eurasiano e a Quarta Teoria Política vs Atlantismo Globalista Progressista e por outro, o inevitável caminho para o Federalismo Europeu Humanista, sem as limitações do Federalismo Americano. Uma verdadeira Nova Era, onde nada será como dantes! Conceitos clássicos de esquerda e direita do século XIX estão ultrapassados e não há espaço para reformismos. Devemos todos estar preparados para os desafios que se nos apresentam, pois não têm precedentes na História da Humanidade, colocando-se-nos uma pergunta fundamental neste preciso momento:

Quanto é que estamos dispostos a abdicar do nosso modo de vida em prol da Liberdade?

 

Lisboa, 20 de Maio de 2022

 

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