20/05/2022
 
 
Afonso de Melo 06/05/2022
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

O regresso de Adão...

Ainda hoje, volta e meia, penso nesse momento e nessa frase tão a despropósito mas que revelava, enfim, aquilo que lhe ia por dentro. Caminho para esta terra, para este mar, para tudo aquilo que me rodeia com uma candura tão própria da Índia, com a alma leve de um garoto que voltou a ter dezasseis anos e para o qual não existe nem o amanhã nem gente que morre sem eu saber porquê.

COLVA - O sol acabou de desaparecer no horizonte e eu mergulho no mar tépido e confortável como líquido amniótico. Deixo-me ficar ao sabor das ondas pequenas mas a corrente, forte, obriga-me a dar braçadas para voltar ao lugar em que entrei na água, mesmo em frente à cabana do meu amigo Anthony que, desta vez, já não tem excursões de russas e de hospedeiras da Lufthansa que costumam enxameá-la no tempo em que as monções estão longe e ninguém tem medo que, de repente, comecem a chover vacas e porcos e corvos e cocos e cães com sarna que vivem no céu de Colva depois de se terem condensado pelo calor bruto que aqui faz no mês de Maio.

Recordo-me de quando, uma vez, já lá vão uns anos, o Rodrigo Lencastre, boiando sob o céu encastoado de estrelas, soltou uma frase inesperada: “Tenho a vida toda lixada!” Ele usou lixada com F, mas pouco importa. Nada poderia ser tão contrário ao luar parado sobre o Índico, ao vulto das palmeiras que se desenhava para lá da linha de areia da praia, ao silêncio apenas interrompido pelo arrulhar das onde que não é mais do que a música de fundo do Universo em movimento.

Ainda hoje, volta e meia, penso nesse momento e nessa frase tão a despropósito mas que revelava, enfim, aquilo que lhe ia por dentro. Caminho para esta terra, para este mar, para tudo aquilo que me rodeia com uma candura tão própria da Índia, com a alma leve de um garoto que voltou a ter dezasseis anos e para o qual não existe nem o amanhã nem gente que morre sem eu saber porquê.

Tenho duas angústias arrancadas do peito com raízes e tudo que me deixarão até ao fim dos dias crateras impossíveis de preencher, porque me destruíram a ternura e toda aquela pacificação que só o carinho intenso é capaz de dar. Mas, no fim, saio do mar e há uma frase que digo sempre que aqui chego: “Nunca, desde que Adão foi expulso do Paraíso, esteve tão perto dele outra vez”.

Os comentários estão desactivados.


×

Pesquise no i

×
 


Ver capa em alta resolução

iOnline