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17 de maio de 1955. Na receção ao Presidente, a personagem foi o porco

17 de maio de 1955. Na receção ao Presidente, a personagem foi o porco

Afonso de Melo 17/05/2022 09:55

Craveiro Lopes foi propositadamente à ilha de Santiago, em Cabo Verde, para inaugurar uma unidade de fomento pecuário que previa uma grande produção de suínos e houve festa da rija.

O porco, sim senhores!, o porco, essa magnífica criatura da natureza de espécies de mamíferos bunodentes, artiodáctilos, não ruminantes da subordem dos suiformes, também merecia visitas de estado, essa é que é essa, que o dissessem suas excelências o Presidente da República e ministro do Ultramar que se haviam deslocado, com a pompa e circunstâncias que o cevado merece, ao interior da Ilha de Santiago, conhecida pelo “Celeiro de Cabo Verde”, para cumprir um dever grato a todos os portugueses, segundo sublinhava atentamente um escriba da época, para inaugurarem um moderníssimo posto de fomento pecuário dedicado, sobretudo, à produção do simpático animalzinho que, pelos lados da Bairrada, vai para os fornos ainda bebé de leite para deleite de alguns mais comilões. Uma festa! Uma festarola de arromba! Durante mais de 40km, na estrada de Santa Catarina, a comitiva presidencial foi alegremente aplaudida pelas populações locais que não quiseram deixar de espreitar ao vivo a figura de Francisco Craveiro Lopes com aquele seu ar empertigado de quem tinha acabado de engolir uma vassoura e, ainda por cima, estava com dificuldades em digeri-la. Se tivesse sido o porquinho, sr. presidente...

A malta vinha diretamente da praia para as bermas da estrada numa manifestação que era de fazer correr uma lágrima ao canto do olho, não fosse o líquido corporal mais incomodativo naquele momento o suor provocado pelas temperaturas bastante razoáveis. Houve alguns notáveis que fizeram questão de se apresentar, como foi o caso do sr. Cabral, regedor da freguesia de_São Domingos, e o professor primário Barros que surgiu à cabeça de um grupelho de fedelhos tão sorridentes como ele. “Cerca das 10h30, o presidente e a sua comitiva chegaram à vila da Assomada, e aqui a recepção não excedeu o entusiasmo de outras porque o patriotismo dos cabo-verdianos é igual por toda a parte”, sublinhava, encantado, o repórter de serviço, para não deixar ponta de dúvidas. O patriotismo terá mudado ligeiramente, após todos estes anos, mas os cabo-verdianos não deixam, evidentemente, de o ter em altíssimo grau.

Dísticos dependurados em arcos que se queriam de triunfo, saudavam alegremente o Presidente e o ministro, sem esquecer o dr. Salazar, que tivera de ficar em Lisboa a haver-se com as chatices de uma diplomacia que já vira melhores dias na Europa. Sempre foi um homem de sacrifícios, não seria por uma vara de porcos que trocaria o fresquinho do gabinete de São Bento por um escaldão em_Cabo Verde, que não era homem para isso. Uma revoada de meninas volitantes cantaram A_Portuguesa. Era tempo de discursos. Uma grandessíssima estucha para os que queriam era pagode e viva lá o seu compadre, mas fundamentais para a união patriótica da situação.

 

Venham os porcos!

Houve um desfile pecuário que, disseram os mais experimentados em assuntos desse calibre, nada ficou a dever nem às feiras da Golegã nem de Santarém. Com licença da presidencial figura e do respetivo ministro, a personagem do momento era o porco, em todo o seu esplendor. Com um investimento a rondar os dez mil e quinhentos euros, o Plano de Fomento, realizado dentro de outro plano mais alargado e ambicioso que era o Grande Plano de Ressurgimento, garantia que a criação de suínos avançaria a toda a velocidade ao mesmo tempo que se procederia a uma série de obras hidráulicas e agrícolas, tirando proveito de várias nascentes do solo da região que envolveriam nada menos do que mais de 30 quilómetros de canais tão necessários num território onde a chuva nunca lhe deu para abundar. Talvez por isso, num dos armazéns erguido para a ocasião, onde Craveiro_Lopes teve a oportunidade e provar o café, o açúcar, o mel de cana, o feijão, a batata, a abóbora, e ver um badiu, ou uma casa típica do camponês de Cabo Verde com a respetiva pocilga, houvesse um cartaz berrando: “Isto é o que temos quando Deus nos dá chuva!”

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