20/05/2022
 
 
Don DeLillo. E se a tecnologia desse o berro?

Don DeLillo. E se a tecnologia desse o berro?

Pedro Miranda 21/02/2022 14:22

Na novela-tese O Silêncio, o escritor norte-americano ficcionaliza o que ocorreria se um bug tecnológico suspendesse o regime em que nos encontramos submersos.

Uma imagem: uma sala de uma casa nova-iorquina. Um ecrã televisivo ligado, a centrar todas as atenções. Um homem sentado no sofá, vidrado na tela. Dia de final do Super Bowl. 2022. Bug tecnológico. Apagão geral. Elevadores, telemóveis, frigoríficos, metro, aviões, tablets, telefones fixos, autocarros, aquecimento central, fogão, luzes, portáteis, off. Tudo off. Max Stenner na poltrona, televisão imersa na escuridão absoluta, sala de estar da sua casa nova-iorquina. Stenner, mesmo sem imagens, relata o jogo, a final do Super Bowl. Uma torrente de palavras, incontrolável, escapa-se-lhe, violentamente, da boca. Ei-lo, na sala, televisão às escuras, nada funciona, a reproduzir os anúncios publicitários. Nele se detecta, impressivamente, “um nível radiofónico incorporado no mais fundo do insconsciente”, décadas de discurso tribal “turvado pela natureza do jogo”. 

Stenner, aparentemente, não aguenta o silêncio que emerge do apagão geral; ainda antes do mais sofisticado desenvolvimento de uma tecnologia de ponta, o cidadão nova-iorquino parece, já, canibalizado pelos media, um em concreto, a rádio, com o qual se funde, pois, ao nível das águas mais profundas - o inconsciente captado pelas antenas fm. Aquela dependência, indissociável do jogo (e, neste, das apostas, a bom dinheiro, na equipa favorita), é certo, gera não apenas a fantasia de um relato da final do SuperBowl vívido e vivido (o homem, o jogo, a rádio, a masculinidade desportiva transportada pelo autor, agora, para “Silêncio”), como incorpora os próprios anúncios publicitários, falha e falta, afinal, definitiva de toda a imaginação - colonizada pelo grande bazar de reclamos. Ainda antes dos implantes tecnológicos, da física fusão Homem-máquina (ou Homem-pequenos artefactos que aumentarão uma dada performance, em realidade por delinear e esclarecer, porque a ideia de “melhorar o humano” parte de uma dada imagem deste, que se crê vir a ser potenciada; mas não será, mais, de uma pretendida “superação”, talvez, do que de um suposto “melhoramento” humano que se cuidará?), não temos, aqui já, o humano sequestrado? E que dizer, na boca de cena, da incapacidade de diálogo de Max Stenner, a conversa perdida, o linguajar com recurso, exclusivo, a um núcleo de frases padronizadas, banais, marca branca? A imagem proposta em Silêncio (Relógio d’Água, 2021) denunciará, também, a própria incapacidade da linguagem?

Note-se que Max, embora pareça, não está só, na sala. Nela, encontram-se a sua mulher, Diane Lucas, uma professora de Física aposentada, e um antigo aluno desta, apaixonado por Einstein, Martin Dekker – a que se juntarão, de resto, Jim Kripps, perito de companhia de seguros, e Tessa Berens, poetisa caribenha-europeia-asiática, amigos do casal anfitrião, que chegam de uma atribulada viagem de Paris (em função, já se vê, do crash tecnológico), com uma aterragem forçada do avião com asa em chamas, provocando atraso e ferimentos à parelha também convidada para assistir à final do futebol americano. Ora, entre todos os convivas, em realidade solitários impenetráveis (“será que cada qual era um mistério para os outros, por mais íntimos que fossem os laços que os uniam, cada indivíduo tão naturalmente metido no seu casulo que ele ou ela se furtava a um veredicto final, a uma avaliação categórica por parte dos outros ali presentes na sala?”), a conversa jamais florescerá, uma impotência e incapacidade comunicacional sobrevêm, (mutuamente) desconhecidos eis a sua (nossa) condição: longos, raros, estranhos, esquisitos monólogos sucedem-se, incluindo extensas citações (de Einstein) em alemão, em passo literário que foi já comparado ao teatro do absurdo de Ionesco ou de Beckett. 

Estamos tão dependentes da tecnologia que, em esta colapsando, sem se saber ao certo por quanto tempo, mas com duração bastante para lá das pontuais brechas que aceitamos com certa benevolência, não provoca menos do que uma angústia existencial: e agora? Agora, por exemplo, os nossos “chamados” vizinhos, passam a ser, pela primeira vez, vizinhos (mesmo) – e, inclusive neste “salto em frente”, basta observar os gestos e as palavras, lacónicas, arrancadas, heroicamente, a ferro a quem as não sabia existentes (no interior de si mesmo), expõe a frigidez extrema das relações e da comunicação a que chegámos (atente-se, aliás, que no decurso da troca de palavras, mesmo que rarefeita, entre Diane e Martin, aquela prefere realizar no seu cérebro, e não na doação mútua de corpos (e almas), o acto sexual que vislumbra entre ambos). Não surpreende, por isso, que, para além da indiferença, do desconhecimento mútuo, da ausência de nome e rosto dos vizinhos durante décadas, até no momento em que, finalmente, de modo deliberado, nos cruzamos e, nesse instante, resgatamos aquele mínimo de pertença comum, deixemos, ainda que num lance inadvertido (mas, por isso mesmo, mais revelador do que em nós se encontra incrustado), o pensamento escapar para a consideração de que alguém possuir um telemóvel implantado no corpo seria uma importante “protecção contra o silêncio global”. O relato fantasmagórico de Stenner da final do SuperBowl não deixa, adicionalmente, de poder interpretar-se como não apenas uma falha relacional, a incapacidade de qualquer diálogo, o fim da conversa, como, ademais, a supressão da possibilidade de solilóquio, a rejeição do estar consigo (próprio): a narração compulsiva do jogo oferece-se como leitura de uma caça aos espectros da fobia social e da fobia de se encontrar sentado num quarto consigo mesmo. 

O silêncio (das ruas), a imagem que ocorreu a Don De Lillo antes da escrita (deste seu mais recente livro), fascinante e tremendo, entre a respiração que a contínua azáfama e aceleração que o tecnológico impulsiona de sobremaneira abafa, sem espaço a uma escuta última do nuclear e íntimo, e o deserto real, o crash social, a vida como que suspensa em virtude do determinismo tecnológico (em que nos colocámos). 

Em concreto, o que se passara naquele dia? “Seja lá o que for que se passa, esmagou a nossa tecnologia. O mundo em si parece-me desactualizado, perdido no espaço”. Montras de lojas barricadas, prédios de escritórios vazios, táxis desaparecidos. Novas palavras regurgitadas de um mundo (pós?) digital – como, por exemplo, “sem-email”. Sim, anormalidade absoluta: “noutros tempos, mais ou menos banais, há sempre pessoas de olhos postos cravados nos seus telemóveis, de manhã, ao meio dia, à noite, em pleno passeio, alheios a todos os que se cruzam apressadamente com elas, absortas, hipnotizadas, devoradas pelo dispositivo, ou então caminhando direitas a ele para depois se desviarem no último instante, mas agora não o podem fazer, todos os viciados digitais, os telemóveis foram abaixo, tudo foi abaixo abaixo abaixo”. As pessoas descobrem-se, neste contexto, a sair à rua e, bem mais, talvez suspeitem da necessidade do outro, naquele ínterim, no mínimo é um intervalo a realidade que vimos reportando, com “todos a fazerem companhia uns aos outros para suportarem a insónia maciça deste tempo inconcebível”.

Em realidade, impõe-se, aqui, um novo questionamento: a centralidade da tecnologia no modus vivendi desta sociedade é absoluta. Em assim sendo, isso significa uma confiança tão cega como inquestionada nesta e no seu (bom) funcionamento e, bem assim, e por ora (quase a finar-se, supõe-se), domínio humano sobre a mesma. Mas teremos motivos suficientes para tanta confiança – seja na infalibilidade da tecnologia, seja no nosso manejo, impecável, da mesma? “Onde estão o voto de confiança a fiabilidade dos nossos dispositivos seguros, das nossas capacidades de encriptação, dos nossos tweets, trolls e bots? Será que todos os componentes da datasfera estão sujeitos a distorção e a roubo? E será que só nos resta ficar aqui pasmados, a chorar a nossa triste sorte?”.

Quando as personagens, ou o narrador em jogo, referem, relativamente ao crash tecnológico, que o mundo ficou “desactualizado”, ou que este passa a ser um “tempo inconcebível” talvez possamos dizer que o autor coloca nas “falas” daqueles um certo aroma a um deslumbramento tecnológico que perpassa os (nossos) dias – a vida não faz sentido com este desligar da tomada tecnológica (“inconcebível”), ou seremos humanos obsoletos sem ela (o mundo “desactualizado”). Aliás, tal perspectiva poderia ser, eventualmente, corroborada pela indagação seguinte, lida à guisa de desespero dos fanáticos da tecnologia: “e não é estranho que certos indivíduos pareçam aceitar resignadamente o confinamento, a cessação do fluxo?”. Porém, tais pensamentos, ditos em voz alta, mais não se afigurarão, porventura, em uma outra declinação da voz narrativa manejada por Lillo, do que meras constatações. Do mesmo modo que não será, hoje, possível elidir a globalização, o tecnológico assumiu tal importância no funcionamento das nossas sociedades que pensá-las sem tecnologia sugere ser não mais do que uma experiência puramente intelectual (e, portanto, “inconcebível” seja, em termos práticos, um vocábulo, in casu, não demasiado ofensivo), sem qualquer tradução nos quotidianos em que nos inscrevemos. O vício, o açúcar tecnológico está de tal modo inculcado nas veias (humanas da terceira década do século XXI) que, efectivamente, quiçá surpreenda que não assomem à rua desesperados em protesto. Para um contemplativo, céptico das tecnologias, a asserção do narrador pode soar irónica (para mais, sabendo-se de um Don de Lillo sem telemóvel ou PC). Outro, entenderão a observação em modo “realista”. Quem sabe, aliás, senão, mesmo, apontamento em versão benigna: os que ficam sitiados em seus quartos seis meses consecutivos, sem por uma vez saírem à rua (um fenómeno masculino, jovem, japonês do nosso tempo, por exemplo), os carecidos, em permanência, de divertissement, não poderiam, em tais circunstâncias, em que, para citar a poeta Tessa Berens, no seu demodée caderninho azul (tão demodée quanto um autêntico achado, uma esperança contra a mecanização e uniformização de tudo) no avião Paris-Nova Iorque, “um vazio que se desmorona”, invadir em fúria os espaços públicos, ou deprimir em série?...

Quando observamos tudo o que deixa de funcionar nas nossas comunidades com o bug tecnológico, mesmo os que notam(os) os efeitos mais perversos que a tecnologia aduz, diríamos que estamos perante um “salto em frente” com aquele desligar? A interrupção tecnológica será, tudo sopesado, uma “utopia” ou uma “distopia”? (“O tempo deu um salto em frente, como diz o nosso jovem, ou entrou em colapso?”).

Em realidade, mesmo que a um nível puramente intelectual é crucial conceber um mundo outro (diverso daquele permeado pelo exclusivo tecnológico), porque o colapso da tecnologia pode, mesmo, ocorrer (“quanto mais sofisticados, mais vulneráveis”) – parece advertir, neste romance breve, em rigor novela, o autor. 

Do mesmo modo que eminentes pensadores contemporâneos sugerem um downgrade, e não o fim, da globalização, porventura, mantendo-nos em linha com esta analogia, a novela-tese de De Lillo assuma a forma de uma luta contra a deificação do tecnológico – meio, útil, vantajoso sem dúvida, mas não, desejavelmente, a assimilar-se como fim em si mesmo -, grande ídolo, reverenciado e cultuado ferverosamente, do nosso tempo (sem esperar, evidentemente, como virtuosa, a completa abolição da tecnologia). Assinalando aquilo em que nos transformámos, e o que perdemos (e mais poderemos vir a perder, na insaciável aceleração tecnológica). Primordialmente, perdemo-nos; deixámos de saber quem somos, a nossa (humana) identidade ficou em crise/cheque: [com o bug tecnológico caíram] “os nossos sistemas de vigilância, os nossos dispositivos de reconhecimento facial, a resolução das imagens a que recorremos. Como é que sabemos quem somos?”. Outrora, os meios inultrapassáveis para nos adentrarmos, tanto quanto possível, no humano teriam sido a grande literatura, o romance, a poesia, a filosofia, as grandes tradições espirituais da humanidade. Isto, quando havia leitores para as cartas que eram escritas. Diversamente, o positivismo, que tudo varre, concluí-nos como meras superfícies biológicas. O tecnológico, “os dispositivos de reconhecimento facial”, por exemplo, não permitem, reconheça-se, evasões próprias de qualquer dualismo antropológico (somos carne, um dado rosto e não outro, e não espectros; ainda que, e em simultâneo, seja o engenho tecnológico a propiciar alterações na face, discutindo-se, eticamente, hoje, da admissibilidade de um rosto de outrem, nomeadamente de alguém falecido, em sendo possível o seu transplante, poder constituir-se como fronte de um terceiro, mantendo-se este quem é (?!)). Dito isto, subsumir-nos a estas desalmadas superfícies biológicas seria uma desgraça. E, face a ela, humano é sorrir, sucumbir, no limite, a um inevitável sarcasmo: “Verdade e Beleza”, neste livro de De Lillo, é um nome de um restaurante. 

Em um mundo pós-digital, o piloto-automático de um falar (em jeito de) língua de pau, efeito-osmose do demais automatismo em (ou de tudo em) volta, houvesse que ser colocado de parte, obrigando a (pelo menos, tentar) re-significar o que dizemos, re-vitalizando, potencialmente, a conversação com os outros (bem sabemos como, por exemplo, são espécies em vias de extinção os contadores de histórias e o humano sedento de narrativa): “será que estamos a viver uma situação em que temos de pensar no que vamos dizer antes de abrir a boca?”. A interrogação da personagem, frente ao apocalipse digital, caía, igualmente, que nem ginjas, aproveite-se a ocasião para o vincar, a um mundo privado de redes sociais (como seria este, de ficção científica, de De Lillo). 

Fim do relato alucinado da final do SuperBowl; ida à rua, por parte de Max Stenner, ver como as coisas estão. E o que se passa lá fora?, perguntam-lhe quando regressa a casa. “Vocês não querem saber” (p.77). Diane Lucas, a mulher, reconhece que apesar da pergunta, a indiferença, a apatia, a indolência, a alienação é a verdade: “o meu marido não quer descrever o que viu, mas (…) porque é que me mostro tão relutante em levantar-me e ir até à janela e, pura e simplesmente, olhar lá para baixo?”. A resposta é o efeito de anestesia provocado pela tecnologia, o não digital observado como uma externalidade negligenciável, a derrota face a um fluxo contínuo, interminável, a sociedade do cansaço, um nó que, afora a auto-exploração sem fim nem limite, não concebe a capacidade de alterar o mundo plano dependente do/traçado pelo ecrã (e só deste dependente): “perdemos a capacidade de nos assombrarmos, perdemos a curiosidade. O nosso sentido de orientação feito em frangalhos”. 

Com a tecnologia em colapso, “o que nos resta para ver, ouvir, sentir?”, pergunta o jovem imberbe, repleto de borbulhas e bolhas digitais (Martin). Nada há para lá dos ecrãs, não é? Bom, diz Max, na minha infância contava os degraus para casa, numa localidade sem prédios altos. E Tessa, provavelmente, fazia aquelas perguntas soterradas entretanto, lançando mão dos diversos sentidos (“tocar, apalpar, morder, mastigar”) e, com eles, seguramente de uma racionalidade (transcendente) bem longe da estrita e estreita, instrumental, própria do homo tecnologicus: “será que o Sol brilha? Será que o Sol está no céu, sequer? Quem sabe o que tudo isto significa?”. 

O colapso tecnológico que lhe é dado assistir, pode ter sido o início da terceira guerra mundial, supõe Martin, ainda que a hipótese chinesa como origem do apagão (quem mais, hoje por hoje?), não se tenha confirmado (nem infirmado; nem os ET’s podiam ser descartados como causadores deste vírus). O certo é que, não previa assim o génio, ironizando, um recuo tecnológico?, “não sei com que armas se irá travar a Terceira Guerra Mundial, mas sei que a Quarta Guerra Mundial se irá travar com paus e pedras” (Einstein, em epígrafe, a abrir “O Silêncio”, de Don de Lillo). Ou, dito ainda no modo mais chão de quem não precisa de gurus de desintoxicação digital (como profissão maior a breve trecho) para compreender os malefícios do exagero de vinculação tecnológica nas últimas décadas, da solidão desnudada pelo crash – preexistente a este (os vizinhos inexistentes…) - e ainda incrementada por ele (tantos a terem apenas amigos virtuais, assim em desaparecimento… ), na radical pergunta pela manutenção do livre-arbítrio quando o determinismo tecnológico se impõe (seremos ainda um mistério, a breve prazo, poderíamos perguntar de novo, mas agora para perceber se nos queremos formatados e programados sem adversativas), no perigoso absoluto desmemoriar, um passado arrasado e rasurado de um humano sem raízes, no prazer perdido de não consultar o último ecrã: “quando um facto surge sem auxílio digital é uma festa”.   

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