05/10/2022
 
 

A sedução não é para ter filhos

O que tem a segurança do corpo a ver com sedução? Esta história do selo faz-me lembrar, automaticamente, as licenças de isqueiro e outras proibições do tempo do Estado Novo. 

Ponto prévio. Abomino qualquer tipo de comportamento que ponha em causa o bem estar dos outros. O sexual, ainda mais. Mas desde que o mundo existe que sem as pessoas se insinuarem às outras não há contacto entre dois seres.

Por isso, parece-me completamente despropositada a recomendação que foi aprovada na Câmara de Lisboa de que exista um “Selo de Espaço Livre de Assédio” nos espaços de diversão noturna. A proposta do BE, os maiores fundamentalistas que existe nesta matéria, foi defendida pela deputada Leonor Rosas.

“Os espaços noturnos são muitas vezes palco de assédio, importunação sexual ou aproximações indesejadas que põem em causa o nosso bem-estar. Evitar casos de violação ou assédio implica um sistema eficiente de resposta a estas situações e é esse sistema que queremos criar”, defendeu o BE. Isto é o que se chama misturar alhos com bugalhos.

O que tem a ver a insinuação com casos de violação? Quererá o BE que os frequentadores dos espaços de diversão noturna apresentem uma declaração à entrada de que não vão olhar para os outros e que estão proibidos de meter conversa com os outros convivas?

Este fundamentalismo, e volto a frisar que nada tem a ver com casos de importunação sexual, demonstra bem o que algumas almas pensam sobre a liberdade de as pessoas tentarem conhecer outras. “A segurança dos nossos corpos é o primeiro passo para a fruição da cidade em todas as duas dimensões. Os selos são um passo importante que precisamos de dar agora para que sejamos donas dos nossos corpos”, acrescentou a deputada municipal.

O que tem a segurança do corpo a ver com sedução? Esta história do selo faz-me lembrar, automaticamente, as licenças de isqueiro e outras proibições do tempo do Estado Novo. Penso que quando em França se falou numa situação idêntica, figuras como Catherine Deneuve assinaram uma petição contra tal regra. Diziam as signatárias “que violação é crime, tentar seduzir alguém não o é”.

De facto, muita falta fazem figuras como Natália Correia que não deixaria de fazer um poema dedicado aos autores de tal recomendação.  

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