24/06/2022
 
 
Afonso de Melo 27/04/2022
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

O silêncio do qwert

Há uma paz infinita em todo o redor, encontrei mais um lugar para me sentir em casa e respeitar as pausas da prosa.

Em vez de Sado vejo Tejo. Como dizia o divino Eça, paira sobre Lisboa um céu azul ferrete. Escrevo. Apenas silêncio brota das teclas do qwert. Pela janela do novo lugar do meu mano mais novo, Bernardo Trindade, entra uma luz que cega.

Ele encontrou o local ideal para a sua mágica loja de livros impossíveis e para prosseguir o seu sonho, que era o sonho do pai dele que o trouxe pela mão das bíblias na Rua do Alecrim. Há uma paz infinita em todo o redor, encontrei mais um lugar para me sentir em casa e respeitar as pausas da prosa. Na Travessa da Queimada, n.º 23, sede de A Bola, em tempos que já lá vão, domingos eram dias de piquete.

Colaboradores avulsos entravam pela porta larga a seguir ao almoço, cada um com a sua máquina de escrever, e sentavam-se às secretárias, junto aos telefones. Mais de metade dos redatores percorriam o país de norte a sul e ilhas na esteira das crónicas a publicar no dia seguinte. Aqueles que ficavam, juntavam-se ao grupo e a telefonista da tarde não tinha um minuto de descanso ao despejar, para cada bocal, a voz dos correspondentes que transmitiam as cabinas (palavras após os jogos), ou as descrições mais pequenas de jogos menores, tantas vezes apenas a ficha com árbitro, fiscais de linha, local e equipas de um lado e do outro intercaladas com minutos de golos e de cartões amarelos e vermelhos.

Era ainda o tempo do azert e do hcésar. As teclas das máquinas disparavam ao longo da tarde como metralhadoras enferrujadas, trazendo resultados de todas as divisões. De vez em quando, por falta do correspondente correspondente (desculpem a apizêuxis), era necessário ligar para o posto da Guarda Nacional Republicana e pedir ao agente de serviço ao campo que nos transmitisse os dados de uma partida perdida (desculpem a aliteração). As teclas do meu computador não fazem barulho. E ainda bem. Podemos sentir a pacificação que sobre do rio até aos bairros altos da capital, e tentarmos ser mais uns que veem tudo o que  lá não está. Nem que seja por um segundo..

Os comentários estão desactivados.


×

Pesquise no i

×
 


Ver capa em alta resolução

iOnline