24/06/2022
 
 
José Cabrita Saraiva 05/04/2022
José Cabrita Saraiva
Opinião

jose.c.saraiva@ionline.pt

Podemos tomar as imagens das atrocidades pelo seu valor facial?

Quem sabe ao certo o que se passou? O problema é que já ninguém acredita nos russos. Putin também jurava a pés juntos, nas vésperas da invasão, que se tratava apenas de exercícios militares. Dizia que o Ocidente é que estava histérico. E até anunciou a retirada das tropas da zona próxima da Ucrânia.

É um pouco estranho que, face às imagens e relatos das atrocidades que nos chegam de Bucha, nos arredores de Kiev, a primeira reação da Europa seja pedir novas sanções contra a Rússia.

É estranho, em primeiro lugar, porque pensaríamos que essa via já se encontrava mais ou menos esgotada. Se não estava esgotada, pode concluir-se, é porque a Europa ainda não fez tudo o que estava ao seu alcance.

Em segundo lugar, parece pífio responder a uma carnificina com ameaças de teor económico. É certo que não se pode exigir algo como uma política de “olho por olho, dente por dente” – ou acabaria tudo, como notou alguém, cego, e desdentado, já agora. Mas exigia-se uma resposta mais consentânea com a gravidade dos factos.
Joe Biden, que acusa Putin de ser um criminoso de guerra, disse ontem: “Todos viram o que se passou em Bucha”. É verdade: o mundo viu e ficou chocado. Mas será que podemos tomar as imagens pelo seu valor facial? Os russos garantem que foi tudo encenado.

E até pode ter sido. Quem sabe ao certo o que se passou? O problema é que já ninguém acredita nos russos. Putin também jurava a pés juntos, nas vésperas da invasão, que se tratava apenas de exercícios militares. Dizia que o Ocidente é que estava histérico. E até anunciou a retirada das tropas da zona próxima da Ucrânia.

Ora, este tipo de mentira descarada comprometeu completamente a sua credibilidade. E, pior, torna muito mais complicadas as negociações. Depois disto, quem vai confiar na sua palavra?

Quanto ao massacre de Bucha, pode ser ou não aquilo que parece. Mas não tenhamos dúvidas de que Putin é capaz disso e de muito pior. Há 20 anos, em outubro de 2002, as forças especiais russas não hesitaram em matar cerca de 150 pessoas que tiveram o azar de ir assistir a uma peça de teatro no dia errado, e acabaram feitas reféns por um grupo de militantes chechenos. Se os russos fizeram isso aos seus próprios compatriotas inocentes em tempo de paz, por que não haveriam de fazer pior ao inimigo em tempo de guerra?

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