05/10/2022
 
 
A aniquilação dos poetas ucranianos

A aniquilação dos poetas ucranianos

Diogo Vaz Pinto 13/04/2022 12:30

Desde a década de 1920 e até ao colapso da União Soviética, sucessivas gerações foram alvo de uma perseguição que teve como fim eliminar as vozes que ousaram desafiar a repressão soviética.

Perante eventos desoladores como aqueles a que estamos a assistir desde que teve início a invasão da Ucrânia pela Rússia, um lugar comum que sempre se impõe é esse que nota como a História parece condenada a repetir-se. Isso acontece porque, como notava Joseph Brodsky, tal como os homens, também ela não tem assim tantas opções. É preciso transcendê-la, superar os seus ciclos, e muitas vezes aquilo que leva os homens a adoptarem opções de fundo ético é o facto de essas se basearem menos na realidade imediata, naquilo que de concreto têm diante de si mesmos, do que na capacidade de se deixarem embalar nesses valores morais que a humanidade trafica através das suas histórias, dos seus poemas, fábulas e lendas. E é enquanto agentes dessa forma de contrabando moral que, em tempos de miséria, quando a História mais nos parece constrangida a aceitar as suas frágeis possibilidades, subitamente a cultura se vira para os poetas, esses portadores de ideal arcaicos, ridiculamente obsoletos, e talvez por isso tão persistentes.

Ora, é precisamente o desinteresse pela poesia em tempos de abundância, pela sua falta de vocação enquanto produtora de bens comerciáveis, que a coloca de parte e a protege, permitindo que se mantenha ligada a essa intuição intempestiva da natureza infecciosa da moralidade, a qual actua sobretudo nos momentos em que os homens voltam a virar-se para a cultura, a sentir a sua profunda necessidade, precisando dos seus poetas e escritores, dos seus cineastas e artistas para serem relembrados desses contos que alimentam a fibra moral em tempos que exigem especiais sacrifícios e coragem. A tarefa destes artistas não passa de forma simplória por soar o alarme, mas por segurar essa linha de fogo e garantir os meios para, na altura em que volte a ser necessário, conseguirem arrancar-nos ao estupor, a todas esses estados de dormência colectiva e íntima, e fazer-nos despertar do pesadelo da História, de modo a que a matéria dos mitos possa comover-nos à acção.

E um dos aspectos decisivos deste renovo das forças, a começar pelo reacender da esperança bem como o levar a consciência a reassumir as antigas convicções passa por obrigar os homens a não aceitarem uma dada infâmia como um facto natural da existência, ou até uma circunstância banal. “Devemos conservar uma consciência aguda da novidade do horror ou do seu retorno”, escreve George Steiner nas suas notas para a redefinição da Cultura (“No Castelo do Barba Azul”). “Devemos manter como algo de vital em todos nós um sentido do escândalo tão decisivo que afecte todos os aspectos significativos do nosso lugar na história e na sociedade. Devemos, como diria Emily Dickinson, preservar uma alma terrivelmente espantada.”

Steiner vinca ainda que a frequência amorfa da nossa habituação ao horror é uma derrota radical da humanidade. E é contra essa capitulação que os artistas seguram essa última linha de defesa, a qual deve inspirar os homens sempre que estes veem a realidade resvalar num estado de coisas catastrófico, em que se procede a um abandono de uma ordem racional humana. Mas há por aí tantas palavras, tantos relatos supérfluos que o perigo é que uma dessas horas decisivas nos surja pela frente e seja impossível reconhecer aquelas que nos podem valer. “Tantas palavras, e estas chegam a parecer-se com fantasmas aleijados!”, escreve o poeta ucraniano Vasyl Stus. “Estas soam, como balas, ao longe e à queima-roupa;/ Sucedem-se a momentos em que se instala o silêncio./ Entre palavras enganadoras eu caminho e cambaleio./ Há uma luta; estou no campo de batalha,/ Onde todos os soldados são as palavras que uso,/ E a traição é semeada por memórias que se misturam…/ Não te deixes burlar quando confias no que há de bom,/ E não te percas no charco das tuas aflições./ À medida que nos lembramos das coisas, tendemos a ficar exaustos;/ No dia em que a fadiga me tenha, morrerei e, por isso,/ É que eu me escondo nesses tons da noite invisíveis para a maioria,/ Essas zonas onde não distinguem a felicidade da ira,/ Onde os homens não vivem mas mastigam a própria morte./ Tantas palavras, e estas parecem-se com fantasmas aleijados!”

O sentido deste poema confunde-se com a própria condição de apagamento da verdadeira poesia, essa que, mais do que um breve alento, um aceno desde a outra margem feito à esperança, nos encaminha e nos relembra da antiga obstinação que fez dos homens seres capazes dos maiores sacrifícios, enquanto a febre que os dominava se mantivesse fresca. O que os grandes poetas sabem é que o tempo não esgota a nossa substância, e que este lado nocturno do momento histórico permite fazer essa travessia, reconhecer como o indestrutível, o alhures, continuam a conceber-se em nós. No ponto em que as coisas estão, notava E.M. Cioran, “só merecem interesse as questões de estratégia e de metafísica, as que nos pregam à história e as que nos arrancam a ela: a actualidade e o absoluto, os jornais e os Evangelhos…Adivinho o dia em que passaremos a ler apenas telegramas e orações. Facto digno de nota: quanto mais o imediato nos absorve, mais experimentamos a necessidade de nos firmarmos contra a sua corrente, de tal maneira que vivemos, no interior de cada instante, no mundo e fora do mundo.”

Vasyl Stus é um bom exemplo se quisermos compreender de que forma essa reserva moral que se encontra na poesia e em outras artes nunca deixou de ser levada em conta pelas autoridades daquele lado do mundo, sendo encarada justamente como essa última linha de defesa, esse esforço de firmar algo de indestrutível, aquela centelha que, mesmo a partir das cinzas, possa inspirar os sentimentos que levam uma comunidade ou um povo a resistir e a nutrir um desejo de emancipação. Este poeta morreu em 1985, findando assim um período de 13 anos enquanto prisioneiro político no campo VS-389/36-1 na região centro-oeste da Rússia, e as circunstâncias da sua morte, como aconteceu frequentemente com os artistas ucranianos presos na União Soviética, não são claras. Nascido em 1938, Stus passou a infância e a juventude em Donetsk, cidade que se chamava Stalino nos tempos soviéticos e que foi designada há uns anos a capital da “República Popular de Donetsk”, uma cidade que, mesmo antes do início do conflito no Leste da Ucrânia, depois da anexação da Crimeia, em 2014, devido à sua posição estratégica bem como à riqueza em minérios, há muito era motivo de interesse por parte do Kremlin, que não se cansava de a reivindicar na sua propaganda. A 4 de setembro de 1965, na estreia em Kiev do filme As Sombras dos Antepassados Esquecidos, Stus participou num protesto em que foi denunciada a repressão política por parte das autoridades soviéticas e as detenções de uma série de figuras de relevo da cultura ucraniana. O seu nome passaria a figurar desde então nas listas dos dissidentes, e foi subindo entre os alvos a abater ao manifestar publicamente o seu apoio ao movimento “Solidariedade”, uma união de vários sindicatos na Polónia que se insurgiram contra o comunismo. Stus viria a ser expulso do Instituto Pedagógico de Stalino, onde estudava Literatura e História. E quando publicou, em 1972, o livro Cemitério Jovial, um crítico literário ligado ao aparelho considerou-o um farol artístico para logo lançar sobre ele um clima de suspeita, assinalando passagens em que supostamente este difamava as instituições soviéticas. O tal crítico viria a participar enquanto testemunha da acusação no processo judicial que levou Stus a ser preso pela primeira vez. Nos anos que se seguiram, o poeta seria agraciado com outras distinções semelhantes, sendo encarcerado várias vezes em campos soviéticos, vendo-se afastado do filho pequeno e da mulher, mas nem isto o demoveu, tendo-se mantido empenhado em usar a palavra como uma arma de consciência, e foi nesses anos que escreveu as suas delicadas “Cartas ao Filho”, em que transmite ao filho a importância de ser corajoso e honrado, e lhe manifesta por palavras os cuidados que a ausência o impediu de lhe mostrar em muitos dos momentos mais importantes da sua infância. Quando as casrtas foram publicados em livro anos depois, após a independência, tornaram-se um modelo de educação e viriam a ganhar relevo como um desses discretos actos amorosos que ditam como é na intimidade que está a génese de todas as formas de resistência.

Este livro fez muito para que o seu exemplo se tornasse uma inspiração para as futuras gerações, mas além do que ficou escrito, há também uma noção muito clara daquilo que Stus foi, não apenas impedido de viver e escrever, mas também do que terá escrito e foi sonegado aos leitores. Num artigo para o site LitHub, o poeta ucraniano Myroslav Laiuk lembra que um dos episódios mais misteriosos da literatura ucraniana é a história de O Pássaro da Alma, uma colecção de poesia escrita por Stus nos 13 anos que passou no campo de trabalhos forçados. Sabe-se da sua existência devido às referências que surgem em cartas enviadas do campo. Sabe-se também que era composto por 40 poemas. O manuscrito foi confiscado logo após a morte de Stus e até hoje não se sabe se foi destruído, que é o mais provável, ou se permanece nos arquivos da KGB em Moscovo.

Naquele artigo, Myroslav Laiuk começa por nos falar em números, dando-nos uma ideia da forma como a Ucrânia foi forçada a contribuir ao longo das décadas para as gerações que viram os seus poetas serem dissipados. Talvez um dos aspectos mais insidiosos da forma como actuou o regime soviético tenha sido essa actividade persecutória dirigida aos centros vitais da cultura, abatendo reservas decisivas de inteligência, de têmpera nervosa, de talento político. Centenas de artistas foram aniquilados. Steiner lembra a ideia satírica de Brecht e Georges Grosz, segundo a qual tinham sido assassinadas as crianças que não chegaram a nascer. O que se perde assim é muito mais do que uma série de individualidades e obras, é todo um conjunto de potencialidades físicas e mentais, de variantes e novas formas híbridas, excessivamente rico para o podermos avaliar em termos do futuro que, assim, foi roubado, deixando em seu lugar uma versão empobrecida.

Laiuk diz-nos que, no início da década de 1930, havia 259 escritores no território da actual Ucrânia que tinham condições de publicar as suas obras na União Soviética. No final dessa década, apenas 36 restavam. O que aconteceu para que 80% dos escritores tenham desaparecido nesse período? “Dezassete foram baleados, oito cometeram suicídio, sete morreram de causas naturais e 175 foram presos e colocados em campos. Outros dezasseis foram dados como desaparecidos”, remata Laiuk. Se estes números são suficientemente eloquentes para nos dar uma ideia da atitude da União Soviética em relação à elite cultural ucraniana, este processo de aniquilação selectiva provou ser muitíssimo eficiente ao impor um silêncio cultural entre 1920 e até ao final da década de 1980, pouco antes do colapso da União Soviética. Laiuk adianta ainda que, apesar da repressão, houve focos de resistência, e, na década de 1960 em particular, houve uma nova geração que por uns tempos conseguiu trazer de volta um espírito de insolência e de renovação artística sem estar submetida aos ditames do aparelho soviético. É claro que isso durou o suficiente apenas para que as autoridades fossem convencidas de que estes artistas eram dignos da sua melhor atenção. Assim, “o poeta Vasyl Symonenko foi espancado até a morte, o artista Alla Horska e o compositor Volodymyr Ivasiuk morreram em circunstâncias estranhas, e muitos outros foram presos, internados de forma compulsiva em hospitais psiquiátricos e proibidos de publicar”.

Desde o fim da União Soviética, esta forma de guerra ao futuro terminou, e isso tem permitido que nas últimas décadas uma nova geração de artistas e poetas tenha podido finalmente afirmar-se sem receio de que um poema seja o suficiente para se ser alvo de perseguição, um poema como este de Lyudmyla Khersonska (poeta nascida em 1964 e que vive atualmente em Odessa): “Quando um país de pessoas – no geral – simpáticas/ se vai tornando – aos poucos – fascista,/ essas pessoas não se dão todas conta dessa transformação de uma vez.// Do mesmo modo como uma pessoa que conhecemos intimamente/ enfrenta, ao nosso lado, o processo gradual/ e impercetível que é envelhecer. Impercetivelmente, novas rugas/ recortam a pele assustadoramente fundo.// As pessoas simpáticas cumprimentam-se quando se cruzam umas com as outras/ e tentam, cada vez mais e mais, baixar os olhos,/ até que, finalmente, levantá-los se torna um gesto/ desumano.”

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