17/05/2022
 
 
Ucrânia. Teme-se uma crise alimentar global

Ucrânia. Teme-se uma crise alimentar global

AFP João Campos Rodrigues 11/05/2022 08:21

Antevê-se mais instabilidade nos países em desenvolvimento, com tantos cereais retidos em Odessa. No Sri Lanka há motins, a rua árabe exige pão e agências humanitárias não conseguem enfrentar o aumento dos preços. 

Perante o bloqueio e bombardeamentos a Odessa, o porto por onde passava boa parte do óleo de girassol, trigo e milho da Ucrânia, aumentam os alertas para uma crise alimentar global. Algo que ameaça deixar o Terceiro Mundo num turbilhão.

Enquanto silos cheios de comida, pronta a ser exportada, são deixados abandonados à beira do Mar Negro, há motins e perseguições a políticos no Sri Lanka, devido à fúria com o aumento do preço dos alimentos (página 11). No Médio Oriente ninguém esquece como a subida do preço do pão despoletou a Primavera Árabe. E o Programa Alimentar Mundial (WFP, na sigla inglesa) já veio avisar que alimenta uns 138 milhões de pessoas em países devastados pela guerra, como a Etiópia, com cereais comprados à Ucrânia. 

“Pela primeira vez em décadas não há o habitual movimento da frota mercante, nenhum funcionamento do porto em Odessa. Provavelmente isto nunca aconteceu em Odessa desde a II Guerra Mundial”, lamentou Volodymyr Zelenskiy, esta terça-feira. “Sem as nossas exportações agrícolas, dezenas de países em diferentes partes do mundo estão à beira de uma escassez alimentar. Ao longo do tempo, a situação pode tornar-se terrível”, alertou o Presidente ucraniano, apelando a uma resposta internacional para levantar o bloqueio naval russo. 

Apesar da guerra, a Ucrânia, que costumava ser responsável por metade da produção mundial de óleo de girassol, bem como uns 12% do milho e 15% do trigo, ainda conseguiu exportar milhões de toneladas de cereais em abril, sobretudo através da fronteira com a Polónia e Roménia.

O Governo ucraniano tem tentado apostar no porto romeno de Constanta, nas margens do Mar Negro, mas mesmo assim tem estado a perder o equivalente a quase 1,5 mil milhões de euros por mês, segundo dados do Ministério da Agricultura, citados pela France Press.

Cerca de 25 milhões de toneladas de cereais ficaram presos na Ucrânia, avisou uma fonte nas Nações Unidas à Reuters, havendo receio que o risco de uma crise alimentar global se agrave no próximo ano, com tanto das férteis estepes ucranianas por cultivar. A época da sementeira de primavera chegou em plena guerra, quando muitos agricultores tiveram que combater, outros de fugir da sua terra, e estima-se que se tenha semeado menos 25% ou 30% que o ano passado. Não ajuda que a Rússia e a Bielorrússia, alvo de sanções, estejam entre os grandes produtores de fertilizantes, aumentando os preços de produtos agrícolas à escala global. 

Mesmo o que foi plantado este ano na Ucrânia poderá não ter como ser exportado para o ano, com Odessa na mira do Kremlin. A antiga joia do império russo, fundada em 1794 por Catarina a Grande, tem sido alvo de sucessivos ataques com mísseis, um deles em plena visita do presidente do Conselho Europeu, Charles Michel.

Segundo as autoridades ucranianas, os russos recorreram aos velhos mísseis X-22, da era soviética, mas também aos seus novos mísseis hipersónicos, os Kinzhal, de que Putin se tem recorrentemente gabado, descrevendo-os como “invencíveis”, por serem mais difíceis de detetar. Foram utilizados para atingir edifícios residenciais e um centro comercial, causando pelo menos uma morte. 

Em Odessa - por onde costumavam passar mais de 65% das exportações ucranianas, desfrutando do canal Reno-Meno-Danúbio, que atravessa a Europa até à distante Roterdão, bem como de um aeroporto internacional e extensa rede ferroviária - o presidente do Conselho Europeu não só pôde ver com os seus próprios olhos o impacto dos ataques russos contra civis, mas também uma outra tragédia. Menos espetacular, mas potencialmente também mortífera.

“Esta comida tão desesperadamente necessária está retida por causa da guerra russa e do bloqueio aos portos do Mar Negro, causando consequências dramáticas para países vulneráveis”, frisou Michel, esta terça-feira, após visitar silos cheios de cereais, um dia após ter de se refugiar num bunker para escapar a mísseis russos. “Precisamos de uma resposta global”. 

Ruas árabes exigem pão Os governantes egípcios sabem que não se mantêm muito tempo no poder se subirem o custo do pão, altamente subsidiado. Nas ruas árabes o preço do pita, um pão achatado que não é dispensado em nenhuma refeição, é uma medida de satisfação, parte crucial do consumo calórico da população. E uns 80% do trigo que chegou ao Egito o ano passado vinha da Ucrânia ou da Rússia, algo que pode virar um desastre para o autoritário regime de Abdel Fattah El-Sisi.

“Não consigo fornecer vinte pães ao preço de um cigarro”, admitira o Presidente, reagindo ao aumento do custo do trigo, já antes da guerra, admitindo a primeira subida do preço do pão em décadas. Agora, os valores tiveram de ser ajustados de novo, e um pão pita subsidiado de 90 gramas passou a custar uma libra egípcia.

Pode ser o equivalente a pouco mais de 5 cêntimos, mas é incomportável para 30% dos egípcios, que vivem em pobreza extrema. Isto enquanto a industria turistica, o grande ganha-pão do Egito, sofre a uma dura quebra, dado que cerca de um terço dos turistas era oriundo da Rússia ou da Ucrânia 

O Governo do Egito, o maior importador de trigo do planeta, assegurou ter reservas de cereais até setembro. Mas não espanta que ande desesperadamente a tentar arranjar fornecedores alternativos, como a Índia, Argentina, Cazaquistão ou Roménia.

Afinal, o regime de Sisi é dos “mais politicamente expostos” pela guerra na Ucrânia, avisou um relatório da Renaissance Capital, citado pelo Africa Report. Que dava uma mudança de regime como provável, se os preços continuarem a subir. 

Fome Agências humanitárias que antes dependiam de comprar cereais baratos ucranianos para alimentar gente desesperada na Etiópia, Sudão do Sul, Afeganistão ou Iémen, enfrentam decisões duras. “Não temos escolha que não tirar comida de gente com fome para alimentar gente a morrer de fome”, chegou a admitir o líder do Programa Alimentar Mundial, David Beasley, o mês passado. 

É que, enquanto o mundo assiste atentamente à tragédia na Ucrânia, uma brutal guerra civil devasta Tigré, no norte da Etiópia, enquanto o sul enfrenta uma seca, agravada pelas alterações climáticas. A maioria das famílias de Tigré viu-se obrigada a mendigar por comida, alertou a ONU, estando quase meio milhão de crianças a sofrer de subnutrição na região, assim como 120 mil mulheres grávidas ou em fase de amamentação. “O impacto desta guerra na Ucrânia está a sobrepor-se a uma crise que já decorria em alguns países africanos”, avisou Abebe Haile-Gabriel, vice-diretor-executivo da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, em inglês), citado pela Reuters. “Temos um panorama muito sombrio pela frente”. 

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