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Palácio Biester. Uma história de luz e sombras

Palácio Biester. Uma história de luz e sombras

Mafalda Gomes José Cabrita Saraiva 27/04/2022 22:21

A opulência decorativa do chalet desenhado por José Luiz Monteiro esconde uma tragédia familiar. O casal de proprietários pouco gozou do luxo e conforto desta residência singular.

A vila de Sintra está em vias de possuir uma nova atração turística: o Palácio Biester, a meio caminho entre o Lawrence’s Hotel e a Quinta da Regaleira, abre as portas ao público no próximo sábado, dia 30 de abril, total e criteriosamente recuperado.

A visita oferece uma oportunidade para conhecer por dentro o ambiente opulento das grandes casas de vilegiatura das famílias abastadas.

Mas os encantos desta propriedade começam logo no exterior, no luxuriante parque de seis hectares implantado na encosta e assinado pelo paisagista François Nogré. Além de espécies botânicas oriundas dos quatro cantos do mundo (cameleiras da China e do Japão, faias verdes e vermelhas da Europa Central, acácias da Austrália, abetos norte-americanos), conta com uma pitoresca gruta natural, a Gruta da Pena, estranhas formações rochosas, uma estufa, um pequeno lago e vistas privilegiadas para o Castelo dos Mouros.

Lareiras Bordallo Pinheiro e um elevador (pouco) moderno A construção foi encomendada em meados da década de 1880 por Frederico Biester a José Luiz Monteiro, arquiteto que estudou em Lisboa, Paris (onde foi bolseiro) e Itália, entre 1873 e 1879, autor da Estação do Rossio, do Hotel Avenida Palace, ambos na capital, e do Palácio dos Condes Castro de Guimarães, em Cascais. Parece ter sido justamente à sua formação em França que Monteiro foi buscar algumas das ideias concretizadas neste chalet, como a pequena torre circular e os telhados de ardósia inclinados, típicos dos países do Norte.

O projeto seria terminado em 1890, ao fim de cinco anos de empreitada. Lá dentro, domina o estilo neogótico tão caro à sensibilidade neo-romântica, combinado com o neo-mourisco, que conheceu grande fortuna na região de Sintra, e com elementos mais modernos, como as lareiras revestidas com cerâmica de Rafael Bordallo Pinheiro ou o elevador com capacidade para quatro pessoas, montado pela equipa de Mesnier du Ponsard (autor do elevador de Santa Justa). Apesar de constituir um avanço técnico para a época, a forma como o aparelho funcionava tinha pouco de sofisticado: para o acionar eram necessários dois homens que, a partir da cave, punham em movimento uma manivela que fazia subir ou descer a cabina.

Uma história sombria Frederico Biester, cuja fortuna vinha em parte do café produzido numa roça de São Tomé, era um grande amante de teatro, e talvez por isso tenha entregado a decoração dos interiores a Luigi Manini, um italiano que, além de se notabilizar como cenógrafo do Teatro Nacional D. Carlos, também fez incursões na arquitetura – devemos-lhe o Palácio do Bussaco, em estilo neomanuelino. São da autoria de Manini muitos dos sumptuosos tetos pintados, que se combinam com vitrais, ferragens e painéis de madeira trabalhada.

O gosto evidente do proprietário pelo luxo quase ostensivo não parecia colidir de forma alguma com a sinceridade da sua fé cristã. O ponto alto do chalet é porventura a capela hiperdecorada no primeiro andar. Concebida em estilo neogótico (em referência à tradição templária de Sintra), a profusão decorativa e a explosão de cor quase folclórica contrastam, contudo, com a história sombria da família: a única filha de Frederico Biester e de sua mulher, Amélia Freitas Guimarães Chamiço, morreu muito jovem, vitimada pela tuberculose óssea. Motivo que levou os Biester, amigos do Doutor Sousa Martins, a patrocinar a construção do Sanatório de Sant’Anna (hoje Hospital Ortopédico da Parede), inaugurado em 1904 e estrategicamente posicionado para beneficiar dos bons ares que ali se respiravam.

Frederico e Amélia, de resto, também pouco gozaram do conforto da sua residência, tendo morrido quase em simultâneo, provavelmente também de tuberculose, em 1898.

Da história da família à arquitetura, tudo no Palácio Biester tem algo de cinematográfico. E o edifício foi de facto usado em 1999 para a rodagem de um filme: A Nona Porta, de Roman Polanski, que tem Johnny Depp (no papel de um ‘caçador’ de livros antigos) como protagonista. A produção retirou as portas das janelas e preencheu os vãos com livros, transformando um dos salões forrados a painéis de madeira numa biblioteca. Os entalhamentos de Leandro Braga, aliás, são justamente uma das atrações do edifício.

Galeria iniciática No piso inferior, perto do mecanismo que acionava o elevador (e da cozinha), encontra-se uma pequena câmara iniciática, escavada na rocha, que segundo os historiadores remeterá para os santuários primitivos da antiga Jerusalém. Além desta faceta, poderia ter uma função menos mística, uma vez que a galeria possui uma bifurcação que conduz ao parque.

O facto é que, por muito fortes que fossem as convicções religiosas da família Biester, os interiores da casa desenhada por José Luiz Monteiro fazem um constante apelo aos sentidos. E isso torna-a um verdadeiro repositório das artes decorativas, numa época em que este tipo de trabalhos oficinais perdia terreno para correntes mais funcionais e mais tarde, com a chegada da Grande Guerra, entrava definitivamente em vias de extinção.

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