25/06/2022
 
 
Afonso de Melo 10/05/2022
Afonso de Melo

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O cão e o senhor Fonseca

COLVA - Os cães em Goa não têm maneiras. No domingo, em Cavelossim, no Hungry Shark, um grandalhão branco veio disparado em direção à mochila que deixei apoiada nas pernas da mesa e mijou-lhe para cima. Tive o instinto suficientemente rápido para lhe desviar o alvo e vê-lo apenas atacado por umas pingas.

COLVA - Os cães em Goa não têm maneiras. No domingo, em Cavelossim, no Hungry Shark, um grandalhão branco veio disparado em direção à mochila que deixei apoiada nas pernas da mesa e mijou-lhe para cima. Tive o instinto suficientemente rápido para lhe desviar o alvo e vê-lo apenas atacado por umas pingas. O Michael, que estava sentado a meu lado, soltou uma gargalhada e disse: “Son of a bitch!” Mas isso, literalmente, já o animal sabia desde que nasceu. Os hindus não têm pachorra para aturar cães. Consideram-no um animal não-reflexivo, ao contrário da vaca ou do gato, por exemplo, e não merecedor de qualquer consideração. Aqui, neste canto de católicos, a visão sobre os bichos é a de todo o bom católico: em princípio servem para comer. Infelizmente, as perninhas de rã (“jumping chicken”) que encomendávamos no Palmirabai, rawa fried, a estalar, foram proibidas vá lá saber-se por que diabo de política de preservação de batráquios. Embora, vendo bem, a rã também seja um animal reflexivo. Por falar em reflexivo, lembrei-me da história do reflexivo senhor Fonseca, um homenzinho invernal que andava com os calores pela sua secretária, essa muito primaveril. Dono de posses razoáveis, quis saber com que género de pessoa estava disposto a criar uma futura relação, pelo que a convidou para um almoço de pesquisa. A certa altura, o senhor Fonseca foi direto ao assunto: “Desculpe-me, mas vou ter de lhe fazer uma pergunta que me dirá muito sobre a sua personalidade”. E ela, cocote: “Por quem é, senhor Fonseca. Pergunte. Pergunte”. O senhor Fonseca tossicou: “Olhe, que acha a menina que tenho neste momento a meio das pernas?” Aí, a moça levou a mal, corou até à raiz dos cabelos. Certificou-se de que a bengala do patrão estava dependurada no bengaleiro e cuspiu à bruta: “Mas oiça lá! Nunca pensei que pudesse ser tão ordinário. Então isso é lá forma de me tratar, seu porco!” E o senhor Fonseca tranquilo. Lá está: reflexivo. “Minha senhora, a sua reação dá-me muito que pensar. A porcaria está certamente na sua cabeça porque eu, a meio das pernas, tenho os joelhos”. Depois pagou e foi-se embora.

 

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