20/05/2022
 
 
Alain Delon. Um adeus premeditado

Alain Delon. Um adeus premeditado

AFP Sara Porto 22/03/2022 19:07

Conhecemo-lo por ser considerado uma lenda do cinema francês. Mas por trás do artista, existe sempre o homem e, por trás das luzes existem sempre as sombras. Alain Delon, atualmente com 86 anos, pediu recentemente ao filho para o ajudar a morrer num momento em que Anthony Delon desenterra os fantasmas do passado na sua autobiografia ‘Entre o Cão e o Lobo’.  

O ator Anthony Delon, de 57 anos, filho da lenda do cinema francês Alain Delon, revelou esta semana que o seu pai, que completou 86 anos em novembro, decidiu acabar voluntariamente com a sua vida.

Segundo o mesmo, em entrevista à revista francesa Le Point, na véspera do lançamento da sua biografia Entre chien et Loup, em português Entre Cão e Lobo – onde recorda episódios da sua infância e aborda a relação com pais – Alain vive na Suíça desde 1978, onde o suicídio medicamente assistido é legal, e foi ele mesmo que lhe pediu para organizar todo o processo e acompanhá-lo nos seus últimos momentos de vida. O pedido terá vindo no seguimento daquilo que Anthony fez com a mãe.

O ator tomou conta de Nathalie Delon, ex-mulher de Delon, na sua “reta final”. A também atriz francesa morreu em janeiro de 2021 de cancro no pâncreas, aos 79 anos. “Sim, acompanhei a minha mãe. E é verdade que ela decidiu morrer como viveu, ou seja, quando decidiu, optou pela eutanásia”, explicou Anthony, na rádio RTL, a 13 de março. Apesar de ter tratado de todo o procedimento e se sentir preparado para isso, não foi necessário fazê-lo: “Felizmente, não recorremos ao procedimento. Digo felizmente, porque tudo estava pronto. Nós tínhamos a pessoa para o fazer”, revelou. 

Sem medo da morte Alain Delon anunciou o fim da sua carreira em 2017. Dois anos depois sofreu um duplo AVC e, já por diversas vezes, havia manifestado ser a favor do procedimento. “Sou a favor da morte medicamente assistida. Primeiro porque moro na Suíça, onde o procedimento é legal, e também porque acho que é a coisa mais lógica e natural a se fazer”, disse o artista numa entrevista a um canal de televisão suíço. “A partir de uma certa idade, de um certo momento, a pessoa tem o direito de ‘sair’ tranquilamente, sem passar por hospitais, injeções e o resto”, explicou o artista. Na mesma entrevista, o ator chegou mesmo a contar que já tem o seu testamento pronto, com a partilha da sua herança definida.

Depois de sofrer o duplo AVC, Delon tem recuperado aos poucos e já se sente muito melhor, embora tenha de andar de bengala, mas isso parece não ser o suficiente para que mantenha a vontade de viver. “Envelhecer é uma merda!”, admitiu pouco antes de ser hospitalizado nesse ano. “Não podemos fazer nada. Perdes o teu rosto, a tua visão. Levantas-te e o teu tornozelo dói”, explicou. 

Quando tinha 82 anos, à revista Paris Match, o ator já havia contado a sua “relação” com a morte e admitido que já tinha o seu funeral organizado. “Não tenho medo da morte”, afirmou à jornalista Valérie Trierweiler. Na altura, o seu medo era sobretudo morrer antes do seu cão Loubo: “Ele é o meu cão para o fim da vida. Um pastor belga que eu amei como uma criança”, confidenciou. “Se ele morresse antes de mim, não aguentaria mais (...) Se eu morrer antes dele, vou pedir ao veterinário para que ele venha comigo. Vai picá-lo para que ele morra nos meus braços. Prefiro isso a saber que ele se deixará morrer no meu túmulo com tanto sofrimento”, acrescentou.

Na sua casa em Douchy, uma propriedade de 55 hectares localizada no Loiret, Delon revelou que já tinha planeado ser enterrado na capela, perto das 50 sepulturas dos seus cães: “Há cinco lugares planeados em torno da sua abóbada, localizada logo atrás do altar. Vamos ver quem se vai juntar a mim mais tarde”, descreveu, acrescentando que só queria que estivessem presentes na cerimónia cerca de quinze parentes. 

Depois das recentes declarações do seu filho aos meios de comunicação franceses, o artista fez questão de explicar no seu perfil oficial no Instagram a sua decisão de morrer através do suicídio assistido. “Tomei a minha decisão há muito tempo, acredito que a minha vida foi bonita, mas também difícil”, escreveu na rede social. Delon aproveitou essa partilha para reforçar a maneira como tem lidado com o envelhecimento: “Nunca gostei de envelhecer, todas essas dores e desafios com que devemos enfrentar o quotidiano acabam por me deixar imóvel diante tudo”, elucidou. 

O suicídio medicamente assistido é permitido na Suíça desde 1942. Ao contrário daquilo que muitos pensam, este tipo de procedimento é diferente da eutanásia, que não é autorizada no país. A principal diferença entre as técnicas é quem realiza o “ato final”. Na eutanásia, outro indivíduo realiza a ação para acabar com a vida de alguém e assim parar o seu sofrimento, mesmo que a pedido do paciente. No suicídio assistido, uma outra pessoa apenas auxilia alguém a tirar a própria vida. Nesse caso, o ato de ingerir ou administrar o medicamento letal é realizado pelo paciente. Aqueles que ajudam a pessoa a morrer não precisam de ser médicos, mas o motivo do auxílio tem que ser “altruísta”. De acordo com a lei suíça, não é preciso ter uma doença terminal para solicitar a chamada morte voluntária assistida. No entanto, é preciso ter a mente sã e ter expressado um desejo consistente de encerrar a sua vida.

Uma infância perdida Segundo a Le Point, Entre o cão e o Lobo, de Anthony Delon, “é tanto um grito de amor quanto um balanço de todas as contas”. Muito porque, ao que parece, o ator viveu uma relação conturbada com o seu pai durante a sua juventude. “Desde os 10 anos que o meu pai me tentou muitas vezes inferiorizar e enfraquecer, idade em que me tornei homem, segundo ele”, revela nas páginas da sua autobiografia. “Não acho que ele me quisesse destruir. Queria sim subjugar-me. Como numa alcateia, onde o clã se deve curvar perante o líder. Mas conscientemente ou não, a destruição estava em ação”, lembrou, fazendo depois referência a uma situação mais violenta vivida numa das refeições que faziam em família.

“Depois de duas ou três chamadas de atenção, tomado por uma raiva repentina, agarrou no meu prato e o jogou-o pela janela. Ação acompanhada por um: ‘Vai para o teu quarto!’”. Mas o pesadelo estava longe de terminar. Segundo Anthony, Alain, pegou no seu grande chicote de couro. “Não me lembro de nenhuma dor física, mas as palavras deixaram grandes cortes que demoraram muito a cicatrizar: ‘Eu nem bato nos meus cães com este chicote!’, disse-me ele entre os golpes”, lamentou o artista. Outro dos momentos expostos pelo artista no livro, foi a noite em que, aos 12 anos, Alain quis testar a sua coragem: “Prova-me que tens bolas, dá a volta ao lago no escuro”, exigiu-lhe. “Ele sabia muito bem que eu tinha medo do escuro, sem contar que o lago fica a 300 metros da casa, no meio da floresta que tem 5 hectares. Contorná-lo equivalia a uma caminhada de vinte e cinco minutos no meio do frio do inverno numa noite escura”, escreve no livro. 

Aos 15 anos, depois do divórcio dos pais, o ator decidiu ir morar com a mãe, o que foi aos olhos de Alain, uma traição. Ao ouvi-lo em tribunal, conta, o pai atirou-se para cima de si: “Ainda posso ouvir a minha mãe a gritar o seu nome enquanto o agarrava pelos ombros para puxá-lo para trás e ele me apertava a garganta e me impedia de respirar”, lembrou. 

Em 1982, quando soube que o seu filho havia sido convidado pela Mitsubishi para promover a marca, Alain disse: “Se fizeres isso, terás um inimigo na terra, o teu pai!”, revelou Anthony que explicou depois disso, ter dado “um passo atrás”. “Eu não tinha medo de um possível conflito, mas a ideia de dececioná-lo tomou conta de mim”, admite. O artista revela ainda que acredita que vê-lo crescer, assistir ao auge da sua vida, criou um sentimento de ciúmes e frustração profunda pela parte do seu pai, já que, nessa altura, este não já não ia para novo.

O artista acredita, contudo, que o pai o desejou, o quis e o amou loucamente até os quatro anos de idade, momento em que Nathalie o deixou. Foram necessários todos estes anos para que os dois conversassem e se respeitassem. Além disso, revela que antes de morrer, Nathalie deu um último recado ao ex-marido em frente à câmara com a qual o filho está a filmar um documentário: “Alain, estou a ir-me embora. Ama o teu filho como eu o amo. Esquece as diferenças!”, disse a atriz. E as feridas parecem já ter sarado. Anthony reconhece hoje que acabou o tempo de conflitos com o pai, explicando que na família “os personagens sempre se afirmaram”. “Ele, como eu, distanciou-se muito disso, do nosso passado, destes conflitos, estamos em paz com tudo!”, confidenciou à RTL, especificando que o pai leu o livro antes da publicação. 

Considerado uma lenda do cinema francês e europeu, Alain Delon participou em cerca de 80 filmes durante o meio século que durou a sua carreira. Foi dirigido por grandes cineastas como Jean-Pierre Melville, Luchino Visconti, Joseph Losey, ou Michelangelo Antonioni. Desempenhou papéis de relevo em O sol por testemunha, em 1960, Rocco e seus irmãos, em 1961, O leopardo, em 1963, O samurai, em 1968 entre muitos outros. Astérix nos Jogos Olímpicos foi o último filme em que participou, em 2008.

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