20/08/2022
 
 
Inflação. Venezuelanos em Portugal enfrentam fantasma do passado

Inflação. Venezuelanos em Portugal enfrentam fantasma do passado

Dreamstime José Miguel Pires 18/03/2022 15:14

O preço dos bens de consumo em Portugal está a aumentar, devido, entre outros fatores, ao aumento dos combustíveis e à invasão da Ucrânia. Os luso-venezuelanos são velhos conhecidos da inflação e agora, em Portugal, voltam a enfrentar o aumento galopante dos preços. Recusam, no entanto comparar as realidades dos dois países.

Entre 2016 e 2019, segundo dados do Banco Central da Venezuela, a inflação no país atingiu os 53.798.500%. Uma realidade que acompanha todos os venezuelanos pelo mundo, e que levou milhões a fugir do país à procura de uma vida melhor. Entre eles estão milhares de luso-venezuelanos que agora, em Portugal, são novamente confrontados com um aumento galopante do preço dos bens – desde os combustíveis até ao pão.

Os combustíveis são mesmo o tema mais peculiar, até porque, em tempos, na Venezuela, sob os preços regulamentados pelo Governo de Nicolás Maduro, encher o depósito de um veículo chegava a ser tão barato, em 2019, por exemplo, que os utilizadores optavam por pagar aos funcionários das bombas de gasolina com sacos de arroz, farinha ou até cigarros, já que em dinheiro era quase impossível ter notas de tão baixo valor.

Agora, vários luso-venezuelanos que regressaram ao país dos seus pais – ou avós – enfrentam, novamente, a realidade de ver as etiquetas dos preços mudar, assistindo a aumentos que chegam aos 20 ou 30%. Longe, no entanto, das taxas de inflação registadas na Venezuela nos últimos anos, muitas nas casas dos milhares – e até dos milhões de pontos percentuais – todos os anos.

Ainda assim, o fantasma persegue estas pessoas. Apesar de admitirem ser ainda ‘exagerado’ comparar a situação venezuelana com a que se vive atualmente em Portugal, no que toca ao aumento dos preços, esta é ainda uma realidade que assusta.

Jorge Correia é o homem por trás do Matsuri, um dos primeiros e mais conhecidos restaurantes de sushi na cidade de Aveiro, fundado em 2009. Tal como muitos, divide a sua vida, a sua história e o seu ambiente entre Portugal e a Venezuela. Jorge chegou à terra dos seus pais nos anos 90 e, agora, enfrentando um aumento no preço dos ingredientes que utiliza no seu restaurante – que vai dos 30%, no mínimo, aos 100% – faz uso das aprendizagens trazidas e da experiência de lidar com inflação e escassez de produtos, dois conceitos familiares aos venezuelanos, durante longos anos.

“Sem dúvida que a experiência da Venezuela está relacionada com esta preparação que temos para lidar com a inflação. Tenho visto colegas meus do setor que também são da Venezuela e que também têm esta mentalidade, e que dizem que as crises os ajudam a reinventar-se. Nós já viemos um bocado com essa reinvenção ‘de origem’, e agora mais que nunca estamos a aplicar esses ensinamentos. Muita gente da Venezuela vai contornar e minimizar esta crise com mais experiência do que as pessoas para quem uma crise destas é uma novidade”, diz ao i. Considera, no entanto, ser ainda demasiado cedo para fazer comparações entre as colossais taxas de inflação registadas na Venezuela e o aumento dos preços que se tem feito sentir em Portugal nos últimos anos e, especialmente, nos últimos meses. “Acho que ainda é cedo para comparar as situações. A situação da Venezuela foi diferente, até geograficamente. Não foi por escassez, foi mesmo por má gestão da economia e de como eram tratados os países vizinhos. Neste momento não. Estamos a assistir a algo que não acontece só cá, mas sim a nível mundial. Na Venezuela, foi um assunto só ali do país, com inflações de mil, dois mil por cento ao ano, e eu não acredito que cheguemos a isso”, defende o empresário. Mas deixa um aviso: “Acredito que sim, que haverá produtos, fora dos que eu uso também, que vão aumentar 100%. Tendo em conta a situação atual, vai acontecer, e até mais.”

A resposta para lidar com o aumento dos preços? “Compras agressivas.” O ‘calo’ ganho com a experiência venezuelana transforma-se, agora, num estilo de ‘vantagem competitiva’ dos venezuelanos em Portugal, país acostumado a baixas taxas de inflação. Mesmo antes da pandemia da covid-19, revela Jorge Correia, a equipa do Matsuri decidiu investir em compras em grandes quantidades para atacar os preços dos produtos e alcançar maiores margens de lucro, conseguindo assim promover preços mais baixos na ementa do restaurante. Uma estratégia que, agora, “até deu jeito”. Afinal de contas, permite-lhe manter-se durante mais alguns meses com “estofo” para lidar com o aumento do preço dos ingredientes, para o qual não prevê um fim no futuro próximo.

“Fizemos isto para ter mais dinheiro, mas com o passar do tempo percebemos que a inflação está a acelerar, com a pandemia disparou e agora é uma desgraça. Temos de encará-la e tentar minimizá-la, e para isso tem servido esta política de fazer compras em grandes quantidades, bem como ir diretamente aos produtores, cortando os distribuidores”, explica, lamentando ainda que vai ter de “inevitavelmente aumentar os preços”. A estratégia, ainda assim, tem ajudado “a que não tenham de ser aumentos tão agressivos”. “A ideia inicial não era esta, mas acabou por jogar em nosso favor com isto da inflação, e como já temos alguma experiência, conseguimos lidar e temos um estofo”, conclui.

 

Jovens preocupados

O temor e a experiência relativos à inflação são tema dos mais ‘crescidos’, mas não é por isso que os jovens luso-venezuelanos que estão em Portugal deixam de afinar o ouvido quando ouvem falar em aumentos de preços. José Manuel da Costa, de 23 anos, nasceu na Venezuela, chegou a Portugal, terra dos seus avós, em 2012, e trabalha numa agência de media. A inflação é um conceito que conhece desde criança, e, agora, é novamente uma realidade que enfrenta no seu dia-a-dia, apesar de ressalvar ser ainda num nível muito inferior aos vividos no seu país natal.

“A inflação é um conceito que está muito claro na mente dos venezuelanos», revela. “Convivemos com ela há muito tempo e acho que nascer e crescer lá, nos últimos 20 anos, deveria ser equivalente a ter um curso em Economia, já que és obrigado a perceber e conviver com conceitos que no resto do mundo só existem na teoria, tal é a absurdez deles... ou então, porque são coisas do passado”.

Ao i, diz sentir, desde o último ano, “uma inflação algo representativa em Portugal, especialmente nos produtos alimentares e na fatura da eletricidade”. As previsões pouco positivas do Banco Central Europeu e do Sistema de Reserva Federal norte-americano, que “começam a tirar a palavra ‘transitória’ do discurso”, são os fatores que deixam o luso-venezuelano “cada vez mais nervoso relativamente ao que virá nos próximos anos”.

José Manuel aponta o dedo à “falta de líderes políticos capazes de entender e tomar decisões políticas corretas, que possam ajudar a estabilizar a inflação”.

Ainda com a ‘cicatriz’ da inflação venezuelana em mente, diz estar especialmente preocupado com a inflação elevada, vivendo em Portugal, um país “onde a grande maioria das pessoas vive de salário em salário, tem pouca riqueza e poucas poupanças ou investimentos para atenuar o impacto da inflação”. “Com isto quero dizer que são os pobres que sofrem com a inflação e Portugal tem muitos pobres. Isso é preocupante porque para muitas pessoas o aumento dos salários não será suficiente para acompanhar o aumento do custo de vida, o que significa uma perda na já deteriorada qualidade de vida dos portugueses”, continua, augurando “o crescimento da criminalidade, discursos populistas, de esquerda ou de direita, e problemas de saúde física e mental das pessoas mais vulneráveis”.

O luso-venezuelano vai fazendo questão de recordar, ainda assim, que os paralelismos entre a inflação sentida na Venezuela e em Portugal são ainda longínquos, sendo o caso do país latino-americano muito mais grave. Mas a experiência deixa – e o jovem trabalhador confirma-o –, além de cicatrizes, aprendizagens. “As lições aprendidas com uma hiperinflação como a da Venezuela podem ser em duas áreas. Individualmente ou coletivamente. No nível individual, aprendi que é preciso estruturar e diversificar a nossa riqueza em setores que não podem perder valor, como o imobiliário, ouro, empresas do setor de alimentos de consumo não cíclico, outras moedas menos inflacionárias, entre outros. E, a nível coletivo, acredito que é necessário criar uma consciência coletiva de que a inflação é um fenómeno puramente monetário e que não é possível continuar com estas políticas dos últimos 10 anos de gastos públicos crescentes com deficits cada vez mais absurdos, que, como a história nos mostra, terminam no empobrecimento da população.”

Sobre se acredita que a situação poderá tornar-se ainda mais difícil no país, José Manuel não hesita: “Sim, pode ser muito pior se as decisões certas não forem tomadas”.

 

Preocupações

A inflação está presente nos mais variados setores do país, e a metalomecânica não passou impune. Filho de portugueses, Joaquin Martins Almeida nasceu na Venezuela e regressou ao país dos pais há mais de 10 anos. É empresário daquele setor e, sobre o conceito da inflação, alinha com as posições dos outro luso-venezuelanos ouvidos por este jornal: a comparação é impossível, mas há, claro, um ensinamento que fica, e que dá um ‘estofo’ para saber lidar com o galopante aumento de preços. “Mais que inflação, o que me preocupa é a falta de matéria-prima que pode acontecer”, avisa, revelando que esta é já uma realidade.

“Vamos ter coisas com 20 e 30% de aumento, e pode chegar aos 300%. Agora, isto não é produto daquelas típicas inflações, pelo menos até agora, de impressão de moeda sem produtividade”, avisa, recordando a realidade venezuelana, com a sua moeda própria e a inflação resultante da impressão de mais divisa.

Sobre a ‘preparação’ que vem da experiência venezuelana, além dos ensinamentos sobre como enfrentar a inflação, há uma aprendizagem acima de todas: “Sabemos que a vida continua. Estejamos mais pobres ou mais ricos. A inflação é assim: ou se é mais pobre, ou mais rico. Não há mais nada que dizer. A maioria fica mais pobre e depois há sempre alguns que ficam mais ricos. Por exemplo, não há trigo vindo da Rússia, e agora quem não conseguia vender à Europa vai vender, e vai vender ainda mais caro”.

A apreensão existe, e prende-se com eventuais obstáculos que a inflação possa colocar nas cadeias de abastecimento da indústria mundial, ou porque faltam chips, ou porque faltam componentes ou outros elementos nas linhas de montagem. “Há dois tipos de pessoas agora: a malta mais velha, que compreende perfeitamente, porque viveram momentos piores – sem ser dramáticos – e conseguem ter alguma calma. O problema é que, dos 30 para baixo, temos pessoas que têm uma conexão com o mundo, com intervenção política, mas também temos outra metade perigosa, que só agora é que possivelmente vai acordar, porque achava que o mundo estava no Instagram e no Facebook a um clique de distância”, conclui.

 

Valores milionários

Para melhor compreender a natureza das preocupações dos luso-venezuelanos relativamente ao aumento dos preços em Portugal, recorde-se que a Venezuela chegou a ser o país com as maiores taxas de inflação do mundo. Agora, o país sul-americano está a dar lentos passos a caminho da estabilização deste indicador, mas, em 2018, por exemplo, a taxa de inflação anual chegou aos 130.060%, segundo dados do Banco Central da Venezuela. Já segundo a informação veiculada pela Assembleia Nacional do país – não-alinhada com o regime de Maduro – a inflação anual na Venezuela, em janeiro de 2019, chegou ao valor mais alto de sempre: 2.688.670%.

O valor mais impactante é a inflação acumulada de quase 54 milhões por cento registada entre 2016 e 2019. Dados pesados que trazem às mentes dos luso-venezuelanos o amargo sabor de não ter ideia de quanto custará uma ida ao supermercado daqui a duas semanas.

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