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Rali de Portugal. Quilómetros de paixão!

Rali de Portugal. Quilómetros de paixão!

João Sena 17/05/2022 13:26

O Rali de Portugal 2022 assinala os 50 anos do Campeonato do Mundo de Ralis. É uma longa história, onde só os grandes pilotos e os melhores carros conseguem vencer.

Considerado pelo BPICA (Bureau Permanent International des Constructeurs d´Automobiles) o melhor rali do Mundo por cinco vezes, a edição deste ano apresenta uma lista de inscritos de luxo, com 100 equipas de 25 nacionalidades. Está garantido o espetáculo nas difíceis e exigentes estradas do norte e centro do país. Na sexta-feira, os concorrentes enfrentam as lendárias classificativas de Arganil, Góis e Lousã, no sábado, têm pela frente as tenebrosas especiais do Minho e, no domingo, para final de festa, os rápidos troços de Fafe, com longos e espetaculares saltos de cortar a respiração. Ao todo, são 21 classificativas em terra (330 quilómetros) feitas a ritmo alucinante.

Participar no Rali de Portugal faz parte do currículo de qualquer piloto. O encanto da prova deve-se à sua dureza, rapidez e imprevisibilidade – sempre foi uma correria infernal. A prova deste ano conta com a presença da Toyota, campeã em título, Hyundai e Ford, que alinham com a nova geração de carros híbridos Rally 1. No plano teórico há 12 pilotos que podem vencer a prova, mas as atenções vão estar centradas na luta entre Sebastien Loeb (nove vezes campeão do Mundo) e Sebastien Ogier (heptacampeão).

 

História de campeões

Com o objetivo de reforçar a imagem da companhia aérea da bandeira nacional no estrangeiro foi organizado em 1967 o I Rally Internacional TAP, foi o início da mais bonita história do desporto automóvel português. Depois de ter dominado a prova, Jean-Pierre Nicolas (Renault 8 Gordini) bateu num muro na Serra de Sintra e ofereceu a vitória a Carpinteiro Albino (Renault 8 Gordini). Dois anos mais tarde, novo golpe de teatro. Tony Fall chegou triunfante ao Estoril, mas a presença da namorada no interior do Lancia Fulvia HF ditaria a sua desclassificação e a vitória de Francisco Romãozinho (Citroen DS 21). A prova rapidamente ganhou prestígio internacional e, em 1973, passou a integrar o mundial. Foi considerado o melhor rali do Mundo cinco vezes graças à astúcia e competência de Alfredo César Torres, que foi diretor de prova durante 31 edições. Isso ficou bem patente em 1974 quando a crise petrolífera levou ao cancelamento de todas as competições motorizadas, exceto o Rali de Portugal. Foi a perseverança e sentido político de César Torres que convenceu o Governo a autorizar o rali com gasolina vinda da Venezuela. No ano seguinte, a instabilidade política – o famoso verão quente de 1975 – quase deitou por terra a realização da prova. Uma vez mais, foi a habilidade e o carisma de César Torres que convenceu as equipas de fábrica a virem correr a Portugal.

 

Peregrinação a Sintra

No final da década de 70 o público tornou-se a imagem de marca do rali, só que o elevado número de espetadores em determinados locais, nomeadamente Sintra, começou a ser um problema para a organização. A mágica noite de Sintra de 1978 fica na história do mundial de ralis. Markku Alen (Fiat 131 Abarth) e Hannu Mikkola (Ford Escort RS) travaram uma luta ao segundo até às cinco da madrugada! Foi o duelo mais intenso da história do Rali de Portugal travado entre dois dos melhores pilotos da sua geração. Mikkola partiu na frente para a última passagem por Sintra, mas um furo deitou tudo a perder e Alen celebrou o segundo triunfo consecutivo. A prova de 1980 ficou na história pelo recital de condução dado pelo racional Walter Röhrl (Fiat 131 Abarth) ao exuberante colega de equipa Markku Alen. O finlandês dizia conhecer como ninguém a classificativa de Arganil. Na hora da verdade, o alemão voou nos 43 quilómetros do troço coberto por um manto de nevoeiro, ganhou quase cinco minutos a Alen e venceu o rali. O Rali de Portugal de 1981 fica igualmente na história por dois motivos: a estreia dos carros de quatro rodas motrizes (Audi Quattro) e vitória do senhor “maximum attack” Alen (Fiat 131 Abarth) depois de ter andado em três rodas e de marcha atrás. O finlandês despistou-se no início da prova, mas depois fez uma recuperação fantástica que lhe valeu a quarta vitoria na prova portuguesa.

 

No fio da navalha

As infernais máquinas de Grupo B (mais de 500 cv) tiveram uma passagem efémera pela edição de 1986. O destino da prova ficou tragicamente marcado pelo acidente de Joaquim Santos (Ford RS 200) na Lagoa Azul que causou dois mortos e 33 feridos. Dias antes, Alen tinha avisado “fiquem de fora da estrada”, mas a inconsciência andava à solta na Serra de Sintra, onde estavam mais de 450 mil pessoas. Assustados com os “monstros” que tinham entre mãos e com a segunda etapa extremamente rápida, os pilotos de fábrica decidiram abandonar a prova contra a vontade dos seus diretores desportivos. Foi o início do fim do rugir feroz dos Grupo B. Joaquim Moutinho (Renault 5 Turbo) prosseguiu e venceu o rali sem grande oposição.

O ano 1987 marcou o aparecimento dos Grupo A, carros semelhantes aos modelos de série e, por isso, menos potentes e pouco espetaculares. Alen (Lancia Delta HF Turbo) obteve a quinta vitória, feito recentemente igualado por Sebastien Ogier. Com os carros de Grupo A surgiu uma nova geração de pilotos, com destaque para Massimo Biasion (Lancia Delta Integrale) e Carlos Sainz (Ford Sierra Cosworth e Toyota Celica GT Four), também eles vencedores em Portugal.

A morte de César Torres (1997) provocou um forte abalo no desporto automóvel nacional e o nível organizativo do Rali de Portugal baixou a ponto de ser retirado do mundial em 2002. Após a “travessia no deserto” de seis anos, que permitiu aos pilotos portugueses serem os principais protagonistas, o rali voltaria ao campeonato do mundo em 2007. O ACP não quis correr riscos e partiu de uma folha em branco para realizar a prova no baixo Alentejo e Algarve. O regresso às origens, ou seja, ao norte, aconteceu em 2015.

De 1997 a 2021, o mundial de ralis foi disputado pelos WRC. Foram anos extraordinários que permitiram o aparecimento de fantásticos pilotos, caso de Colin McRae, Tommi Makinen, Sebastien Loeb e Sebastien Ogier, todos eles fizeram história no Rali de Portugal. Este ano surgiu a nova categoria Rally 1 e é grande expectativa para ver o desempenho dos carros híbridos em piso de terra.

 

Portugueses em destaque

Por sete vezes um piloto português venceu o Rali de Portugal, embora apenas em 1986 o rali contasse para o Campeonato do Mundo. Carpinteiro Albino (Renault 8 Gordini) em 1967, Francisco Romãozinho (Citroen DS21) em 1969, Joaquim Moutinho (Renault 5 Turbo) em 1986, Rui Madeira (Toyota Celica GT) em 1996 e Armindo Araújo (Citroen Saxo Kit Car e Mitsubishi Lancer Evo VIII) em 2003, 2004 e 2006.

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