24/06/2022
 
 
Afonso de Melo 04/05/2022
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

O homem apodrecido

Conheço os sentimentos mais dolorosos e mais absurdos. A vertigem pela imensidão e, ao mesmo tempo, aquela maneira de nos perdermos dentro dela. 

RIGA - Foi quase com carinho que o homem de cabeça rapada e olhos profundamente azuis aceitou a minha pequena troca de palavras em russo, num dos intervalos dos jogos da Arena de Riga. “Drug”, disse e repetiu. Amigo. Talvez algo embaraçado também, como não tivesse direito a ser russo com orgulho. O meu querido amigo e mestre Manuel Alegre costuma dizer que tenho alma de russo. Sobretudo no que escrevo. E eu, que tenho um fascínio irresistível por esse país imenso, que conheço desde São Petersburgo ao País dos Buriates, passando por quase todas as velhas repúblicas soviéticas, daqui de Riga, na Letónia, à Bielorússia, ao Azerbaijão, Uzbequistão, Cazaquistão, Quirguízia, Arménia ou Geórgia (e Ucrânia, claro está), recordo-me da frase sonante de Fiódor Dostoiévski em O Idiota: “A alma russa é uma gruta escura por muitas razões”. Vive, hoje em dia, essa alma, numa das suas mais escuras profundezas.

E, ao mesmo tempo, numa das mais angulosas de todas as suas esquinas. Eu não a recuso. Conheço os sentimentos mais dolorosos e mais absurdos. A vertigem pela imensidão e, ao mesmo tempo, aquela maneira de nos perdermos dentro dela. Aquele lento roer dos olhos como se fossem folhas, de que falava Essenine. O pavor de Podkoliossín, o noivo, de Nicolai Gogol, que se defenestrou no dia do casamento. A estrada infinita que conduz a lado algum. O vazio angustiante das estepes que se espalham dentro de nós de horizonte a horizonte. A forma de se ter razão antes do tempo. Essa mesma forma de se ter razão que  levou Andrei Béli, ou Boris Nikolaevich Bugaev, de seu nome de baptismo, escrever no livro maravilhoso que é Petersburgo: “Basta! Não esperes mais! Já não há esperança!/Apodrece, meu desgraçado povo!/Desaparece no espaço, desaparece!/ Ò Rússia! Minha Rússia!” O homem da cabeça rapada aperta-me a mão com força e encosta a cabeça à minha. Diz: “drug!” De certa forma parece apodrecido.

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