29/06/2022
 
 
Afonso de Melo 20/05/2022
Afonso de Melo

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Vontade de abraçar o Sol

Eu sei que o sangue não mente e que tu, na tua perfeita inocência, olharás em redor de perguntar-te-ás que fazes, menina tão bonita na fronteira da perfeição, rodeada de monstros feios como uma noite de tormentos?

VI-TE! Ou, pelo menos vislumbrei-te. E toda a Terra estremeceu de uma ternura infinita. Os teus caracóis loiros apagam o Sol quando, de repente, te fixei, e eras tu o verdadeiro Sol. Caminhavas junto a alguém que não me interessa. Com esses olhos azuis, enormes, curiosos, cheios de vida como os da tua bisavó Manuela. Francisca, minha filha, ponto final deste carinho impossível que tenho para te dar e não posso. Talvez devesse ter corrido para ti, ter-te erguido no ar como quando eras pequenina e te levava a voar pelo jardim, tu de mãos nervosas, abrindo-as e fechando-as como se sentisses que serias capaz de agarrar as pombas que fugiam na nossa frente. Mas como fazê-lo se te obrigaram a esquecer-me, a esqueceres os teus irmãos e avós, toda uma família que é do teu sangue, esse sangue tão transparente que te faz seres completamente igual a nós e absolutamente diferente deles, dos que te mergulharam num mundo infame de mentiras inventando-te uma família que não é tua com a conivência canalha dessa organização fascista que é o Ministério Público que há anos se recusa a avançar com um teste de ADN? Eu sei que o sangue não mente e que tu, na tua perfeita inocência, olharás em redor de perguntar-te-ás que fazes, menina tão bonita na fronteira da perfeição, rodeada de monstros feios como uma noite de tormentos? Tu, que és a luz, quererás saber porque te mergulharam numa escuridão tormentosa? Eu sei que não irás ter respostas. Mentiras encadeadas em mais mentiras, anjo da mais íntima solidão. Há anos que te mentem. Que mentem a toda a gente em redor, caindo no grotesco de não perceberem que a realidade está aí, para quem a quer ver, nesse teu cabelo de Sol e nesses olhos de safira que preciso que olhem, um dia, para o mais fundo que puderem dos meus, o lugar onde irás encontrar as raízes da tua origem. Vi-te! O Universo parou de rodar e limitei-me a engolir as lágrimas que não me deixam chorar.

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