03/10/2022
 
 
Lisboa. "É um disparate reduzir cegamente os limites de velocidade"

Lisboa. "É um disparate reduzir cegamente os limites de velocidade"

Bruno Gonçalves Vítor Rainho 13/05/2022 08:12

Os lisboetas foram surpreendidos com as novas regras sobre a velocidade que poderão conduzir na capital. “É um disparate”, diz um dos grandes especialistas em Mobilidade.

Caiu que nem uma bomba e os estilhaços ainda não pararam de se espalhar. Sete vereadores do PS e um do BE votaram a proposta do vereador do Livre que propôs a diminuição da velocidade máxima na capital em 10 km hora, independentemente das vias em causa, com os votos contra do PSD/CDS e a abstenção da CDU. “É uma atitude de pessoas que não fazem política para resolver problemas, mas sim para apenas ganharem visibilidade na comunicação social. E, diga-se, para consolidarem a sua posição do politicamente correto”. A frase é de Fernando Nunes da Silva, antigo vereador da Mobilidade e Transportes da Câmara de Lisboa entre 2009 e 2013.

O professor catedrático, especialista em Urbanismo e Mobilidade, vai mais longe: “É um disparate reduzir cegamente os limites de velocidade independentemente do tipo de rua ou avenida, do seu volume de tráfego e das atividades existentes na sua envolvente. Fazê-lo desta forma viola até o Plano Diretor Municipal e revela que os políticos tomam uma posição quando estão no poder e outra quando estão na oposição”.

Nunes da Silva refere-se ao PS que no anterior mandato aprovou as zonas 30 e agora mudou de opinião. “É por estas e por outras que a atividade política atrai cada vez menos e vai descendo de nível. Depois admirem-se dos populismos que exploram este desencanto com a política”.

Fernando Nunes da Silva não está contra que se reduza a velocidade em zonas de convivência, nomeadamente nos bairros residenciais e áreas históricas, onde até se podia ter ido mais longe, mas com medidas acessórias. “Não faz sentido colocar apenas um sinal a dizer que só se pode andar a 20 km por hora. É preciso introduzir dispositivos físicos para forçar a redução de velocidade e dar uma clara prioridade ao peão, tirar os carros estacionados que escondem os peões, além de reduzir as faixas de rodagem para os automobilistas saberem que estão em zonas onde devem ter mais atenção às pessoas e reduzirem a velocidade”.

Insistindo que a nova medida não teve em conta a segurança rodoviária, o ambiente e as diferentes funções da rede viária, Nunes da Silva explica que a poluição poderá aumentar, em certos casos, com este tipo de decisões. “O pára-arranca é das situações mais gravosas para o ambiente e aumenta significativamente (3 vezes ou mais) as emissões poluentes”.

Segundo o especialista, faz todo o sentido reduzir a velocidade nas áreas residenciais e de concentração de comércio e serviços, mas o mesmo já não faz sentido nas avenidas da rede principal da cidade, que foram construídas como vias de grande tráfego (a mais recente, a Av. Santos e Castro, construída nos mandatos de António Costa). “Faz algum sentido reduzir para 40 km por hora a velocidade na Marechal Gomes da Costa onde há três vias por sentido, separador central, cruzamentos desnivelados e não há zonas de atravessamento? O mesmo se passa na zona junto ao rio, nomeadamente na Avenida Brasília, onde a linha de comboios não permite que peões passem de um lado para o outro da via”.

O que faz sentido, segundo o homem responsável pela alteração do trânsito na Avenida da Liberdade, durante o seu mandado como vereador, é haver velocidade variável. “Por exemplo, quem está numa avenida como a 2.ª Circular deve ser obrigado a reduzir a velocidade de acordo com o volume de tráfego. Se está a chegar a uma zona muito congestionada, o limite deve ser reduzido. Um bom exemplo pode ser visto no túnel da CRIL na Buraca: sempre que há uma saída do túnel, a velocidade da via da direita baixa para os 50 km/h”. O resto, acrescenta, é “pura caça à multa”.

 

Moedas acusa oposição de “soberba”

Quem não gostou da aprovação desta medida foi o presidente da autarquia, Carlos Moedas, que anunciou que irá reunir-se com os comerciantes da Avenida da Liberdade, até para perceber o que poderão fazer, pois estes ficarão a trabalhar numa avenida fechada aos domingos e feriados. Moedas acusou a oposição de “soberba” por decidir sem falar com as pessoas.

“Foi uma proposta feita pelos vereadores da oposição. Eu votei contra, todos os vereadores dos Novos Tempos [coligação PSD/CDS-PP/MPT/PPM/Aliança] votaram contra, e penso que é uma proposta que mostra a soberba e que, de certa forma, a própria oposição não está a perceber aquilo que as pessoas querem em Lisboa, que é poder decidir, é poder falar com elas”, acrescentou à saída da FIL, no Parque das Nações.

Recorde-se que a iniciativa do Livre, intitulada ‘Contra a guerra, pelo clima: proposta pela redução da dependência dos combustíveis fósseis na cidade de Lisboa’, obriga à redução em 10 km/h da velocidade máxima permitida. Assim, nas vias de 3.ª, 4.º e 5.º nível só se poderá andar até 30 km/h, nas vias de 2.º nível, como a Avenida Marechal Gomes da Costa, os 40 km/h serão o máximo permitido e onde se andava até 80 terá que se carregar no travão para os 70.

Além dos limites de velocidade, a proposta obriga ao encerramento ao trânsito automóvel da Avenida da Liberdade aos domingos e feriados, pretendendo-se que esta medida seja replicada em todas as artérias principais das freguesias lisboetas. O partido de Rui Tavares defende na proposta que se consiga conciliar os vários transportes públicos, além de defender uma tendência gradual da gratuitidade dos mesmos.

Os comerciantes e empresários de espetáculos da Avenida da Liberdade e da Baixa de Lisboa também demonstraram o seu desagrado com as alterações e prometem lutar contra o encerramento da avenida mais emblemática do país. O presidente da associação Avenida da Liberdade, que representa lojas, hotéis, restaurantes e serviços, revelou, à Lusa, a sua estupefação com a medida. “Na cultura são milhares de lugares que se preenchem todos os domingos. Ao nível do turismo também vai ter um impacto brutal e nos postos de trabalho”, disse. Também à agência noticiosa, Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Club de Portugal, não poupou nas críticas: “A esquerda em Lisboa faz sempre propostas sem qualquer estudo. Quando houver estudos nós tomaremos uma posição. Há sítios onde a velocidade tem de ser reduzida, há outras em que terá de ser aumentada. Portanto, parece-me mais uma decisão política da esquerda furiosa por ter perdido as eleições do que outra coisa”.

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