24/06/2022
 
 
Afonso de Melo 03/05/2022
Afonso de Melo

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Se soubessem...

Faz frio em Riga e há muita gente que saiu à rua para se divertir nesta primeira madrugada do fim de semana. Se soubessem por onde viajam as minhas memórias das noites em branco nunca leriam o que escrevo.

RIGA - Geralmente adormeço antes de o avião chegar ao fim da pista e de se erguer no ar como um pássaro de metal. Acho que é o ruído monótono que me provoca a sonolência. A última vez que voei na direção da Letónia, cumpria o meu trabalho como assessor de imprensa da Seleção Nacional e o Eusébio ocupava a cadeira ao lado da minha. Eusébio, o homem que estava habituado a enfrentar sozinho o mundo num campo de futebol, tinha medo de voar. Bebia o seu whisky e contava histórias. E cada uma das suas histórias era uma bênção mesmo que me impedissem de fechar os olhos e mergulhar no sono. Percorria a sua memória prodigiosa que o fazia falar de jogos de há mais de vinte anos como se tivessem decorrido na véspera. Às vezes, de malandragem, ria-se de episódios avulsos. Talvez esquecesse o medo de pairar uns quilómetros acima da superfície da Terra. Ele, que vive agora, para lá de onde voam os pássaros. Desta vez foi o João Paulo Filipe que voou a meu lado e consegui dormir como um dos querubins que deram uma ajuda ao aparelho quando foi preciso atravessar as nuvens que ninguém sabe o que escondem. Desculpa lá João, divertia-me mais a viajar ao lado do Eusébio, mas temos tempo para falar nisso mais logo, num pub qualquer, a beber essa cerveja letã (Mézpils de preferência) que é ácida e provocatória para os sabores estabelecidos. Karlis Verdins, um jovem poeta que nasceu aqui, em Riga, escreveu: “Se soubesses onde esteve a minha língua/Não me beijarias/Se soubesses tudo o que a minha boca já disse/Nunca mais me escutarias/Portanto mais vale comeres esse hot-dog e aproveitares o teu abrigo/Paguemos e vamos até minha casa/A única coisa que te posso dizer com o coração nas mãos/São duas palavras/Bon apétit”. Até para comerem hot-dogs. Faz frio em Riga e há muita gente que saiu à rua para se divertir nesta primeira madrugada do fim de semana. Se soubessem por onde viajam as minhas memórias das noites em branco nunca leriam o que escrevo.

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